Jonathan Igor da Silva — Psicólogo
Coordenador do Grupo de Referência em Saúde Mental para a Pastoral Familiar
Que a Paz de Jesus, o Divino Salvador, esteja no coração de cada família, trazendo consolo, ternura e esperança. Neste último texto da nossa caminhada do Setembro Amarelo, queremos voltar nosso olhar para aqueles que permanecem após uma perda por suicídio ou após uma tentativa frustrada. A Cartilha Cuidar da Vida, da Comissão Episcopal para a Juventude do Brasil, dedica um capítulo inteiro à posvenção, que é o cuidado amoroso, responsável, profissional e até comunitário oferecido às pessoas que foram profundamente afetadas por um episódio de suicídio. A posvenção não é apenas um conjunto de orientações; é um gesto de misericórdia, uma ação necessária frente ao suicídio, uma missão pastoral e uma expressão concreta da fé que nos chama a “carregar as cargas uns dos outros” (Gl 6,2).
A posvenção envolve duas realidades distintas: a posvenção ao suicídio concretizado e a posvenção à tentativa frustrada. Em ambos os casos, a dor é profunda, complexa e atravessa dimensões físicas, psíquicas, espirituais, familiares e sociais para além da família. Quem perde alguém por suicídio enfrenta sentimentos intensos como culpa, raiva, confusão, medo, vergonha, solidão e até mesmo uma sensação de abandono. As reações e sentimentos são múltiplos e variam de pessoa para pessoa, mas ninguém deve enfrentar isso sozinho. Já quem sobrevive a uma tentativa precisa de cuidado contínuo, acolhimento, acompanhamento e uma rede que compreenda que o risco não desaparece imediatamente. A posvenção é, portanto, o cuidado que se estende no tempo, que respeita o ritmo de cada pessoa e que reconhece que também o luto por suicídio é diferente de outros lutos.
Assim, podemos afirmar que a posvenção é um processo que envolve rede, tempo e reparação. A rede é formada pela família, amigos, comunidade eclesial, profissionais de saúde e em especial grupos de apoio. O tempo é o ritmo próprio de cada pessoa, que não pode ser apressado nem comparado. E a reparação são as ações concretas que ajudam a reconstruir vínculos, reorganizar a vida e ressignificar a dor. A rede de pessoas enlutadas é ampla, e cada pessoa afetada precisa ser vista, escutada e acompanhada. Isso inclui familiares próximos, colegas de trabalho, amigos, vizinhos e até membros da comunidade que conviviam com quem partiu. A posvenção não é apenas para quem perdeu alguém; é para todos que foram tocados pela dor.
Para as famílias, a posvenção começa pelo acolhimento mútuo. É importante criar um ambiente onde seja possível falar sobre a perda sem medo, sem julgamento e sem silenciar a dor. Há momento de calar e há momento de falar, lembrando que cada pessoa vive o luto de maneira diferente. Algumas precisam falar muito; outras precisam de silêncio. Algumas buscam companhia; outras precisam de recolhimento. A família deve ser espaço de respeito, escuta e liberdade emocional.
Outro ponto essencial é desmistificar o tabu. É necessário conversar com a rede de apoio sobre o que aconteceu, evitando interpretações moralistas, religiosas ou culpabilizantes. O suicídio é resultado de um sofrimento extremo, multifatorial e complexo. A posvenção ajuda a família a compreender isso, libertando-a de culpas injustas e abrindo espaço para a verdade, a misericórdia e a cura. De qualquer forma, aqui também nos cabe dizer: “Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2283).
A cartilha do Projeto Cuidar da Vida também orienta que, após uma tentativa frustrada, é fundamental oferecer apoio ao retorno gradual à rotina, respeitando o quadro emocional e físico da pessoa. Isso inclui não deixá-la sozinha, acompanhar consultas, organizar horários, reduzir pressões e criar um ambiente seguro. Leva tempo para a pessoa sair do risco de uma nova tentativa, e a rede deve permanecer atenta, presente e disponível. Mas esse cuidado não substitui o acompanhamento profissional; ao contrário, deve caminhar junto com psicoterapia, psiquiatria e outros serviços de saúde.
A posvenção também envolve ações reparadoras, que ajudam a reorganizar a vida após a perda. Isso pode incluir rituais de despedida, celebrações da memória, momentos de oração, conversas familiares, acompanhamento espiritual e participação em grupos de apoio ao luto. Essas ações não eliminam a dor, mas ajudam a transformá-la, permitindo que a família encontre novos sentidos e caminhos. A fé cristã, nesse processo, não é usada para explicar o suicídio, mas para sustentar a esperança, consolar o coração e lembrar que Deus acolhe com misericórdia aqueles que sofrem.
Por fim, recomendamos uma vez mais que todas as famílias baixem gratuitamente a Cartilha Cuidar da Vida: Prevenção ao Suicídio de Adolescentes e Jovens, disponível no site Jovens Conectados. O capítulo de posvenção é um instrumento precioso para orientar famílias, comunidades e grupos pastorais a cuidar de quem fica; oferecendo caminhos seguros, humanos e cristãos para reconstruir a vida após a dor. O material foi preparado com responsabilidade, fé e profundo compromisso com a dignidade humana.
Que Jesus, o Divino Salvador, acompanhe cada família que vive o luto por suicídio ou que cuida de alguém que sobreviveu a uma tentativa. Que Ele seja consolo e força e que toda reflexão proposta neste Setembro Amarelo ajude nossas comunidades a compreender que a posvenção é um gesto de amor, de fé e de compromisso com a vida, fundamental a uma Igreja que inspirada na dinâmica de Emaús não tem medo de entrar na noite escura do povo que precisa de luz.
REFERÊNCIAS
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000. n. 2283.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Comissão Episcopal para a Juventude. Cartilha Cuidar da Vida: Prevenção de Suicídio entre Adolescentes e Jovens. Brasília: CNBB, 2025. Disponível em: <https://jovensconectados.org.br/documento/cartilha-cuidar-da-vida-prevencao-de-suicidio-entre-adolescentes-e-jovens>. Acesso em: 30 set. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide worldwide in 2021: global epidemiology and prevention. Geneva: World Health Organization, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Preventing suicide: a global imperative. Geneva: WHO, 2014.







