Um ardor renovado da Pastoral Familiar no Brasil passa, necessariamente, por uma redescoberta mais clara e mais profunda do matrimônio como vocação cristã. Torna-se cada vez mais evidente que o matrimônio precisa ser anunciado, acolhido e acompanhado como verdadeiro chamado de Deus. Não se trata apenas de uma forma legítima de vida, socialmente reconhecida, mas de um caminho de santidade, de missão e de testemunho, enraizado no batismo e sustentado pela graça sacramental.
Não basta uma pastoral familiar restrita à preparação imediata para o casamento ou ao atendimento de crises conjugais. É necessário um horizonte mais amplo, que inclua a iniciação cristã como eixo fundamental do trabalho pastoral, e o diálogo orgânico com a juventude, o serviço de animação vocacional e todas as outras pastorais e serviços eclesiais. Somente assim será possível lançar bases sólidas para o surgimento de famílias cristãs capazes de viver a fé, transmiti-la aos filhos e tornar-se sujeito ativo de evangelização.
Não raramente, os jovens crescem em nossas comunidades sem escutar de modo explícito que ser esposo, esposa, pai e mãe pode constituir uma resposta santa e missionária ao chamado de Deus. Quando isso não acontece, o matrimônio deixa de ser percebido como vocação e passa a ser entendido apenas como escolha afetiva, projeto privado ou construção social.
Se o matrimônio não é anunciado como vocação, ele também não é discernido como tal. Se não é discernido, dificilmente será assumido com consciência sacramental. E, se não é vivido como sacramento, perde-se sua força missionária, sua fecundidade espiritual e sua capacidade de irradiar a fé no interior da família.
O matrimônio é uma vocação enraizada na fé, então ele merece um acompanhamento catecumenal por parte da Igreja. A preparação para o matrimônio não pode reduzir-se a um curso breve ou a um conjunto de exigências formais antes da celebração. Tal como o batismo exige um caminho de iniciação, o ministério ordenado exige, também o matrimônio necessita de um processo de amadurecimento na fé, de discernimento e de inserção na comunidade.
É preciso reconhecer que, muitas vezes, na raiz das dificuldades está a fragilidade da fé. Quando não há experiência viva de Cristo, quando o Evangelho não ilumina as escolhas concretas, quando a graça sacramental não encontra um coração minimamente preparado para acolhê-la, o matrimônio corre o risco de ser vivido apenas com forças humanas. E então se tornam ainda mais difíceis a fidelidade, o perdão, a abertura à vida, a perseverança nas crises e a compreensão da própria missão familiar.
Por isso, a Pastoral Familiar propõe integrar a preparação matrimonial com um verdadeiro acompanhamento que ajude noivos e esposos a experimentar a fé, através do Itinerário Vivencial Personalizado de Preparação Matrimonial. Não basta ensinar conteúdos sobre o sacramento; é preciso criar condições para que os casais encontrem Cristo, escutem a Palavra, aprendam a rezar, insiram-se na comunidade, reconheçam a ação de Deus em sua história e descubram que a vida matrimonial é lugar concreto de seguimento do Senhor. Somente um matrimônio evangelizado poderá tornar-se evangelizador.
Isso significa que a juventude e o serviço de animação vocacional não podem trabalhar separadas da pastoral familiar. A questão vocacional não começa apenas quando um jovem pensa em casar-se ou em ingressar num seminário ou convento; ela começa muito antes, no processo de formação da identidade, da afetividade, da liberdade e da capacidade de amar.
Acompanhar adolescentes e jovens em chave catecumenal significa ajudá-los a desejar o futuro à luz da fé. Significa apresentar-lhes a beleza da vocação cristã, ensiná-los a discernir, mostrar-lhes que a vida não é simples soma de escolhas individuais, mas resposta a um chamado. Significa também ajudá-los a compreender que o amor não se reduz a sentimento, que a liberdade não se confunde com ausência de vínculos, e que a entrega de si encontra sua verdade na doação fiel e fecunda.
Outro ponto central para um novo ardor da Pastoral Familiar é a retomada da noção de igreja doméstica. Essa expressão, presente no Concílio Vaticano II e reiterada no magistério recente, oferece uma chave preciosa para compreender a missão da família na Igreja e no mundo. Chamar a família de igreja doméstica não significa idealizá-la ou ignorar suas fragilidades. Significa reconhecer que o lar pode tornar-se lugar da presença de Cristo, espaço de transmissão da fé, escola de humanidade, de perdão, de discernimento e de missão.
