O papa Leão XIV deu início, nesta quarta-feira (7), ao encontro “Dez anos depois da Amoris laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje” , no Vaticano. O evento reúne quase 200 pessoas dos cinco continentes até o dia 14 de outubro para fazer um balanço das famílias de hoje, ouvindo os testemunhos de bispos e casais – um momento de escuta mútua e de discernimento compartilhado.
Durante a abertura do encontro, o Santo Padre ressaltou a necessidade de uma igreja mais próxima às fragilidades da família. Por isso, se faz necessária uma escuta ativa para recolher os frutos que a Exortação Apostólica escrita pelo Papa Francisco já atingiu.
“A experiência das famílias tem algo a ensinar a todos, uma vez que a fragilidade pertence à nossa condição humana comum e, portanto, também à vida da Igreja. Todos nós conhecemos a distância entre o bem que desejamos e o que somos capazes de viver. Precisamos de graça, perdão e novos começos para cumprir a vontade de Deus, e aprendemos que a fidelidade é ela mesma uma graça a ser recebida e um caminho a ser renovado gradualmente, muitas vezes por meio da provação”, pontuou o Pontífice.
Em seu discurso, o Papa Leão destacou que a família continua sendo fundamental para uma abordagem que mantém unidos o local e o global, guiada pela busca de uma fraternidade universal em Cristo, que o Evangelho nos chama a construir com todos. “Com a orientação do Espírito Santo, olhar atentamente para o que aconteceu pode nos ajudar a reconhecer mais profundamente o que Cristo tem ensinado à sua Igreja ao longo desses anos”, disse.
Para o Pontífice, a tem um papel fundamental na Igreja.
“Com efeito, Amoris Laetitia nos convida a levar a sério essa vocação e essa responsabilidade. As próprias famílias participam da missão da Igreja na trama cotidiana de suas vidas, por meio do amor e da fidelidade, do cuidado e do perdão, da educação dos filhos, de seus esforços na transmissão da fé, da atenção aos idosos e aos vulneráveis e das muitas maneiras pelas quais servem suas comunidades e a sociedade. De todas essas maneiras, as famílias dão testemunho do Evangelho e contribuem para a vida e a missão da Igreja”.
Aos bispos e presidentes de Conferências Episcopais, Leão XIV enfatizou a importância de uma escuta atenta aos anseio e às experiências das famílias. “Como Pastores, recebemos a responsabilidade de proclamar, oportuna e inoportunamente, a beleza do projeto de Deus para o matrimônio e a família e seu chamado ao amor e à ternura. Isso nos desafia a acompanhar as pessoas enquanto procuram viver sua vocação nas circunstâncias concretas de suas vidas”, explicou.
“Esse ministério também nos coloca em uma escola de escuta. A sabedoria do Povo de Deus chega até nós por meio de nossa fé comum, que ilumina todas as famílias, inclusive as situações marcadas por dificuldades, solidão e, por vezes, até mesmo por aparente fracasso. O próprio Senhor nos ensina com paciência quando dedicamos tempo à escuta, e certamente temos muito a aprender com as famílias”.
O Santo Padre também incentivou aos grupos que discutam as diversas situações que desafiam a evangelização das famílias, como em relação à sexualidade. “Os jovens continuam a desejar o amor, a fidelidade e o sentimento de pertencimento, mas muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode concretizar-se em suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam. A insegurança econômica, a migração, a violência, a solidão e outras formas de fragilidade emocional também moldam as escolhas que as pessoas fazem e as possibilidades que conseguem imaginar para o seu futuro”, disse.
Por fim, o Papa ressaltou que a tarefa do encontro não é apenas interpretar essas realidades, mas deixar que elas questionem e motivem a responsabilidade pastoral, para que a Igreja possa encontrar formas renovadas de proclamar o Evangelho, oferecer as graças sacramentais, acompanhar as famílias e tornar visível a ternura com que Cristo continua a caminhar entre seu povo. “Que o Senhor nos conceda a liberdade de escutar uns aos outros, a sabedoria para reconhecer sua obra entre seu povo e a coragem de seguir para onde ele nos conduz, para que, a cada dia, o Evangelho se torne cada vez mais plenamente boa notícia para as famílias de todo o mundo”, concluiu.
Transformações
A abertura contou ainda com a participação do prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, Cardeal Kevin Farrell. Ele avaliou que a sociedade está vivendo uma época de rápidas transformações culturais e sociais, que, nestes últimos dez anos, marcaram profundamente a realidade familiar. “Em muitos contextos, a secularização, o individualismo, a presença da tecnologia em todos os aspectos da vida e o enfraquecimento progressivo da transmissão da fé nas famílias vêm acompanhados de novas perguntas sobre o sentido da existência e, ao mesmo tempo, do desejo por relações autênticas, duradouras e geradoras de vida. A catequese, essencial para a formação cristã, continua sendo indispensável, mas, em muitos contextos, não pode, por si só, sustentar a transmissão da fé e o amadurecimento de um relacionamento pessoal com Deus nas novas gerações”, afirmou.
Durante o encontro foi realizado um momento de meditação, conduzido pela irmã Helen Alford. Ela apontou que se a Igreja quer ajudar os jovens a ter a coragem de entrar no matrimônio e dar-lhes a capacidade de enfrentar as dificuldades que irão encontrar, precisarão ver as suas relações e de pensar no seu matrimônio e na sua vida familiar de forma relacional.
“Procuremos formas de encorajar os jovens a aceitar o grande desafio do matrimónio e da vida familiar, abraçando-o com plena consciência de que experimentarão uma grande fragilidade como parte do processo de realizar a sua beleza e de que, nessa fragilidade, encontrarão fontes novas e inesperadas da graça de Deus e experimentarão um desejo de santidade que é verdadeiramente seu”, comentou.
Comitiva brasileira
O Brasil e a Pastoral Familiar está representada pelo arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Geral dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler, pelo bispo de Ponta Grossa (PR) e presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, dom Bruno Elizeu, e pelo casal coordenador nacional da Pastoral Familiar, Alisson e Solange Schila.













