Solenidade da Assunção de Nossa Senhora
Encerramento da Semana Nacional da Família – Paróquia São Pio de Pietrelcina – Brasília DF
Queridos irmãos e irmãs,
Celebramos hoje a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora e, ao mesmo tempo, concluímos a Semana Nacional da Família. Ao contemplarmos Maria elevada ao céu em corpo e alma, contemplamos também o destino para o qual Deus chama cada pessoa, cada família e toda a Igreja: a comunhão plena com Ele, pois a identidade da família é Deus!
A Assunção não significa que Maria se afastou de nós, ao contrário, elevada à glória do céu, ela permanece próxima de seus filhos. Aquela que esteve presente em Nazaré, em Caná, aos pés da cruz e no cenáculo continua acompanhando a caminhada da Igreja e entrando, como Mãe, nas alegrias, nos sofrimentos e nas esperanças de nossas famílias. São João Paulo II recorda que Maria é, de forma especial, a Mãe das famílias cristãs, das Igrejas domésticas.[1]
Na primeira leitura, o Livro do Apocalipse apresenta uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas. É uma imagem de Maria, mas também da Igreja. Essa mulher aparece gloriosa, porém atravessa as dores do parto e enfrenta a ameaça do dragão. A Palavra de Deus não esconde o combate existente entre a vida e as forças da morte, entre o projeto de Deus e tudo aquilo que procura destruir a dignidade humana.
Nossas famílias também vivem esse combate e muitas carregam as dores da enfermidade, do desemprego, da violência, da solidão, das dependências, das divisões e do luto. Há famílias cansadas pela falta de diálogo, casais feridos pelo distanciamento, pais angustiados com os filhos, jovens sem perspectivas, idosos que se sentem esquecidos. Há lares atingidos pelo individualismo e pelo uso desordenado das tecnologias, que aproxima quem está distante, mas, muitas vezes, afasta quem está sentado à mesma mesa, por isso seria tão bom uma refeição sem telas.
Entretanto, a leitura do Apocalipse é uma mensagem dede esperança, a mulher não é abandonada. Deus protege a vida que nasce e prepara um lugar para ela. O mal pode ameaçar, ferir e dividir, mas não possui a última palavra. A Assunção de Maria confirma esta certeza: o amor é mais forte do que a morte, a graça é mais forte do que o pecado e a esperança é mais forte do que o desânimo.
São Paulo nos recorda: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. A Assunção de Maria está inseparavelmente ligada à ressurreição de Jesus. Maria não chegou ao céu apenas por suas próprias forças, ela foi inteiramente alcançada pela vitória de seu Filho. Nela contemplamos antecipadamente aquilo que Deus deseja realizar em todos nós.
Por isso, a Assunção fala diretamente às famílias, nos recorda que nossa vida não termina nas dificuldades do presente. Nossos corpos, nossos afetos, nossos vínculos e nossa história possuem um destino eterno. Tudo aquilo que é vivido no amor não está perdido. Cada gesto de cuidado, cada reconciliação, cada sacrifício silencioso dos pais pelos filhos, cada noite passada junto a uma pessoa enferma, cada oração feita em família e cada esforço para permanecer unidos possuem valor diante de Deus.
A família é uma vocação e, ao mesmo tempo, um caminho de amadurecimento, diz o Papa Francisco: Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar.[2] A família não nasce pronta, ela se constrói todos os dias por meio da paciência, do diálogo, da fidelidade, do perdão e da capacidade de recomeçar.
Não devemos idealizar a família como se nela não existissem problemas, diferenças ou feridas. A família santa não é aquela que nunca enfrenta crises, mas aquela que permite que Deus aja dentro de suas crises. Não é aquela que nunca se fere, mas aquela que não desiste da reconciliação e do cuidado.
Por isso, permanece atual o apelo de São João Paulo II: Família, torna-te aquilo que és!.[3] Torna-te comunidade de vida e de amor. Torna-te lugar de acolhida e pertença. Torna-te espaço no qual a criança seja protegida, o jovem seja acompanhado, o adulto encontre apoio e o idoso seja reconhecido como memória, sabedoria e testemunha da fé.
O Evangelho apresenta Maria em movimento depois de acolher o anúncio do anjo, ela partiu para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente à casa de Isabel. Maria recebeu uma graça e imediatamente a transformou em serviço. Ela não se fechou em si mesma nem permaneceu contemplando apenas o privilégio recebido. A presença de Deus em sua vida tornou-se disponibilidade para cuidar, como a família precisa cuidar, revelar e comunicar o amor.
Maria percebe que Isabel necessita de sua presença, ela não envia apenas uma mensagem nem se limita a dizer que rezará de longe. Maria se levanta, enfrenta o caminho e entra na casa de sua parenta. Sua visita nos ensina que amar é aproximar-se. Amar é fazer-se presente. Amar é dedicar tempo. Amar é carregar com o outro o peso da caminhada. O corpo de delito do amor é o cuidado.
