O bispo de São Mateus (ES), dom Paulo Bosi, compôs duas canções para celebrar os 10 anos da Exortação Apostólica Amoris Laetitia e os 45 anos da Exortação Apostólica Familiaris Consortio. As duas publicações são temas de diversas ações da Pastoral Familiar no Brasil ano neste ano de 2026. Junto ao arquivo, o dom Paulo também enviou uma carta na qual motiva as famílias a celebrarem este momento tão especial para a Igreja.
Mensagem na íntegra:
Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus, minha saudação fraterna.
É com alegria e encanto, que apresento a letra e interpretação da música FAMÍLIA DE DEUS, para ajudar nas reflexões sobre o tema: “Família de Deus torna-te aquilo que és” inspirado em Familiaris Consortio e Amores Laetitia, com o lema: “O Amor Jamais Acabará” (1Cor 13). Acredito que a música se encaixa perfeitamente para as diversas atividades, sendo utilizada tanto na Hora da Família, do mês de agosto, quanto durante a celebração dos 10 anos de Amoris Laetitia (“Alegria do Amor”) e dos 45 anos de Familiaris Consortio, eventos relevantes para a formação no universo familiar.
FAMÍLIA DE DEUS (Letra e música: Dom Paulo Bosi Dal´Bó)
1) Pais que não amam seus filhos, filhos que não amam seus pais, valores dispersos na vida, pais e filhos não se entendem mais.
O TEMPO É AGORA, FAMÍLIA É HORA DE VIVER EM PAZ (bis). FAMÍLIA DE DEUS, TORNA-TE AQUILO QUE ÉS, PÁTRIA DA VIDA, ESCOLA DA FÉ (bis).
2) É preciso fazer da família, santuário da vida e do amor, morada de bênçãos e graças, Templo vivo do Cristo Senhor.
3) Família que não nasce do amor, tem na vida a marca da dor. Nova luz no horizonte desponta, convertei-vos, o tempo chegou.
INTERPRETAÇÃO: A letra já é por si só, uma forte profecia para o nosso tempo no universo da família, Igreja e sociedade.
Diante de um mundo onde muitas vezes “pais e filhos já não se entendem mais”, somos convidados a reconhecer uma verdade profunda, quando o amor se enfraquece na família, toda a sociedade sofre.
Pais que não cuidam de suas famílias, perdem suas raízes e filhos que não aprendem a amar dentro de casa, terão dificuldade de amar o mundo. Por isso a urgência do apelo: “o tempo é agora”, não é amanhã, não é depois. É hoje, o momento de reconstruir pontes, curar feridas, reaprender o diálogo, recuperar o respeito e reacender o amor dentro dos lares.
Para cada família, fica o chamado: tornai-vos aquilo que sois por vocação, santuário da vida e do amor. Não apenas um espaço de convivência, mas um lugar onde Deus habita, onde o perdão é vivido, onde a fé é ensinada não só com palavras, mas com gestos concretos. A família é chamada a ser “pátria da vida e escola da fé”, onde se aprende a amar, a servir e a recomeçar.
À Igreja, cabe a missão de acolher, orientar e sustentar as famílias, especialmente aquelas marcadas pela dor. Onde falta amor, a Igreja é chamada a ser presença de misericórdia. Onde há divisão, deve ser instrumento de reconciliação. Onde há escuridão, anunciar com coragem, “uma nova luz no horizonte desponta”.
E à sociedade, a mensagem é clara, não haverá futuro sólido sem famílias fortes. Investir na família é investir na vida, na dignidade humana e na paz. É preciso resgatar valores, promover o bem comum e criar condições, para que as famílias possam viver com dignidade, esperança e harmonia.
Por fim, ecoa o apelo mais profundo: “convertei-vos, o tempo chegou”. Converter-se, aqui, é voltar ao essencial, ao amor que gera vida, que cura, que reconstrói. É permitir que cada família seja, de fato, um reflexo do amor de Deus no mundo, porque quando a família vive em paz, a Igreja se fortalece e a sociedade reencontra o caminho.
