Todos os dias somos feridos por notícias que parecem rasgar o coração da família, com pessoas que moram na mesma casa tendo atitudes extrema de violência chegando a morte. Companheiros que transformam a casa, lugar que deveria ser abrigo, em cenário de medo, agressão e morte.
Diante disso, a pergunta é inevitável, por que tantos adultos se tornaram assim? O que aconteceu dentro deles para que o diálogo fosse substituído pela explosão, pelo controle, pela humilhação e, em casos extremos, pela eliminação do outro?
Muitas vezes, o adulto intolerante não nasceu pronto. Ele foi se deformando. Foi aprendendo, cedo, que conflito se resolve no grito, que autoridade é imposição, que frustração se descarrega no corpo do outro, que afeto vem misturado com medo. Alguns cresceram sem escuta; outros, sem limites saudáveis; outros, sem ternura; outros, mergulhados em humilhação, abandono ou violência. Quando a dor não é tratada, ela pode virar dureza. Quando a criança não aprende a nomear o que sente, pode crescer reagindo com impulsividade. Quando o vínculo é ferido desde cedo, o outro deixa de ser companheiro e passa a ser ameaça.
Por isso, esse problema não pode ser lido apenas como caso de polícia, embora também exija polícia, justiça e proteção efetiva. Trata-se de uma crise de formação humana, afetiva, moral e espiritual. Há adultos que nunca desenvolveram maturidade para ouvir “não”. Nunca foram educados para o diálogo, para a empatia, para o autocontrole. Vivem relações marcadas pela posse, não pela comunhão; pelo domínio, não pelo amor; pela eliminação simbólica ou real do outro, não pela reconciliação.
A Pastoral Familiar não substitui psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, conselhos tutelares, delegacias ou o sistema de justiça. Mas ela pode agir onde muitas tragédias começam, tal como na formação das consciências, na cura dos vínculos e na prevenção dentro da vida familiar. Pode ajudar formando pais e mães para uma educação que una amor e limite. A comunidade pode ensinar que educar não é esmagar, humilhar ou controlar; é conduzir, escutar, corrigir com firmeza e dignidade.
Pode ajudar, também, promovendo cultura de diálogo dentro de casa. Famílias precisam reaprender a conversar antes do rompimento, a nomear emoções antes da explosão, a pedir ajuda antes da tragédia. Uma pastoral familiar madura não fala apenas de sacramentos e doutrina; ela ensina convivência, perdão, escuta, manejo de conflitos, respeito e responsabilidade afetiva.
A pastoral familiar pode, então, ser ponte, acolher, escutar, orientar e encaminhar. Quando necessário, deve dizer com clareza que a vítima precisa de proteção imediata e de acesso à rede pública. Em situações de violência, não basta aconselhar tenham paciência ou rezem mais. É preciso proteger a vida. A oração é indispensável; a omissão é imperdoável.
É urgente formar homens e mulheres para o serviço, a ternura, o autocontrole e a responsabilidade. Normalizou-se o grito, a humilhação, a pornografia da violência, a lógica da posse, o descarte do outro, a incapacidade de sofrer limites.
Por isso, é louvável prevenir na infância, acompanhar na juventude, sustentar os casais, proteger os vulneráveis, tratar as feridas, denunciar a violência e formar consciências para uma espiritualidade do encontro. Onde a casa virou campo de batalha, a pastoral familiar é chamada a ser presença que reconstrói humanidade.
É preciso trabalhar para que menos crianças cresçam em lares violentos e, assim, menos adultos reproduzam violência amanhã. Se a infância for educada no amor, no limite, na escuta e na fé, a vida adulta terá mais chance de aprender que conflito não se resolve eliminando o outro, mas reconhecendo nele um irmão.
Quando um pai mata um filho, um filho mata um pai ou um marido mata a esposa, não estamos diante apenas de um crime individual. Estamos diante do colapso dos vínculos, do fracasso do diálogo, da erosão da consciência moral e, muitas vezes, da repetição de feridas antigas nunca tratadas.
A pastoral familiar pode ajudar muito quando deixa de ser apenas pastoral de eventos e se torna pastoral de prevenção, formação, escuta, proteção e reconstrução dos laços. Como discípulos de Cristo, mestre da vida, devemos lembrar que a família deve ser o lugar onde a vida é defendida, a dor é acolhida, o conflito é elaborado e o amor é aprendido. Quando isso falha, toda a sociedade adoece. Quando isso é cuidado, a esperança recomeça.
Pe. Rodolfo Chagas Pinho
Presbítero da Diocese de Jacarezinho-PR
Assessor da Comissão Episcopal Vida e Família CNBB e Secretário Executivo Nacional da Pastoral Familiar

