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Como definir o povo brasileiro?

por Luiz Lopes, 23 de janeiro de 2023, 4 Comentários(s)

Dom Ricardo Hoepers
Bispo de Rio Grande (RS)
Pres. Comissão Episcopal para a VIda e a Família da CNBB

O ano de 2023 começou intenso. Continuamos acompanhando com muita apreensão a guerra entre Rússia e Ucrânia. O Papa Francisco expressou, quando da nossa visita em maio de 2022, na audiência privada para os Bispos do Rio Grande do Sul, que esta era “a sua maior tristeza”. De fato, ele acompanhava de perto os imigrantes que chegavam à Polônia para se refugiar, através do seu esmoleiro pontifício, Cardeal Krajewski e o Cardeal Czerny, prefeito interino do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, que foram até lá para levar apoio, solidariedade e recursos, num trabalho em conjunto de ajuda humanitária. Infelizmente os conflitos continuam, e a Igreja continua incessantemente em oração e ajuda fraterna às famílias mais afetadas.

Mas, também no Brasil, passamos por momentos de conflitos, de intolerâncias, crimes cometidos contra a Pátria, atentados contra a Democracia. Esses fatos nos abalaram e tocaram profundamente o coração dos brasileiros. Nosso povo sempre foi muito unido, especialmente nos momentos difíceis da nossa história, sejam por desastres naturais ou por tragédias encomendadas, o povo brasileiro sempre se demonstrou capaz de se mobilizar rapidamente para ajudar os mais necessitados. Os atos criminosos que aconteceram em Brasília não representam, em nada, a vontade do povo, que trabalha e ama a sua Pátria.

Podemos lembrar dos desastres naturais como o de Petrópolis e Itaguaçu, no Rio de Janeiro, em 2022. Ou ainda, das tragédias de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019. Foi impressionante a mobilização nacional, de grupos de apoio, de todos os tipos de agregação, provando o quanto o nosso povo é solidário e unido.

Esse é o real sentimento que predomina e define o brasileiro: um povo unido para fazer o bem. Mesmo que a gestão pública seja ineficaz, burocrática, morosa, analógica, o povo brasileiro, ao contrário, é mobilizado, veloz, contundente, e acima de tudo, solidário. Bastou chegar até as redes sociais as imagens do escândalo da inanição Yanomami, para que grupos de solidariedade se formassem e a ajuda concreta chegasse até mesmo antes dos discursos e promessas do poder público. Essa tragédia vem se arrastando desde a década de 70. Basta perguntar ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário), o quanto esse povo já sofreu para sobreviver. Quando o valor econômico está acima das pessoas, toda violência é permitida e ainda justificada.

O povo brasileiro está para muito além da política partidária e da polarização quando se trata de salvar vidas. Com tanta ausência do poder público, com tanta indiferença às reais necessidades do povo por aqueles que chegam ao poder e, acima de tudo, com tanta corrupção e beligerância pelo dinheiro público sequestrado e desviado, acumulam-se de governo em governo, uma moral fraca, um discurso flácido, um comprometimento líquido, um caráter disforme e uma negligência viciada. É impossível não recordar as palavras de Hannah Arendt sobre a banalização do mal, do vício social e da perda da habilidade de julgar na engrenagem das instituições públicas. Apesar disso, o povo brasileiro reaprende a superar muito de suas carências através da solidariedade, da ajuda mútua, desde pequenos grupos de apoio, associações, comunidades religiosas, igrejas de diversas denominações e organizações da sociedade civil, que mantêm viva a esperança de muitos vulnerabilizados, invisibilizados e excluídos que são atendidos de imediato, quando mais precisam.

Claro que precisamos reivindicar ao poder público, melhores condições de vida e maior competência na implantação de projetos que equilibrem o desenvolvimento econômico com a justiça e a equidade social. É objetivo fundamental do Estado Democrático, segundo a nossa Constituição (Art. 3º, IV) – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

O povo brasileiro já aprendeu a não esperar de braços cruzados, pois já tem esse princípio no coração e um amor maior que o impulsiona a fazer o bem sem olhar a quem. O que seria de nosso país se não fossem os homens e mulheres anônimos, heróis do dia a dia que dão suas vidas sem esperar nada em troca? Não fazem por voto, não fazem por marketing, não fazem por interesse ideológico, etc. Fazem simplesmente porque respeitam a dignidade humana e cuidam daqueles que mais necessitam. Eles não têm microfones, não têm redes sociais, não têm mídia e nem recursos financeiros, mas fazem tanto que nunca seremos capazes de mensurar. Esse é o povo brasileiro anônimo, mas cheio de amor e compaixão.

