Por padre Rodolfo Chagas Pinho[1]
- Introdução
Na homilia da Santa Missa pelo Jubileu das Famílias, das Crianças, dos Avós e dos Idosos, em 1º de junho de 2025, o Papa Leão XIV dirigiu-se aos esposos com estas palavras: “O casamento não é um ideal, mas a regra do verdadeiro amor entre o homem e a mulher: amor total, fiel, fecundo” – dizia o Papa –, sublinhando que esse amor “torna-os capazes, à imagem de Deus, de doar a vida”.[2]
O próprio texto pontifício remete expressamente a Humanae vitae, onde São Paulo VI descreve as notas características do amor conjugal – plenamente humano, total, fiel e fecundo – como estrutura interna da vocação matrimonial.
Não se trata, portanto, de uma frase isolada, mas de uma recapitulação densa de todo um itinerário magisterial, retomado e atualizado por Familiaris consortio e, de modo especial, por Amoris laetitia, que apresenta o matrimônio como “ícone do amor de Deus” e caminho de santidade no cotidiano das famílias.[3]
Partindo dessa formulação de Leão XIV, este texto propõe: aprofundar, em chave antropológico-teológica, as três notas – amor total, fiel e fecundo – como “regra do verdadeiro amor” entre homem e mulher; integrá-las com a reflexão de Amoris laetitia e das contribuições da Secretária do Dicastério para os Leigos, Família e Vida a Dra. Gabriella Gambino; delinear perspectivas de ação pastoral para a Pastoral Familiar, chamada a formar e acompanhar casais que encarnem esse amor na Igreja e na sociedade.
- Amor total: integridade da pessoa e dom de si
Quando Leão XIV fala de “amor total”, ecoa diretamente Humanae vitae[4], que define o amor conjugal como “plenamente humano”, não apenas instintivo, mas ao mesmo tempo espiritual e sensível, e como dom pleno da pessoa.
Totalidade aqui não significa perfeccionismo psicológico, mas: integralidade do dom: o esposo e a esposa se acolhem com corpo, história, afetos, feridas e promessas; irreversibilidade da decisão: não é entrega condicional ou por tempo determinado, mas uma forma de existência; unificação interior: o amor conjugal pede a superação das fragmentações (sexualidade desligada da comunhão, afetividade sem compromisso, projeto de vida sem referência ao outro).[5]
Amoris laetitia insiste que o matrimônio é uma “união que tem todas as características de uma boa amizade”, e que a graça do sacramento “aprimora o amor dos cônjuges”, orientando-o para uma entrega que envolve toda a vida.[6]
Do ponto de vista antropológico, a totalidade do amor supõe uma visão unitária da pessoa humana, chamada à comunhão e à autodoação. Em contraste com a cultura do uso parcial (corpo sem compromisso, afeto sem responsabilidade, relações descartáveis), o amor total afirma que ninguém pode ser reduzido a função ou objeto de consumo.
Implica pastoralmente, para a Pastoral Familiar: acompanhar processos de integração pessoal (curas interiores, reconciliação com a própria história); propor itinerários de formação que ajudem noivos e casais a pensar o matrimônio não como “evento” mas como forma de vida, onde tudo – trabalho, sexualidade, finanças, espiritualidade – é progressivamente unificado.
- Amor fiel: aliança no tempo e espiritualidade da perseverança
Na homilia do Jubileu, Leão XIV liga o matrimônio à necessidade de um testemunho de aliança conjugal capaz de superar “as forças que desagregam as relações e as sociedades”.
A fidelidade conjugal, à luz da Escritura, é participação na fidelidade de Deus à sua Aliança: Deus permanece fiel ao seu povo apesar das traições; Cristo ama a Igreja “até o fim” ( Ef 5,25; Jo 13,1); a fidelidade é, portanto, antes de tudo, dom da graça, que sustenta a decisão dos esposos.
Amoris laetitia recorda que o “sim” dos esposos é chamado a amadurecer ao longo da vida, passando por crises e reconciliações; a fidelidade não é estado imóvel, mas “processo dinâmico, que continua e melhora ao longo da vida inteira”.[7]
Amor fiel significa: perseverança nas crises, com abertura ao perdão; memória agradecida do caminho percorrido; compromisso de não abandonar o outro na fraqueza.
Em várias intervenções, Dra. Gabriella Gambino[8] tem sublinhado que a Igreja não pode abandonar os casais após o casamento: é preciso um acompanhamento ordinário que ajude a sustentar a fidelidade na concretude do cotidiano.
Para a Pastoral Familiar, isso se traduz em criar itinerários pós-matrimoniais (grupos de casais, encontros temáticos, retiros) que alimentem a espiritualidade da perseverança; oferecer espaços de escuta para casais em crise, evitando tanto o moralismo quanto a banalização das feridas; apresentar a fidelidade não como “prisão”, mas como liberdade amadurecida, capaz de atravessar a história com o outro.
