Frei José Faustino Fernandes, TOR
Assessor Eclesiástico Arquidiocesano da Pastoral Familiar e do Regional Norte 1
A busca por um lar é um impulso profundamente arraigado na condição humana. Transcendendo a mera necessidade biológica de abrigo, a moradia constitui o âmbito físico e simbólico onde a vida familiar se desdobra, floresce ou, na sua ausência, definha. Uma reflexão crítica sobre a importância da moradia digna para a família exige que ultrapassemos a noção utilitarista de “casa” como um produto de consumo e a contemplemos como um locus fundamental para o desenvolvimento integral das pessoas e das relações que as unem. Nesse sentido, fatores como segurança, individualidade, privacidade do casal e um espaço seguro para os filhos não são luxos ou acessórios, mas pilares essenciais para uma vivência familiar plena, que encontra seu sentido mais profundo quando iluminada pela distinção entre o amor instintivo e o amor propriamente cristão.
Em primeiro lugar, a segurança oferecida por uma moradia estável e adequada é a base sobre a qual se ergue toda a dinâmica familiar. Uma habitação precária, seja pela insegurança estrutural, pela localização em áreas de risco ou pela instabilidade da posse (como aluguéis abusivos ou a constante ameaça de despejo), gera um estado de ansiedade e estresse crônico. Os pais, consumidos pela luta diária pela mera subsistência e pela incerteza do amanhã, veem suas energias drenadas, dificultando o exercício sereno da parentalidade. As crianças, por sua vez, absorvem esse clima de insegurança, o que pode comprometer seu desenvolvimento emocional e cognitivo. A casa digna, ao contrário, funciona como um “porto seguro”, um lugar de repouso e recuperação das batalhas do mundo exterior, onde a família pode se reerguer coletivamente.
Dessa segurança básica decorrem a possibilidade da individualidade e da privacidade. Uma moradia superlotada, onde os espaços se confundem e os momentos são coletivos por imposição, não por escolha, impede a formação de uma subjetividade saudável. É no quarto próprio, mesmo que modesto, que a criança ou o adolescente experimenta a intimidade consigo mesmo, desenvolve hobbies, estuda, sonha. Para o casal, a privacidade é um elemento vital. Ela é o espaço do diálogo íntimo, da resolução de conflitos a portas fechadas, da intimidade afetiva e sexual, do cultivo do projeto comum que os une. A ausência dessa privacidade não só desgasta a relação conjugal, expondo-a a tensões constantes, como também priva os filhos de um modelo sadio de relacionamento, onde o respeito pelos espaços e momentos do outro é cultivado. A casa digna, portanto, permite a distinção necessária entre a vida coletiva da família e a vida individual de seus membros, entre a esfera pública e a privada, equilíbrio crucial para a saúde psíquica de todos.
É neste ambiente estruturado – seguro, respeitoso da individualidade e da privacidade – que se pode proporcionar um espaço verdadeiramente seguro para os filhos. Seguro não apenas no sentido físico (proteção contra perigos externos), mas sobretudo no sentido psicológico e relacional. É o espaço onde a criança pode errar e ser corrigida sem humilhação pública, onde pode expressar suas emoções sem medo, onde encontra colo, escuta e limites dados com amor. A qualidade desse espaço influencia diretamente a qualidade do amor que ali se vive. E aqui surge uma distinção fundamental, de caráter antropológico e teológico: a diferença entre o amor instintivo e o amor cristão na relação com os filhos.
O amor instintivo é natural, biológico, poderoso e necessário. É o impulso de proteção, de provisão, de apego. No entanto, por si só, pode ser possessivo, projetivo e condicional. Amo o filho porque é meu, porque realiza minhas expectativas, porque me dá prazer e orgulho. Esse amor, embora genuíno, corre o risco de ver a criança como uma extensão de si mesmo, um objeto de posse. Em um ambiente familiar precário, marcado pela luta pela sobrevivência, esse amor instintivo pode, paradoxalmente, se expressar de forma mais dura ou negligenciada, pois os recursos emocionais dos pais estão esgotados.
O amor cristão (ágape), por sua vez, é uma elevação e uma purificação desse instinto. É um amor que vê no filho, antes de tudo, um outro, uma pessoa única, um dom recebido de Deus e destinado a Ele. É um amor que busca o bem do outro de forma gratuita, que educa para a liberdade e a responsabilidade, que corrige sem esmagar, que acolhe incondicionalmente mesmo ao impor limites. Esse amor não nasce espontaneamente; é uma conquista diária, fruto de uma graça acolhida e de uma decisão consciente. Ele se alimenta de um ambiente que o favoreça.
A moradia digna é, nesse contexto, um instrumento pedagógico para o amor cristão. Ela não o garante, mas cria as condições mínimas para que ele possa florescer. Como se pode educar para a gratuidade e a paciência em meio ao caos e à superlotação? Como testemunhar o Deus que é “Pai” e oferece uma “casa com muitas moradas” (Jo 1, 2) quando se vive na provisoriedade absoluta? A falta crônica de um lar digno pode sufocar a capacidade de amar além do instinto, aprisionando as relações familiares em um ciclo de estresse e reação.
Portanto, garantir moradia digna não é apenas uma responsabilidade do Estado, mas um compromisso ético e cristão de toda a sociedade. Defender a moradia digna como um direito humano fundamental é muito mais do que uma bandeira social ou política; é uma exigência ética e uma urgência pastoral. É reconhecer que a família, célula vital da sociedade e “Igreja doméstica”, precisa de um âmbito físico que seja seu santuário, seu primeiro seminário, seu espaço de evangelização mútua. A luta por políticas públicas sérias de habitação, por urbanização digna e por um mercado imobiliário justo é, consequentemente, um trabalho em prol da própria saúde das relações familiares. É uma forma concreta de tornar visível o amor de um Deus que, em Jesus Cristo, “veio morar entre nós” (Jo 1, 14), assumindo plenamente a condição humana e santificando o espaço do lar. Oferecer a cada família a possibilidade de um lar digno é colaborar para que, dentro daquelas paredes, não apenas o amor instintivo sobreviva, mas o amor cristão – livre, gratuito, paciente e gerador de vida – encontre um terreno fértil para crescer e transformar o mundo, começando pelo espaço mais íntimo e sagrado: a família, a casa, “Igreja doméstica”.

