Dez anos depois de Amoris Laetitia, Diogo Pessotto, leigo brasileiro, casado e pai de dois filhos, ligado ao trabalho pastoral com famílias na diocese de São José dos Pinhais, levantou a necessidade de aprofundar a compreensão do documento e fortalecer o apoio às famílias. Durante o webinar “10 anos de Amoris Laetitia”, organizado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), Pessotto centrou sua reflexão em três verbos que considerava fundamentais para a pastoral familiar: evangelizar, acompanhar e discernir. A conversa foi moderada pelo Padre Luis Carlos Aguilar Badilla, membro da Comunidade Animadora da Pastoral Familiar de Celam.
Compreender além do saber
Os resultados de uma pesquisa realizada com 361 participantes de 13 países permitiram a Pessotto destacar uma lacuna entre conhecer e compreender Amoris Laetitia. “88% conhecem o documento, e um terço diz que suas comunidades ainda não entendem o texto inteiro”, mencionou, apontando a necessidade de reforçar a formação pastoral.
Segundo Pessotto, compreender Amoris laetitia exige ir além dos debates que marcaram sua recepção. A concentração em alguns capítulos e questões polêmicas, disse ele, acabou relegando a riqueza pastoral e a essência evangélica da exortação.
“Alguns irmãos concentraram sua atenção em pontos polêmicos como o capítulo 8. E nos desviaram da essência evangélica do texto”, observou.Diante disso, Pessotto levantou a necessidade de superar as leituras parciais e avançar para uma compreensão abrangente da proposta pastoral da exortação.
Publicado pelo Papa Francisco em 2016, depois dos Sínodos sobre a família de 2014 e 2015, Amoris laetitia propõe um olhar atento às diferentes realidades familiares e convida a Igreja a acompanhá-las com misericórdia e discernimento.
Famílias protagonistas da evangelização
Além disso, garantiu que uma das contribuições centrais de Amoris Laetitia é reconhecer as famílias como protagonistas da evangelização. “A Amoris Laetitia não é um documento para a pastoral familiar. Desculpe, Amoris Laetitia é um documento para a família”, sustentou, insistindo que a ação pastoral deve partir também da vida concreta dos lares.
Nessa linha, ele reivindicou o papel das famílias na evangelização e na pastoral.“A família, a sua própria família, é um agente da pastoral familiar”, afirmou.Na sua opinião, o desafio não é apenas ter mais agentes pastorais, mas reconhecer o potencial evangelizador de cada família.
Pessotto colocou o anúncio do Evangelho dentro dos lares como o primeiro desafio. Ao se referir ao querigma ou primeiro anúncio, acrescentou que “é na família que Jesus Cristo deve ser anunciado primeiro”, tanto aos filhos como entre os membros de cada família.
Para Pessotto, evangelizar envolve partir das famílias reais e das circunstâncias pelas quais elas passam. A pesquisa apresentada durante o encontro refletiu que 74% dos participantes reconhecem que Amoris laetitia ajudou a tornar visíveis as dificuldades da vida familiar.Neste contexto, alertou: “não existem famílias platónicas, ou seja, famílias ideais”.
Acompanhe pessoas, não apenas atividades
O segundo verbo, acompanhar foi apresentado por Pessotto como um desafio central para a pastoral familiar.Na sua opinião, esta tarefa requer processos contínuos que nos permitam caminhar ao lado das famílias, para além de atividades ou ações específicas.
“O tempo é superior ao espaço. Ou seja, os processos são mais importantes que os acontecimentos”, disse Pessotto, retomando uma expressão do Papa Francisco.O desafio, explicou, é passar de uma pastoral focada na organização de atividades para uma pastoral que gere processos capazes de sustentar o acompanhamento das pessoas ao longo do tempo.
O especialista alertou que não é possível reforçar os apoios sem atender também à formação de quem os presta.“Ninguém acompanha bem sem ter sido formado”, sublinhou, insistindo que os agentes pastorais precisam de ferramentas para ler as situações específicas das famílias e acompanhá-las nos seus processos.
Neste ponto, Pessotto fez uma pergunta aos agentes da pastoral familiar: “Quem acompanho?”.Com ela, convidou-nos a passar de uma visão geral das famílias para um acompanhamento centrado em pessoas específicas, com histórias e realidades próprias.“Acompanhamos pessoas específicas com nomes, com locais, salas e história”, explicou.
Discernir
O Discernimento foi o terceiro verbo proposto por Pessotto e, na sua opinião, deveria acompanhar tanto a evangelização como o caminho pastoral com as famílias.Em situações familiares complexas, explicou,o discernimento envolve acolher, ouvir e acompanhar sem perder de vista o ensinamento da Igreja.
Neste sentido, propôs passar de uma lógica dedutiva a uma lógica pastoral que parte da realidade.”O nosso trabalho evangelizador é de indução. Compreendemos a realidade e olhamos a realidade a partir desta mesma realidade para iluminá-la com a luz do Evangelho”, afirmou.
O grande desafio, enfatizou Pessotto, é conscientizar e promover processos de integração.“A integração é a chave do acompanhamento””, afirmou, destacando a importância de uma Igreja que se aproxima das pessoas, ouve as suas histórias e acompanha os seus processos.
“O desafio é passar do conhecimento à compreensão”, observou na conclusão do seu discurso.Para ele, este passo exige “receber, interpretar e aplicar” Amoris laetitia a partir das realidades concretas das famílias, para que as suas orientações possam ser traduzidas na prática pastoral.
A reflexão colocou um desafio para os próximos anos: “Quem acompanhará as nossas famílias?”Para Pessotto, a resposta requer comunidades capazes de formar, ouvir, acompanhar e discernir junto com as famílias, reconhecendo-as também como protagonistas da evangelização.
*Com informações da CELAM