Por padre Rodolfo Chagas Pinho
Assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB
Na vida da Igreja, ainda é comum que a pastoral familiar seja vista de forma reduzida, quase sempre associada apenas aos casais, aos noivos, aos pais e às mães. Essa visão, porém, não corresponde à riqueza da missão que a pastoral familiar é chamada a exercer na comunidade. A pastoral familiar não é um grupo de casais. Ela é uma presença transversal na vida paroquial, porque a realidade da família toca toda a existência humana. Por isso, seus destinatários e protagonistas não são apenas os esposos, mas todas as pessoas que, em diferentes estados de vida, se relacionam com a vocação ao amor, à comunhão e ao cuidado.
Nesse horizonte, é necessário voltar o olhar para um grupo muitas vezes pouco compreendido e pouco acompanhado: os solteiros por escolha de vida, isto é, aqueles que não vivem a solteirice como fase passageira antes do matrimônio, mas como uma decisão estável, como um caminho de vida e, em muitos casos, como uma autêntica vocação. Não se trata aqui dos que ainda esperam o casamento, nem apenas dos que estão em discernimento. Trata-se daqueles que, diante de Deus e da própria consciência, não se sentem chamados ao matrimônio e assumem a vida solteira como forma concreta de viver o Evangelho.
Esses fiéis estão na Igreja, participam da comunidade, servem com generosidade, amam a Cristo e desejam viver plenamente sua pertença eclesial. No entanto, muitas vezes permanecem invisíveis na ação pastoral, como se não houvesse uma linguagem, um espaço ou uma proposta que os acolhesse de verdade. Parecem “soltos” na Igreja, não porque estejam sem fé ou sem compromisso, mas porque frequentemente não encontram um lugar pastoral onde sua condição de vida seja compreendida, valorizada e acompanhada.
Uma das grandes dificuldades pastorais está no fato de que, por muito tempo, a comunidade cristã acostumou-se a pensar a vocação de forma quase binária: ou a pessoa se casa, ou segue uma vocação consagrada. Embora essas duas formas sejam fundamentais na vida da Igreja, a realidade é mais ampla e mais delicada. Há também cristãos que vivem a sua entrega a Deus e aos irmãos sem abraçar o matrimônio e sem ingressar na vida religiosa. Permanecem leigos, inseridos no mundo, servindo à Igreja e sustentando relações de amor, amizade, cuidado, generosidade e missão.
Em muitos casos, trata-se de um caminho amadurecido, assumido com liberdade, serenidade e fé. A pessoa percebe que sua forma de amar, servir e viver a pertença a Cristo não passa pelo casamento, e acolhe essa realidade como modo concreto de responder ao chamado de Deus.
Se a Igreja afirma que toda vocação autêntica é um chamado ao amor, então também é preciso aprender a reconhecer as formas de amor vividas pelos solteiros: amor ao serviço, à comunidade, à família de origem, aos pobres, aos doentes, aos amigos, à missão, à vida profissional entendida como serviço e ao próprio Reino de Deus.
A família não existe como realidade isolada do restante da Igreja. Ela se insere em uma comunidade mais ampla, e essa comunidade é formada por pessoas em diversos estados de vida. A pastoral familiar, por isso, não pode trabalhar apenas com o casal constituído. Ela deve ajudar a comunidade a compreender as relações humanas, os vínculos, as feridas, os afetos, o cuidado intergeracional, a educação para o amor e o discernimento vocacional em sentido amplo.
Os solteiros conhecem a experiência do cuidado com os pais, do serviço livre à comunidade, da disponibilidade pastoral, da amizade fiel, do apoio à vida familiar de irmãos, sobrinhos, afilhados e pessoas da comunidade. Podem ser presença de equilíbrio, escuta e dedicação. A pastoral familiar não deve apenas lembrar deles, deve reconhecê-los como parte integrante de sua missão.
Acolher pastoralmente os solteiros significa reconhecê-los em sua realidade concreta, sem pressão, sem estereótipos e sem a tentativa constante de enquadrá-los em um modelo de vida que não corresponde ao seu caminho. A acolhida começa quando a Igreja deixa de olhar para eles como uma ausência (não casou) e passa a olhá-los como presença (vive um caminho próprio de discipulado).
Não se trata de criar um setor dos solteiros, mas inserir essa realidade no coração da própria pastoral, para que ela deixe de ser vista como apêndice e passe a ser percebida como parte do todo. O solteiro não está fora da dinâmica familiar da Igreja. Ele é filho, irmão, tio, tia, afilhado, cuidador, amigo, catequista, ministro, servo da comunidade. Ele participa da trama real das relações humanas. Sua vida toca a família e é tocada por ela.
Quando a pastoral familiar reconhece os solteiros por vocação, ela amadurece. Deixa de ser pastoral de um modelo único e torna-se pastoral do cuidado com as pessoas concretas. Deixa de funcionar apenas em torno do casal e passa a refletir mais profundamente a catolicidade da Igreja, onde há muitos caminhos legítimos de viver o amor e a entrega.
Em uma sociedade que valoriza muito os relacionamentos afetivos, mas nem sempre compreende a profundidade das vocações, a Igreja pode testemunhar que o valor de uma vida não depende de seu estado civil, mas da fidelidade com que essa vida é entregue a Deus e aos irmãos.
Os solteiros podem ser sinais eloquentes de liberdade interior, disponibilidade missionária, serviço generoso e fecundidade espiritual. Quando são acolhidos e integrados, deixam de parecer soltos e passam a ser vistos como o que de fato são, membros vivos do Corpo de Cristo, chamados a enriquecer a Igreja com a singularidade de sua resposta.
A pastoral familiar precisa reafirmar com coragem aquilo que já está em sua própria identidade: ela não é um grupo de casais, mas uma ação evangelizadora que alcança todas as realidades humanas ligadas ao amor, à vocação, aos vínculos e à vida comunitária. Nesse sentido, os solteiros não são periféricos, nem casos à parte. São destinatários e protagonistas da pastoral familiar.
Acolhê-los, acompanhá-los e integrá-los não é concessão, mas exigência evangélica. É reconhecer que Deus continua chamando pessoas por caminhos diversos e que a Igreja só será verdadeiramente casa e família quando todos se sentirem nela conhecidos, valorizados e enviados.