Sendo a família o berço de todas as vocações, automaticamente ela se torna um caminho de luz e esperança para os novos tempos.
Parabéns a todos que de uma forma direta ou indiretamente se preocupam e trabalham no setor família. Deus seja louvado pelo sim e pelo trabalho. Que a Sagrada Família interceda a Deus por todos vocês, suas famílias e pelo êxito da missão.
Exortações Apostólicas
Para ajudar na reflexão, além da música, apresento uma pequena Síntese das exortações apostólicas: Familiaris Consortio (Papa João Paulo II – 22 de novembro de 1981) e Amoris Laetitia (A Alegria do Amor – Papa Francisco, publicada em 8 de abril de 2016).
Apresento também uma pequena mensagem pastoral unificada, mostrando a beleza da continuidade entre Familiaris Consortio e Amoris Laetitia. Mesmo em tempos diferentes, é possível notar uma sintonia da linguagem entre São João Paulo II e o Papa Francisco.
1) SÍNTESE DE FAMILIARIS CONSORTIO:
A Familiaris Consortio é uma exortação apostólica, do Papa João Paulo II, de 22 de novembro de 1981, sobre a função da família cristã no mundo de hoje.
A exortação vai dirigida ao clero e a toda Igreja, mas de modo especial, dirige-se particularmente aos jovens, que estão para iniciar o seu caminho para o matrimônio e para a família, abrindo-lhes novos horizontes, ajudando-os a descobrir a beleza e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço da vida. O documento considera a família um dos bens mais preciosos da humanidade.
Entende que numerosas forças, neste momento histórico, pretendem destruir ou deformar a família e que o bem da sociedade está intimamente ligado à família, vê-se, portanto, na obrigação de proclamar com mais veemência os valores cristãos, contidos no Evangelho a este respeito de modo a propiciar uma renovação da sociedade. O documento apresenta um roteiro com temas pertinentes e atuais. No primeiro capítulo apresenta Luzes e sombras da família de hoje. No segundo apresenta o desígnio de Deus sobre o Matrimônio e sobre a Família de hoje e no terceiro capítulo apresenta Os deveres da Família Cristã.
É um convite a educação familiar com ênfase no matrimônio. Educar para o catolicismo não por tradição, mas pelo grave compromisso assumido com Deus pelo matrimônio.
Esta exortação apresenta a família como célula fundamental da sociedade e da Igreja, chamada a viver sua missão como verdadeira “igreja doméstica”.
O documento destaca quatro grandes missões da família: Formar uma comunidade de pessoas fundada no amor, na fidelidade e na doação mútua entre os esposos e entre pais e filhos. Servir à vida, acolher, proteger e educar os filhos, reconhecendo a vida como dom de Deus. Participar do desenvolvimento da sociedade, sendo sinal de valores como solidariedade, justiça e respeito. Participar da vida e missão da Igreja, vivendo a fé no cotidiano e sendo testemunha do Evangelho.
São João Paulo II também reforça a dignidade do matrimônio como aliança de amor indissolúvel. A responsabilidade dos pais como primeiros educadores na fé. A necessidade de apoiar e acompanhar as famílias diante dos desafios do mundo moderno. Na realidade, a família é chamada a ser comunidade de amor e vida, refletindo o próprio amor de Deus no mundo.
2) SÍNTESE DE AMORIS LAETITIA
AMORIS LAETITIA (a “Alegria do Amor”) é uma exortação apostólica do Papa Francisco, publicada em 8 de abril de 2016. Possui nove capítulos e tem como base os resultados de dois Sínodos dos Bispos sobre a Família ocorridos em 2014 e 2015. Os nove capítulos do documento são:
- À luz da Palavra;
- A realidade e os desafios das famílias;
- O olhar fixo em Jesus: a vocação da família;
- O amor no matrimônio;
- O amor que se torna fecundo;
- Algumas perspectivas pastorais;
- Reforçar a educação dos filhos;
- Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade;
- Espiritualidade conjugal e familiar.