- Amor fecundo: acolhida da vida e frutificação espiritual
Ao qualificar o amor conjugal como “fecundo”[9] e ao citar explicitamente Humanae vitae, Leão XIV insere a fecundidade no coração da “regra do verdadeiro amor”.[10]
Humanae vitae ensina que o amor conjugal é, por sua natureza, ordenado à procriação e educação dos filhos, e que os filhos são “o dom mais excelente do matrimônio”.
Amoris laetitia[11] aprofunda essa perspectiva, mostrando que a capacidade de gerar é caminho por onde se desenrola a história da salvação. A relação fecunda do casal é imagem para compreender o mistério da Trindade e toda criança tem direito a receber o amor de um pai e de uma mãe, e também o amor entre eles é percebido como “fonte da própria existência”.
Mas a fecundidade não se reduz à dimensão biológica:[12]é também fecundidade educativa, transmitindo fé, valores e uma forma de estar no mundo; é fecundidade espiritual e social: acolher quem sofre, abrir o lar à hospitalidade, engajar-se na comunidade e na sociedade.
Gambino[13], em intervenções na ONU e em contextos eclesiais, insiste que uma verdadeira cultura da vida exige reconhecer a família como sujeito social e eclesial, capaz de gerar não só filhos, mas também vínculos, solidariedade e cuidado com os mais frágeis.
Pastoralmente, isso significa ajudar casais a integrar responsabilidade e generosidade na abertura à vida; apoiar famílias na tarefa educativa (afetividade, sexualidade, fé, uso das mídias); promover uma pastoral de acolhimento (adoção, famílias de apoio, proximidade a mães em dificuldade, idosos abandonados, pessoas com deficiência).
- “Regra do verdadeiro amor”: ícone da Trindade e doação de vida
Quando Leão XIV afirma que “o casamento não é um ideal, mas a regra do verdadeiro amor”, ele sublinha que o matrimônio não é um “sonho distante” reservado a poucos, mas o modo ordinário pelo qual o amor humano é chamado a participar do amor de Deus.[14]
Amoris laetitia[15] retoma a imagem clássica: o matrimônio é “ícone do amor de Deus”, porque, quando um homem e uma mulher celebram o sacramento[16], Deus “espelha-se” neles, imprimindo “o caráter indelével do seu amor”.[17]
A “regra” do amor total, fiel e fecundo é, portanto regra cristológica: o amor conjugal participa da entrega de Cristo por sua Igreja; regra trinitária: a comunhão de pessoas na diferença (homem–mulher, pais–filhos) reflete a comunhão do Pai, do Filho e do Espírito e regra antropológica: só um amor que se doa plenamente, permanece fiel e se abre à vida responde à dignidade da pessoa humana.
Doar a vida “à imagem de Deus” significa, para os esposos, fazer da própria história conjugal e familiar um lugar onde o mundo possa vislumbrar algo do modo como Deus ama.
- Perspectivas de ação pastoral para a Pastoral Familiar
A partir dessa base teológica, algumas linhas de ação pastoral se iluminam para a Pastoral Familiar, como integrar, nos processos de Iniciação à Vida Cristã, uma catequese progressiva sobre o amor total, fiel e fecundo, desde a infância até a juventude; apresentar o matrimônio não apenas na preparação imediata dos noivos, mas como vocação batismal ao longo de toda a formação catequética.
Utilizar Itinerários catecumenais para o matrimônio[18] em sintonia com as propostas recentes da Comissão Episcopal Vida e Família e com as reflexões de Dra. Gambino, promover percursos personalizados de preparação, que ajudem os noivos a internalizar a regra do amor total, fiel e fecundo, não como teoria, mas como estilo de vida através do itinerário vivencial personalizado de preparação ao matrimonio, bem como, envolver casais experientes como mentores, testemunhando a beleza e a exigência desse caminho.
Buscar exercitar o pedido do Papa Francisco em Amoris Laetitia de acompanhamento pós-matrimonial com a criação de grupos de casais (por tempo de casamento, por situação de vida) onde se trabalhem, de forma orgânica, as três dimensões: integrar (total), perseverar (fiel), gerar e educar (fecundo); utilizar o subsídio da Comissão Episcopal Vida e Família para recém casados.
Pode-se oferecer espaços de escuta e discernimento para casais em crise, casais com infertilidade, famílias em luto, famílias reconstituídas, integrando a regra do amor com a misericórdia pastoral de Amoris laetitia (“acolher, acompanhar, discernir e integrar”).
Incentivar que famílias assumam serviços e ministérios na comunidade (acolhida, catequese, caridade, pastoral social); promover ações em defesa da vida e da família na sociedade (políticas públicas, cultura da vida, proteção dos vulneráveis), articulando a fecundidade do amor com o compromisso social e político.
- Conclusão
A homilia de Leão XIV no Jubileu das Famílias, retomando Humanae vitae e em profunda sintonia com Amoris laetitia, oferece uma fórmula simples e poderosa: o matrimônio não é ideal abstrato, mas regra concreta do verdadeiro amor entre homem e mulher: total, fiel e fecundo.
