Por padre Rodolfo Chagas Pinho
A diminuição dos casamentos civis e religiosos no Brasil constitui mais do que um simples dado demográfico ou uma oscilação estatística da vida social. Trata-se de um fenômeno que interpela diretamente a autocompreensão pastoral da Igreja e a obriga a enfrentar, com lucidez teológica, uma questão decisiva: a Igreja ainda está conseguindo dialogar efetivamente com o mundo contemporâneo no anúncio do matrimônio cristão?[1]
Diante disso, seria superficial atribuir toda a responsabilidade à chamada crise dos valores ou às transformações socioculturais. Se Amoris Laetitia afirma logo em seu início que “o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia”,[2] o problema está no conteúdo do Evangelho da família ou nas mediações pastorais pelas quais ele vem sendo transmitido? O matrimônio cristão continua sendo vocação, sacramento, aliança e caminho de santificação; no entanto, em muitos contextos pastorais, ele tem sido apresentado mais como exigência jurídica, ideal abstrato ou formalidade sacramental do que como forma concreta, bela e possível de realização humana e cristã.
Não estaríamos diante de um fracasso pastoral? Certas formas eclesiais de anúncio que já não conseguem tornar o matrimônio plausível, desejável e existencialmente inteligível para muitos jovens e adultos. Quando a Igreja fala do matrimônio tarde demais, de forma fragmentária e quase sempre restrita ao momento pré-celebrativo, ela o retira do horizonte vocacional ordinário da vida cristã. Em lugar de ser percebido como chamado de Deus e caminho de felicidade pascal, o matrimônio passa a ser lido como rito social residual, exigência canônica ou ideal inalcançável. Nessa perspectiva, a baixa dos casamentos pode ser lida como sintoma de uma defasagem entre a complexidade da realidade cultural contemporânea e a configuração concreta da pastoral familiar.
O Documento de Aparecida afirmou com clareza que a família deve ser assumida como “um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja” e que, em cada diocese, se requer uma pastoral familiar “intensa e vigorosa”.[3] Ora, se a família é de fato eixo transversal, então a pastoral familiar não poderia permanecer reduzida a encontros pontuais, cursos de noivos ou atividades setoriais. Sua lógica deveria perpassar catequese, juventude, iniciação cristã, pequenas comunidades, liturgia, acompanhamento espiritual e a própria vida paroquial. O que se verifica, porém, em muitas realidades, é que essa conversão pastoral permanece incompleta. Há inúmeros católicos frequentes nas missas dominicais, rezando o terço diariamente, fazendo adoração ao santíssimo semanalmente, mas parece que a fé está muda, não há diálogo com o mundo, uma paralisia pastoral toma conta da Igreja. Não conseguem descer do Tabor para o anúncio.
É quase frequente falar do matrimônio quando a imaginação afetiva, antropológica e vocacional dos sujeitos já foi quase totalmente moldada por outras instâncias culturais. Ou seja, tarde demais.
Dra. Gabriella Gambino, observou que já não basta uma pastoral voltada apenas aos fracassos ou às emergências; é preciso tornar novamente visível a beleza do sacramento do matrimônio, de modo que crianças e jovens se sintam atraídos por essa vocação. Em outra intervenção, acrescentou que o matrimônio precisa ser anunciado “com maior força”, “com maior clareza”, mas sobretudo “a tempo”, já na iniciação cristã e no percurso ordinário de amadurecimento humano e espiritual. A crítica é contundente: em numerosos contextos eclesiais, a Igreja não falhou apenas no método, mas no tempo do anúncio. Fala-se do matrimônio quando já se deveria ter ajudado a formar, muito antes, a capacidade de amar, discernir, vincular-se e responder a uma vocação.[4]
Por isso, a resposta ao declínio dos casamentos não pode ser defensiva, nostálgica ou meramente normativa. Ela exige exame de consciência, revisão estrutural e verdadeira conversão pastoral. O próprio Papa Leão XIV, ao recordar os dez anos de Amoris Laetitia, insistiu que é necessário “evocar a beleza da vocação ao matrimônio” precisamente no reconhecimento da fragilidade humana, de modo que os jovens possam voltar a sentir-se atraídos por essa forma de vida.[5] Não basta defender teoricamente o matrimônio; é preciso criar comunidades, linguagens e processos que o tornem novamente credível.[6]
Rever o anúncio pastoral do matrimônio, portanto, não significa adaptar a verdade ao mundo, mas torná-la novamente inteligível como boa notícia, vocação e caminho de felicidade cristã no coração do mundo contemporâneo. Iniciar processos com as pessoas exige sair de nós mesmos e uma fé intimista para uma fé discipula e comunitária que exige missão.
Portanto, a diminuição dos casamentos civis e religiosos não autoriza uma leitura moralista da sociedade nem um triunfalismo defensivo da Igreja. Ela funciona, antes, como um sinal crítico de que há uma distância concreta entre o matrimônio que a Igreja professa e o matrimônio que ela consegue efetivamente tornar pensável, desejável e vivível no interior da cultura atual. Se essa distância não for reconhecida, a pastoral familiar continuará a repetir fórmulas corretas, porém crescentemente incapazes de gerar adesão. O problema não está no Evangelho do matrimônio, mas na insuficiência histórica de mediações pastorais que ainda não realizaram plenamente a conversão missionária pedida por Aparecida. Insistimos numa igreja balcão de informações e supermercado de sacramentos, enquanto assistimos a queda livre da taxa de casamentos religiosos.
[1] IBGE, Estatísticas do Registro Civil 2023 e 2024: em 2023 o número de casamentos caiu 3,0%, totalizando 940,8 mil registros; em 2024 houve aumento de 0,9%, somando 948.925, ainda abaixo da média observada entre 2015 e 2019. Ver também o dado censitário segundo o qual os casamentos civil e religioso caíram de 49,4% (2000) para 37,9% (2022), enquanto as uniões consensuais passaram de 28,6% para 38,9%
[2] AL 1.
[3] DAp 435.
[4] Intervenção na apresentação do Ano “Família Amoris Laetitia” e entrevista posterior ao Vatican News sobre os itinerários catecumenais: a beleza do matrimônio deve ser tornada perceptível aos jovens e o anúncio deve acontecer “a tempo”, já em etapas anteriores ao pedido sacramental.
[5] LEÃO XIV, Mensagem pelo décimo aniversário de Amoris Laetitia, 19 mar. 2026.
[6] LEÃO XIV, discurso ao Pontifício Instituto Teológico João Paulo II, 24 out. 2025. O Papa pede “ações orgânicas e concertadas a favor da família” e vincula a qualidade da vida social ao modo como as famílias podem viver e cultivar seus vínculos.


