O arcebispo de Natal (RN), dom João Santos Cardoso, presidiu a Santa Missa de Encerramento do IV Congresso da Pastoral Familiar do Regional Nordeste 2, realizada neste domingo (23), na capital potiguar. Leia a mensagem na íntegra:
Amados irmãos e irmãs,
Chegamos ao encerramento do IV Congresso Regional Nordeste 2 da Pastoral Familiar, realizado no contexto das celebrações dos 45 anos da Familiaris Consortio e dos 10 anos da Amoris Laetitia. Desde sexta-feira, vindos das diversas dioceses do nosso Regional, estivemos reunidos em torno de um tema profundamente atual: “Família cristã: vocação ao amor e missão no mundo de hoje”, iluminados pelo lema: “A família é a primeira escola dos valores humanos” (Amoris Laetitia, 274).
Depois de tudo o que refletimos, partilhamos e celebramos nestes dias, a Palavra de Deus nos coloca diante de uma pergunta que vai ao centro de nossa fé e, por isso mesmo, ao centro da missão da família cristã: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Para compreendermos a força dessa pergunta, recordemos seu contexto. Jesus encontra-se com os discípulos na região de Cesareia de Filipe, território marcado por cultos pagãos e ligado ao poder romano. É justamente nesse ambiente, onde diferentes crenças e referências se faziam presentes, que Jesus interroga os discípulos sobre sua identidade.
No Evangelho de Mateus, esta cena constitui um momento decisivo. Logo depois, Jesus começará a anunciar que deverá ir a Jerusalém, sofrer, morrer e ressuscitar. Antes de revelar o caminho da cruz, Ele quer saber se aqueles que caminham com Ele compreenderam verdadeiramente quem Ele é.
Primeiro pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Os discípulos apresentam as opiniões que circulavam: João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas. Eram respostas que reconheciam a grandeza de Jesus, mas ainda insuficientes. Então, Ele dirige a questão àqueles que convivem com Ele: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Não se trata apenas de reconhecer Jesus como grande mestre ou profeta. Pedro reconhece nele o Cristo esperado, o Filho do Deus vivo, que entra na história e caminha com seu povo.
Esta é a profissão de fé sobre a qual Jesus edificará sua Igreja e sobre a qual somos chamados a construir nossa existência. E talvez seja também a pergunta apropriada para concluirmos este Congresso: Quem é Jesus para nossas famílias? Que lugar Ele ocupa concretamente dentro de nossas casas?
Uma família cristã não se define somente por possuir imagens religiosas, ter filhos batizados ou participar das celebrações. Tudo isso é importante, mas é preciso ir além. A família torna-se verdadeiramente cristã quando procura colocar Jesus Cristo no centro de sua vida e aprender dele a amar.
Se a família é a primeira escola dos valores humanos, para nós cristãos ela é também a primeira escola da fé. É dentro de casa que uma criança começa a descobrir quem é Jesus. E essa descoberta acontece não somente por aquilo que os pais dizem, mas, sobretudo, por aquilo que os filhos os veem viver.
Uma criança aprende que Deus é amor quando experimenta amor. Aprende misericórdia quando vê alguém perdoar. Aprende respeito observando como seus pais se tratam. Aprende solidariedade quando vê sua família partilhar. Aprende cuidado quando percebe atenção a um idoso, a um enfermo ou a alguém necessitado. Aprende a rezar quando vê os pais rezando. Aprende o valor da Eucaristia quando percebe que o domingo não é apenas dia de lazer, mas também o Dia do Senhor.
Os filhos talvez esqueçam muitos conselhos recebidos, mas dificilmente esquecerão a maneira como viram seus pais viver.
Por isso, a pergunta de Jesus alcança também o cotidiano de nossas casas. A resposta que damos a Ele não se expressa apenas em palavras: o modo como vivemos, amamos e nos relacionamos em família torna-se também uma verdadeira profissão de fé.
Depois da resposta de Pedro, Jesus lhe diz: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Isso nos recorda que a fé é dom de Deus. Podemos e devemos transmiti-la aos filhos, mas não somos donos da fé deles. Podemos ensinar, testemunhar, acompanhar e rezar; porém, é Deus quem toca o coração.
Isso é particularmente importante para tantos pais e avós que sofrem porque seus filhos ou netos se afastaram da Igreja. Não desistam deles! Não transformem a fé em instrumento de cobrança. Continuem amando, testemunhando, dialogando e, sobretudo, rezando. Deus possui caminhos que nós desconhecemos.
Depois da profissão de fé, Pedro recebe uma missão: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. E Jesus lhe confia as chaves do Reino. A imagem das chaves já aparece na primeira leitura, quando Eliacim recebe a responsabilidade pela casa de Davi. E há uma expressão muito bonita: ele “será como um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá”.
A autoridade, na Palavra de Deus, aparece ligada ao cuidado e ao serviço.
Isso ilumina também a missão educativa dos pais. A autoridade dentro da família não deve ser domínio nem autoritarismo. É responsabilidade, serviço e cuidado. Pais e mães recebem, de alguma maneira, as “chaves” de uma casa e a responsabilidade de ajudar os filhos a crescerem em liberdade, responsabilidade, fé e amor.
Essa missão tornou-se particularmente exigente. Nossas famílias precisam lidar com o individualismo, a pressa, o consumismo e com um ambiente digital que atravessa as paredes de nossos lares. Muitas vezes, nossos filhos estão fisicamente perto de nós, mas sendo educados também por vozes, imagens e influências que chegam através de uma tela.
Precisamos, portanto, recuperar a presença educativa: sentar à mesa, conversar, escutar, brincar, visitar os avós, acompanhar os filhos, estabelecer limites e rezar juntos. São coisas pequenas, mas é justamente nas pequenas coisas que se formam os valores e se constrói uma família.
E aqui aparece também uma missão fundamental da Pastoral Familiar: acompanhar as famílias reais. Famílias cansadas ou feridas; jovens casais aprendendo a ser pais; pais com dificuldades para dialogar com os adolescentes; avós assumindo tarefas educativas; casais atravessando crises; famílias marcadas pela doença, pelo desemprego, pela separação ou pela solidão.
A Igreja não pode simplesmente dizer às famílias aquilo que elas devem ser. Precisa caminhar com elas naquilo que elas são, ajudando-as a se tornarem aquilo que Deus as chama a ser.
Por isso, queridos agentes da Pastoral Familiar, ao retornarem às suas dioceses, paróquias e comunidades, levem esta missão: aproximar-se, escutar, acolher, discernir, acompanhar e fortalecer as famílias. Não esperemos sempre que elas venham até nós. Precisamos também ir ao encontro delas.
Este Congresso termina, mas a missão continua. Voltemos às nossas comunidades com uma pergunta no coração: o que podemos fazer concretamente para que nossas famílias sejam cada vez mais escolas de humanidade, de valores, de fé e de amor?
E que cada família cristã responda à pergunta de Jesus não somente com os lábios, mas com sua maneira de viver: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
Que nossas casas digam isso quando rezam e trabalham; quando celebram e sofrem; quando acolhem, educam, perdoam e cuidam.
E que a Sagrada Família de Nazaré acompanhe todas as famílias do nosso Regional Nordeste 2 e nos ajude a fazer de nossas casas verdadeiras escolas do amor, onde aprendamos a amar a Deus, a cuidar uns dos outros e a levar esse amor ao mundo.
Amém.