Assumir essa regra, hoje, significa ir contra a cultura da fragmentação, do provisório e da esterilidade programada e propor às novas gerações um caminho de amor que integra toda a pessoa, permanece no tempo e se abre à vida. Fazer da Pastoral Familiar um lugar em que essa visão seja anunciada, explicada, testemunhada e acompanhada com paciência.
Assim, cada casal cristão poderá descobrir que o convite do Papa – a viver um amor total, fiel e fecundo – não é um peso inalcançável, mas a boa notícia de um modo de amar que participa do próprio amor de Deus, e que faz da família um verdadeiro sacramento de vida para a Igreja e para o mundo.
Referências bibliográficas
LEÃO XIV. Homilia – Jubileu das Famílias, das Crianças, dos Avós e dos Idosos, 1/06/2025.
GAMBINO, Gabriella. Intervenções e textos sobre matrimônio e família (Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida; Fórum Amoris Laetitia; intervenções na ONU).
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et spes. Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje.
CNBB. Diretório da Pastoral Familiar no Brasil. Documentos da CNBB, n. 79.
FRANCISCO, Papa. Amoris laetitia: Exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família.
GAMBINO, Gabriella. Entrevistas e artigos sobre casamento e família, disponíveis em portais do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida e em meios de comunicação católicos.
PAULO VI, Papa. Humanae vitae. Carta encíclica sobre a regulação da natalidade.
JOÃO PAULO II, Papa. Familiaris consortio. Exortação apostólica sobre a família cristã no mundo de hoje
[1] Presbítero da Diocese de Jacarezinho-PR. Mestrando em Teologia Sistemática PUC-Rio; Especialista em Pastoral pela FAJE; Especialista em Trabalho com Família e Sociabilidade pela Uninter; Bacharel em Comunicação pela FANORPI; Graduado em Filosofia e Teologia pelo Seminário Maior de Jacarezinho – PR. Atualmente, Assessor da Comissão Episcopal Vida e Família CNBB e Secretário-Executivo Nacional da Pastoral Familiar.
[2] LEÃO XIV, Homilia na Santa Missa pelo Jubileu das Famílias, das Crianças, dos Avós e dos Idosos, Praça de São Pedro, 1º de junho de 2025.
[3] FRANCISCO, Papa, Amoris laetitia, especialmente nn. 71-73, 120-164, sobre a entrega total, a fidelidade e a abertura à vida no matrimônio.
[4] PAULO VI, Humanae vitae, n. 9, sobre as características do amor conjugal: plenamente humano, total, fiel e fecundo.
[5] Cf. autores de antropologia teológica que sublinham a unidade da pessoa e sua vocação à comunhão; ver, por exemplo, Alfonso García Rubio ou Henrique C. de Lima Vaz.
[6] FRANCISCO, Amoris laetitia, especialmente caps. 3–5, sobre o matrimônio como ícone do amor de Deus e o amor que se torna fecundo.
[7] FRANCISCO, Papa, Amoris laetitia, especialmente nn. 71-73, 120-164, sobre a entrega total, a fidelidade e a abertura à vida no matrimônio.
[8] GAMBINO, Gabriella, diversos artigos e conferências sobre matrimônio e família; cf. seu perfil e intervenções no Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida e entrevistas recentes.
[9] Amoris laetitia, cap. 5, “Amor que se torna fecundo”, articulando procriação, adoção, acolhida e rede familiar ampliada.
[10] PAULO VI, Humanae vitae, n. 9, onde o amor conjugal é descrito com essas notas; retomado por S. JOÃO PAULO II em Familiaris consortio e pelo magistério posterior.
[11] FRANCISCO, Papa, Amoris laetitia, especialmente nn. 71-73, 120-164, sobre a entrega total, a fidelidade e a abertura à vida no matrimônio.
[12] Amoris laetitia, caps. 5 e 7, sobre a fecundidade do amor e a educação dos filhos, como dimensão essencial da fidelidade conjugal.
[13] GAMBINO, Gabriella, entrevistas e conferências sobre família como sujeito eclesial e social, e a necessidade de não deixar as famílias sozinhas.
[14] GAMBINO, Gabriella, “O catecumenato para o matrimônio”, intervenção no Fórum Amoris Laetitia (2021), e diversas conferências e declarações sobre família, vida e cultura da vida.
[15] Amoris laetitia, cap. 4, sobre a “caridade conjugal” e a transformação do amor ao longo da vida matrimonial.
[16] CONCÍLIO VATICANO II, Gaudium et spes, especialmente nn. 48-52, sobre matrimônio e família como “íntima comunidade de vida e amor”.
[17] FRANCISCO, Papa, Amoris laetitia, especialmente nn. 71-73, 120-164, sobre a entrega total, a fidelidade e a abertura à vida no matrimônio.
[18] Cf. iniciativas recentes do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida e de conferências episcopais, propondo itinerários catecumenais para o matrimônio, que integram anúncio, formação e acompanhamento.