A família cristã não pode viver fechada em si mesma, ela é chamada a sair, visitar, acolher, servir e aproximar-se de outras famílias. São João Paulo II define os esposos e os pais cristãos como verdadeiros missionários do amor e da vida.[4]
A família evangeliza não apenas quando fala de Deus, mas quando abre sua porta, reparte o alimento, visita um enfermo, acolhe uma gestante, acompanha um casal em crise, protege uma criança, escuta um jovem, ampara um idoso e oferece amizade a quem está sozinho. A missão da família começa dentro de casa, mas não termina dentro dela.
Maria entrou na casa de Isabel e aquela casa se encheu de alegria, a criança pulou no ventre, Isabel ficou cheia do Espírito Santo e Maria proclamou o Magnificat. Quando Maria entra em uma casa, ela sempre leva consigo Jesus. Essa é também a missão da Pastoral Familiar: aproximar-se das casas levando a presença de Cristo. Não para julgar as famílias a partir de fora, mas para caminhar com elas, não para exigir que sejam perfeitas, mas para ajudá-las a reconhecer a graça que já está agindo em sua história.
O Papa Francisco ensina que as famílias, pela graça do sacramento, não são apenas destinatárias da ação pastoral, mas sujeitos principais da Pastoral Familiar.[5] Isso significa que as famílias não são simplesmente pessoas que recebem orientações da Igreja, elas são protagonistas da evangelização. Por meio de seus vínculos, de sua hospitalidade, de seu testemunho e de seu serviço, tornam presente o amor de Cristo no mundo.
Nossas famílias são chamadas a viver uma espiritualidade encarnada, rezar em família é necessário, mas a oração deve transformar nossos relacionamentos. Não podemos rezar o Pai-Nosso e permanecer incapazes de pedir perdão. Não podemos honrar Maria e desrespeitar as mulheres. Não podemos defender a família apenas com discursos e abandonar as famílias concretas que sofrem. Não podemos falar da vida e permanecer indiferentes à criança, ao nascituro, à gestante desamparada, à pessoa com deficiência, ao pobre e ao idoso.
Ao encerrarmos esta Semana Nacional da Família, não estamos concluindo apenas uma programação, mas estamos assumindo e renovando uma missão. A família não pode ser lembrada apenas durante uma semana do ano. Ela deve estar no centro da ação evangelizadora todos os dias. Precisamos passar dos eventos aos processos, das palestras ao acompanhamento, das palavras à proximidade concreta.
Cada paróquia precisa tornar-se uma verdadeira família de famílias, na qual ninguém seja reduzido à sua fragilidade ou excluído por causa de sua história. A Pastoral Familiar deve ajudar nossas comunidades a acolher, acompanhar, discernir e integrar, oferecendo às famílias não apenas ensinamentos, mas amizade, escuta, formação, oração e caminhos concretos de comunhão.
Hoje, olhando para Maria elevada ao céu, renovemos nossa esperança, pois nenhuma família está condenada a permanecer para sempre em suas feridas. Com a graça de Deus, o diálogo pode ser reconstruído, o perdão pode ser oferecido, a confiança pode renascer e os vínculos podem ser fortalecidos. Talvez nem todas as situações possam voltar a ser como eram, mas toda história pode ser tocada pela misericórdia e conduzida a uma vida nova.
Que Maria visite nossas casas como visitou a casa de Isabel e que ela nos ensine a ter pressa para servir, paciência para acompanhar e humildade para reconhecer a ação de Deus. Que os casais encontrem nela inspiração para a fidelidade; os pais, sabedoria para educar; os filhos, disposição para amar e respeitar; os jovens, coragem para responder à sua vocação; e os idosos, a certeza de que sua presença, memória e fé são preciosas.
Ao concluir esta Semana Nacional da Família, confiemos a Maria todas as nossas famílias, as que vivem momentos de alegria e as que choram; as que estão unidas e as que atravessam divisões; as que acolhem uma nova vida e as que sofrem uma perda; as famílias que estão próximas da Igreja e aquelas das quais nós precisamos nos aproximar em suas mais diversas realidades e dores concretas.
Maria, mulher vestida de sol, cubra nossas famílias com seu manto, Maria, mulher do Magnificat, ensine-nos a reconhecer as maravilhas de Deus. Maria, Mãe elevada ao céu, ajude-nos a transformar nossas casas em lugares de encontro, oração, diálogo, cuidado e esperança.
E que cada família, sustentada pela graça de Cristo, possa tornar-se uma Igreja doméstica, uma tenda de comunhão e um sinal vivo de que o amor de Deus continua habitando no meio de nós.
Amém.
[1] Familiaris Consortio, n. 61
[2] Amoris Laetitia, n. 325.
[3] Familiaris Consortio, n. 17.
[4] Familiaris Consortio, n. 54.
[5] Amoris Laetitia, n. 200.