Esta exortação é um convite a redescobrir a beleza e a vocação da família como lugar privilegiado do amor, da fé e do crescimento humano.
O nosso saudoso Papa Francisco destacava que a família não é um ideal distante, mas uma realidade concreta, com alegrias e fragilidades. O amor familiar é um caminho de crescimento contínuo, feito de paciência, perdão, diálogo e doação. É fundamental olhar cada família com misericórdia, evitando julgamentos rígidos.
Um ponto central sempre presente em seus discursos é o chamado ao discernimento pastoral, cada situação deve ser acompanhada com atenção e cuidado. A Igreja é chamada a ser mãe que acolhe, especialmente aqueles que vivem situações difíceis ou irregulares.
O documento também valoriza a educação dos filhos na fé e nos valores humanos. A importância do matrimônio como vocação de amor fiel e fecundo. A espiritualidade familiar vivida no cotidiano. A alegria do amor vivido nas famílias, mesmo em meio às dificuldades, é também a alegria da Igreja. Por isso mais do que impor normas, é preciso acompanhar, integrar e amar. Esses e tantos valores encontram-se na exortação apostólica Amoris Laetitia.
3) COMUNHÃO E CONTINUIDADE: Abaixo, apresento uma mensagem pastoral unificada para a Pastoral Familiar, mostrando a beleza da continuidade entre Familiaris Consortio e Amoris Laetitia, em sintonia entre São João Paulo II e Papa Francisco:
A Igreja, ao longo do tempo, tem reafirmado com amor e firmeza a grandeza da família como dom de Deus. Em Familiaris Consortio, São João Paulo II nos recorda que a família é chamada a ser comunidade de amor e vida, “igreja doméstica”, onde se aprende a amar, a servir e a acolher a vida.
Décadas depois, o Papa Francisco, em Amoris Laetitia, não muda esse fundamento, mas o aprofunda com um olhar pastoral cheio de misericórdia, lembrando que a família real é feita também de limites, desafios e feridas. Por isso, mais do que nunca, é preciso acompanhar, discernir e integrar.
Há, portanto, uma bela continuidade, São João Paulo II nos apresenta o ideal da família, sua identidade e missão no plano de Deus. O Papa Francisco nos convida a olhar para a realidade concreta das famílias, com ternura e proximidade. Ambos nos dizem, cada um a seu modo, que a família é o lugar onde o amor de Deus se torna visível. Os pais são os primeiros educadores na fé e na vida. Os dois papas afirmam que a família tem uma missão de grande relevância na Igreja e na sociedade: ser sinal de esperança, unidade e cuidado com a vida.
Hoje, a Pastoral Familiar possui uma nobre missão, ela é chamada a viver essa síntese, anunciar com clareza a beleza do matrimônio e da família e ao mesmo tempo acolher com misericórdia cada história concreta. Olhar com misericórdia a realidade de cada família.
A família não é apenas um ideal a ser defendido, mas uma realidade a ser amada, cuidada e acompanhada. Assim, unindo verdade e misericórdia, continuamos a missão da Igreja, fazer da família um verdadeiro santuário da vida e do amor, conforme nos diz a segunda estrofe da música FAMÍLIA DE DEUS: “É preciso fazer da família, santuário da vida e do amor, morada de bênçãos e graças, Templo vivo do Cristo Senhor” (Dom Paulo).
Clamamos a Deus por intercessão da Sagrada Família, para que as nossas famílias e comunidades sejam cada vez mais casas que acolhem, escolas de amor e hospitais de campanha, onde as famílias encontram cura, apoio, luz e esperança.
Dom Paulo Bosi Dal´Bó
Bispo da Diocese de São Mateus (ES)