O Papa Francisco tem apontado para essa realidade com esmero e com um testemunho inquestionável. Talvez se relêssemos sua Encíclica Fratelli tutti (03 de outubro de 2020), poderíamos gastar mais energia no essencial. Ficamos nos digladiando com uma visão reducionista e mesquinha da vida, distribuindo temas para quem é de “direita” e temas para quem é de “esquerda”. Esta visão desvirtuada do “toma lá, da cá” ou “isso é meu, este é teu” mostra uma imaturidade de enfrentarmos juntos, como responsabilidade de todos, os grandes dilemas que tocam à humanidade.

É preciso recuperar o princípio da totalidade e da visão integral do ser humano, onde reconhecemos a nossa pertença à casa comum, isto é, o mundo em que habitamos. Na Fratelli tutti (FT), o Papa nos recorda do tema basilar da pertença.

O árduo esforço por superar o que nos divide, sem perder a identidade de cada um, pressupõe que em todos permaneça vivo um sentimento basilar de pertença. Porque a nossa sociedade ganha, quando cada pessoa, cada grupo social se sente verdadeiramente de casa. Numa família, os pais, os avós, os filhos são de casa; ninguém fica excluído. Se alguém tem uma dificuldade, mesmo grave, ainda que seja por culpa dele, os outros correm em sua ajuda, apoiam-no; a sua dor é de todos.

(FT, 230)

Pela profunda experiência que o povo brasileiro já viveu e continua a experimentar no seu cotidiano, a imagem da família sempre nos traz aquela força necessária para prosseguir avante. É um pai que sonha por dias melhores para seus filhos, uma mãe que triplica seu horário de trabalho para manter a casa, os avós que tiram da sua pensão para ajudar filhos e netos. Poderíamos fazer uma lista grande da ajuda mútua, quando olhamos para dentro de nossas famílias. O povo brasileiro sempre acreditou nos valores da família como o fundamento para toda a sociedade. Na família está a escola da vida, estão os laços mais fundamentais de afeto que nos levam a amadurecer. Na família se encontra a experiência da gratuidade, do cuidado, da responsabilidade sobre o outro.

Nas famílias, todos contribuem para o projeto comum, todos trabalham para o bem comum, mas sem anular o indivíduo; pelo contrário, sustentam-no, promovem-no. Podem brigar entre si, mas há algo que não se move: este laço familiar. As brigas de família tornam-se reconciliações mais tarde. As alegrias e as penas de cada um são assumidas por todos. Isto sim é ser família! Oh, se pudéssemos conseguir ver o adversário político ou o vizinho de casa com os mesmos olhos com que vemos os filhos, esposas, maridos, pais ou mães, como seria bom.

FT, 230

E mesmo que tenhamos diferentes posições, diferentes pensamentos, diferentes visões sobre a vida, o laço familiar ainda é a nossa referência mais segura para construirmos uma sociedade justa e solidária. Quando esquecemos desses laços, quando desprezamos o outro, quando manipulamos a vida, quando partidarizamos e terceirizamos nossos valores essenciais, podemos cair num sério risco de perda de identidade, nos dizermos defensores dos direitos humanos, mas nos odiarmos, nos matarmos e nos alimentarmos do ódio e da vingança, que geram toda violência social: “Amamos a nossa sociedade, ou continua a ser algo distante, algo anônimo, que não nos corresponde, não nos insere, não nos compromete?” (FT, 230).