Muitas famílias vivem em meio a tensões econômicas, cansaço, insegurança, feridas relacionais e fragilidade espiritual. Justamente por isso, a pastoral não pode contentar-se com uma visão idealizada da vida familiar. É preciso partir da realidade concreta e valorizar as dinâmicas naturais do cotidiano familiar como possibilidade de formação cristã. O lar pode tornar-se centro de formação para pais e filhos quando a comunidade ajuda a cultivar pequenas práticas de fé: oração em família, bênção dos filhos, escuta da Palavra, memória agradecida da presença de Deus, diálogo sincero, reconciliação, partilha e discernimento das decisões cotidianas.
Essa visão exige também uma reorganização mais profunda da pastoral diocesana e paroquial. A Pastoral Familiar não pode permanecer isolada como um setor entre outros, responsável apenas por algumas atividades específicas. A família, em sua fragilidade e em sua riqueza, precisa ser reconhecida como coração da missão da Igreja e primeiro lugar de evangelização. Isso pede uma ação pastoral mais integrada, mais transversal e mais orgânica com o Conselho de Pastoral Paroquial e consecutivamente com a Diocese.
Em vez de pensar cada área pastoral de forma independente, seria necessário construir itinerários comuns. A catequese poderia propor o envolvimento mais explicitamente dos pais; a juventude anunciar o matrimônio como vocação; o serviço de animação vocacional incluir o discernimento da vida matrimonial; a preparação para o casamento deveria estar conectada com a experiência comunitária anterior dos noivos; e os primeiros anos de vida conjugal de acordo com Amoris Laetitia, ser acompanhados com maior atenção.
Esse esforço de integração é particularmente necessário, onde muitas iniciativas pastorais são generosas, mas ainda fragmentadas. Há, por vezes, boa vontade e multiplicidade de ações, mas falta unidade de visão. Sem essa unidade, corre-se o risco de oferecer respostas parciais a problemas profundos.
A preparação para o matrimônio precisaria assumir caráter mais personalizado, processual e catecumenal. Em vez de limitar-se a encontros rápidos e generalizados, seria importante oferecer acompanhamento mais prolongado, com casais acompanhantes, escuta da história concreta dos noivos, aprofundamento espiritual e inserção comunitária. O centro desse caminho não deveria ser apenas a celebração do casamento, mas a formação de uma vocação matrimonial cristã. Por isso, a Comissão Nacional oferece um itinerário personalizado.
É louvável e necessário investir com mais decisão no acompanhamento dos primeiros anos de casamento. Muitos casais se afastam da comunidade justamente quando começam a experimentar as exigências concretas da vida a dois, da chegada dos filhos, das dificuldades financeiras e do cansaço cotidiano. Esse período inicial não pode ser pastoralmente abandonado. Grupos de recém-casados, acompanhamento por casais mais experientes, momentos de oração e convivência, formação para a vida familiar e espaços de escuta podem tornar-se instrumentos muito preciosos.
Não haverá encontro e seguimento de Cristo, sem agentes e pastores preparados para acompanhar, discernir, escutar e integrar. É preciso formar pessoas capazes de unir fidelidade doutrinal, sensibilidade pastoral, conhecimento da realidade e capacidade de caminhar com as famílias concretas, sem rigidez e sem superficialidade, caso contrário, vamos continuar a ser alfandegas das paróquias observando os casais perfeitos e tentando trazer para perto os que ainda não são, para que sejam. Enquanto as outras realidades e desafios familiares continuam abandonadas pela comunidade de fé.
Anunciar o matrimônio como vocação é devolver ao amor conjugal sua dignidade espiritual e sua força missionária. Ajudar adolescentes e jovens a discernirem sua vocação, preparar noivos para encontrar Cristo na vida matrimonial, acompanhar os casais em seus primeiros anos e sustentar as famílias em sua missão evangelizadora são tarefas inseparáveis de uma Igreja que deseja ser, de fato, mãe e mestra.
Assim, é urgente passar de uma pastoral fragmentada para uma pastoral de processos, de acompanhamento e de integração. Reconhecer que a família, mesmo marcada por fragilidades, continua sendo o lugar onde a fé pode nascer, amadurecer e ser transmitida. Compreender que a missão da Igreja não estará plenamente realizada enquanto o matrimônio não for acolhido, anunciado e vivido como aquilo que realmente é: um caminho de seguimento de Cristo, de santificação recíproca e de serviço à vida da Igreja e da sociedade.
Pe. Rodolfo Chagas Pinho
Presbítero da Diocese de Jacarezinho-PR
Assessor da Comissão Episcopal Vida e Família CNBB e Secretário Executivo Nacional da Pastoral Familiar


