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Home Artigos

A Visitação de Maria nas famílias feridas e sem esperança

08/09/2026
em Artigos
Tempo de leitura: 4 mins leitura
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A Visitação de Maria nas famílias feridas e sem esperança

Homilia do padre Rodolfo Chagas Pinho, assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) durante o segundo dia de Novena de Nossa Senhora da Piedade, em Jacarezinho (PR).

 

Queridos irmãos e irmãs.

O tema desta noite nos convida a contemplar a Visitação de Maria nas famílias feridas e sem esperança”. Embora o Evangelho proclamado hoje seja o relato da Visitação, a atitude de Jesus diante do homem da mão paralisada nos ajuda a compreender aquilo que Maria realizou ao visitar Isabel: ambos se aproximam de uma vida fragilizada e fazem renascer nela a esperança.

Os mestres da Lei e os fariseus olham para aquele homem, porém o olhar deles é diferente do de Jesus. Eles não enxergam primeiramente uma pessoa que sofre; enxergam uma ocasião para acusar Jesus. Enquanto Jesus vê uma vida necessitada de cuidado, eles veem um problema legal. Enquanto Jesus se pergunta: “Como posso restaurar este homem?”, eles se perguntam: “Como podemos encontrar uma acusação contra Jesus?” Como olhamos para as famílias feridas?

Diante de um casal em crise, de um filho dependente químico, de uma família endividada, de uma pessoa idosa abandonada, de uma mãe que educa os filhos sozinha ou de alguém que carrega as consequências de uma separação, qual é o nosso primeiro olhar? É o olhar que acusa, comenta e julga, ou o olhar de Jesus, que reconhece a dor e deseja restaurar?

Às vezes, as famílias já chegam até nós carregando muitas feridas e encontram novas pedras em vez de acolhimento. Recebem julgamentos quando precisavam de escuta; cobranças quando necessitavam de ajuda; discursos quando esperavam uma presença amiga. Jesus nos ensina que a verdade nunca deve ser separada da caridade. A verdade do Evangelho não serve para esmagar os feridos, mas para libertar, orientar, converter e restaurar. O Evangelho não é uma janela de acusação, mas espelho para imitar.

O Senhor mostra que a verdadeira fidelidade a Deus sempre produz cuidado com a vida. Não existe devoção autêntica que nos torne indiferentes ao sofrimento. Não existe observância religiosa verdadeira que nos dispense de amar. Não existe culto agradável a Deus quando passamos ao lado das feridas de nossos irmãos sem nos aproximarmos delas. Então Jesus diz ao homem: “Estende a mão”. E sua mão fica curada.

Talvez existam aqui pessoas que também estejam escondendo suas “mãos paralisadas”: um casamento que perdeu o diálogo; uma mágoa antiga que nunca foi curada; um filho do qual os pais se distanciaram; irmãos que já não se falam; a dor causada por uma traição; a solidão depois da perda de alguém; uma enfermidade; uma dependência; uma dificuldade financeira; uma fé que se tornou enfraquecida.

A Senhora da Piedade ao saber que Isabel precisava dela, não permaneceu acomodada. O Evangelho diz que ela partiu apressadamente para a região montanhosa. Maria teve pressa, não a pressa da ansiedade, mas a pressa da caridade. Quem ama percebe a necessidade do outro e se coloca a caminho.

Há famílias que não precisam, inicialmente, de uma explicação; precisam de uma visita. Há idosos que não precisam de muitas coisas; precisam de alguém que se sente ao seu lado. Há jovens desanimados que precisam ouvir: “Sua vida tem valor, não desista”. Há pessoas feridas que precisam experimentar, por meio de nós, que Deus não as abandonou.

O Papa Francisco recorda que “nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada de uma vez para sempre, mas requer um desenvolvimento gradual da própria capacidade de amar” (Amoris Laetitia, n. 325). A família não é uma obra pronta. Ela é construída todos os dias por gestos de paciência, perdão, diálogo, renúncia e cuidado. Mesmo as famílias que se amam carregam fragilidades. O importante é não permitir que as feridas sejam maiores do que o desejo de amar e recomeçar. O que Deus uniu precisa ser alimentado.

A Palavra de Deus nos apresenta, portanto, três movimentos para esta noite. Como ensina São João Paulo II, a família precisa comunicar, cuidar e revelar o amor.

Primeiro: é preciso ver (cuidar) Jesus viu o homem da mão paralisada. Maria percebeu a necessidade de Isabel. Também nós precisamos enxergar as dores que muitas vezes estão escondidas dentro de nossas casas.

Segundo: é preciso aproximar-se (revelar) Maria colocou-se a caminho. Jesus chamou o homem para o centro. O amor cristão não observa o sofrimento de longe; ele se aproxima com respeito e compaixão.

Terceiro: é preciso ajudar a recomeçar (comunicar). Jesus restaurou a mão daquele homem. Maria fez a alegria renascer na casa de Isabel. Uma presença verdadeiramente cristã não aprisiona a pessoa em seu passado, mas a ajuda a descobrir que, com Deus, sempre existe a possibilidade de um novo começo.

Nesta noite, confiemos à Mãe da Piedade todas as nossas famílias. Peçamos por aquelas que vivem conflitos e divisões; pelos casais em crise; pelos pais preocupados com seus filhos; pelas famílias que convivem com enfermidades ou dependências; pelos que enfrentam dificuldades financeiras; pelos idosos que sofrem com a solidão; por aqueles que vivem o luto; e por todos os que já não encontram motivos para esperar.

E que cada um de nós saia desta celebração disposto a realizar uma visita, como disse Leão XIV dia 02 setembro na catequese: A Igreja é chamada a servir o ser humano, escutando e acolhendo as questões mais profundas do seu coração e os anseios que nele habitam, indicando em Cristo a chave, o centro e o fim de toda a história humana (GS 10).

“O amor cristão supera todas as barreiras, aproxima os que estão distantes, une os estranhos, torna recônditos os inimigos, atravessa abismos humanamente insuperáveis, entra nos meandros mais recônditos da sociedade. Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de a viver. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa”. Dilexi Te 120

Ir a todos, envolver a todos, dar Cristo a todos!

Tags: artigospadre rodolfo chagas
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