Falar em início da vida, do desenvolvimento humano integral, do entardecer da vida, significa falar da nossa responsabilidade sobre o nosso destino. Significa assumir total solidariedade com a nossa natureza em todas as suas etapas, não só durante nosso ínfimo tempo pessoal de existência, mas também da nossa presença humana na terra. Significa assumirmos o protagonismo de promover, defender e cuidar da humanidade garantindo o futuro das novas gerações. Diante de tanta destruição (moral, econômica, social, familiar, espiritual) é necessário reconstruir a paz. Novamente o Papa Francisco ecoa no nosso coração:

Muitas vezes há grande necessidade de negociar e, assim, desenvolver percursos concretos para a paz. Mas os processos efetivos duma paz duradoura são, antes de mais nada, transformações artesanais realizadas pelos povos, onde cada pessoa pode ser um fermento eficaz com o seu estilo de vida diária.

FT, 231

Cada vez que nos organizamos para o bem comum, estamos ampliando a força de garantir vida mais digna no planeta. O desengajamento moral que predomina sobre muitos, é um sinal de que o desgaste social pode acarretar um descrédito sobre o bem. Quando parece estranho fazer o bem, defender valores, pode ser sinal de uma moral que está adoentada, enfraquecida, desnutrida de amor. É preciso engajamento, bons propósitos e perseverança nas atitudes, pois a humanidade precisa acreditar de novo que é possível sonhar e realizar os sonhos

As grandes transformações não são construídas à escrivaninha ou no escritório. Por isso, cada qual desempenha um papel fundamental, num único projeto criador, para escrever uma nova página da história, uma página cheia de esperança, cheia de paz, cheia de reconciliação. Existe uma “arquitetura” da paz, na qual intervêm as várias instituições da sociedade, cada uma dentro de sua competência, mas há também um “artesanato” da paz que nos envolve a todos. A partir de distintos processos de paz que se desenvolvem em vários lugares do mundo, «aprendemos que estes caminhos de pacificação, de primazia da razão sobre a vingança, de delicada harmonia entre a política e o direito, não podem prescindir das pessoas implicadas nos processos.

FT, 231

Então, está mais do que na hora de deixarmos de lado nossas desavenças políticas, partidárias e ideológicas, e nos unirmos no cuidado do humano, da sua integral dignidade. O bom samaritano (Lc 10,25-37) não pensou duas vezes em ajudar o homem assaltado e correndo perigo de vida, pois se tratava de uma urgência humanitária. Naquele momento, as desavenças entre samaritanos e judeus, os conflitos entre religião e doutrina, as exigências entre status social e lei, foram superadas, para ajudar a pessoa concreta, real, enfim, o humano com o qual todos nos identificamos.  

Não basta o desenho de quadros normativos e acordos institucionais entre grupos políticos ou econômicos de boa vontade. Além disso, é sempre enriquecedor incorporar nos nossos processos de paz a experiência de setores que, em muitas ocasiões, foram deixados de lado, para que sejam precisamente as comunidades a revestir os processos de memória coletiva.

FT, 231

A Igreja, de maneira particular, tem sempre o protagonismo de trazer à tona os temas mais candentes, para que todas as pessoas de boa vontade possam aderir à arquitetura da paz, que extrapola nossos muros eclesiásticos e nos lança para sermos irmãos e irmãs no mundo, numa acolhida global das carências sociais que atingem a todos nós. Sempre teremos as vozes, inspiradas pelo Espírito Santo, em cada canto do mundo, em cada drama da vida, em cada coração entristecido, que vão fazer brotar a semente do Verbo e não vão permitir que roubem a esperança da humanidade.

  • Toda vez que alguém defende uma vida e é contra o aborto, é um cuidado que toca a responsabilidade para com todas as mulheres gestantes e com todas as crianças que estão por nascer;
  • Toda vez que alguém denuncia a fome de grupos excluídos ou de cidades e nações, é a voz da humanidade inteira sendo chamada a extinguir esse escândalo e esse mau como inadmissível nos tempos atuais;
  • Toda vez que alguém grita por paz em situações de conflitos e de guerras, todos nos sentimos impelidos a colaborar e pressionar para amenizar a dor das consequências dos conflitos armados, começando a paz em nossos lares;
  • Toda vez que alguém chora a perda de um filho para o tráfico e a droga, todos somos convocados a atuar para a diminuição desse vício e a buscarmos as causas e os causadores dessa tragédia humana;
  • Toda vez que alguém está na rua, sem nada e sem destino, todos nós nos sentimos absorvidos pela dignidade perdida, sem família, sem moradia, sem destino e, podemos pensar: Se fosse comigo? Se eu estivesse na rua? Como seria? É impossível desprezar essas pessoas.

 Enfim, poderia ter uma lista infinita de situações concretas. É possível entender que essas agendas não são somente deste ou daquele governo, mas de todos nós. Não precisamos ir longe para perceber que tem sempre alguém, ou um grupo mobilizado precisando de voluntários para salvar vidas e recuperar dignidades feridas. Basta ter um coração generoso e não cruzar os braços esperando que a resposta venha do alto. É um trabalho incessante que já existe, bem perto de você que está lendo esse texto agora. E se chegou neste ponto, vale a pena terminar com mais esse recado do Papa Francisco:

Nunca está terminada a construção da paz social num país, mas é uma tarefa que não dá tréguas e exige o compromisso de todos. Uma obra que nos pede para não esmorecermos no esforço por construir a unidade da nação e – apesar dos obstáculos, das diferenças e das diversas abordagens sobre o modo como conseguir a convivência pacífica – persistirmos na labuta por favorecer a cultura do encontro que exige que, no centro de toda a ação política, social e econômica, se coloque a pessoa humana, a sua sublime dignidade e o respeito pelo bem comum. Que este esforço nos faça esquivar de toda a tentação de vingança e busca de interesses apenas particulares e a curto prazo.

FT, 232

Assim, somos todos chamados a fortalecer a cultura do encontro como o caminho para a arquitetura da paz. Construamos juntos esse projeto, pensando de maneira especial, para as novas gerações, que poderão ter as referências sociais necessárias para distinguir o que leva à exclusão social e o que leva à unidade social em prol do bem comum. Em tempos de crise, resta-nos buscar a sabedoria, a lucidez, o bom senso e, acima de tudo, a humildade de reaprendermos a nos encontrar para um bom diálogo, onde os sonhos sejam reconstruídos e recuperados, e a vontade do povo brasileiro é que ninguém fique de fora.

Comentários

  1. Anor Marcon disse:

    Muito bom esse artigo que mira na construção permanente da paz.
    Em vez de excluir, separar incluir e tornar própria a dor a do outro.
    Vale a meu ver, também, denunciar toda forma de desprezo e escravidão, como é o caso dos indios Yanomamis para que se possa minimamente atravez dos orgãos competentes fazer o acolhimento e a proteção da vida, maior bem indissociável de qualquer pretexto.
    Que o “denunciar” não signifique marcar posição de quem está certo ou errado, mas sim trazer á vida àqueles onde ela sencontre ameaçada.ĺ

  2. Anor Marcon disse:

    Muito bom esse artigo de Dom Ricardo Hoepers em que mira na construção permanente da paz. Em vez de excluir, separar inclui e tornar própria a dor do outro. Vale a meu ver, também, denunciar toda forma de desprezo e escravidão, como é o caso dos indios Yanomamis para que se possa minimamente através dos orgãos competentes fazer o acolhimento e proteção da vida, como maior bem. Que o “denunciar” não signifique marcar posição de quem está certo ou errado, mas sim trazer vida onde ela se ncontra ameaçada.

  3. Juraci Teresinha Jardim Amaral disse:

    Juntos somos mais fortes , quero é rezo muito pela paz no mundo , pela igualdade .

  4. Maristela Bremm disse:

    Excelente reflexão Dom Ricardo! Sinto falta de uma prática que dimensione, verdadeiramente, a fé que professamos. Ficamos muito presos a conceitos filosóficos, teológicos e segmentamos a nossa atuação, delegando aos ” legalmente instiuídos” o papel de corrigir ou amenizar as desigualdades sociais. Até na nossa Igreja é assim: podemos ser muito ativos neste ou naquele movimento ou serviço, nesta ou naquela pastoral, porém, via de regra, a prática solidária ainda fica restrita a grupos que tem esse perfil…Ainda precisamos avançar muito para que a dor do outro, de fato, esteja doendo também em mim.

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