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A família deve educar para o diálogo e para relações maduras

por Andre Luiz, 23 de fevereiro de 2021, 0 Comentários(s)

Esta é a terceira e última parte do artigo publicado por mim, Pe. Crispim Guimarães, no e-book “Aspectos a considerar sobre a proposta de ensino domiciliar”, que foi promovido pela Associação Nacional da Educação Católica do Brasil (ANEC). Boa leitura!

As instituições deveriam ser escolas humanas e espaços de diálogo, dando sentido às ações e aos empreendimentos pessoais e coletivos. No Magistério do Papa Francisco, percebe-se a exigência de que haja homens e mulheres peritos em diálogo, colocando a pessoa no centro do problema atual e não as ideologias (FT, n.244).

Por isso, a família educa a partir do ser humano concreto e o faz para contribuir na construção da identidade, que se constrói com o outro (MEAD, 1972). Para tal, a relação é primordial, pois abre para o horizonte dos significados, mudando e permanecendo ao mesmo tempo, no processo de transformação. O ser humano é um ser para o diálogo, porque já dentro de si mesmo as diversas dimensões se comunicam. “Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro!” (FT, n.217).

A educação dialogal parte de pessoas concretas e promove o encontro entre interlocutores diferentes. Sem o diálogo todos perecem. Mas como dialogar? Paulo VI aponta uma metodologia e também atitudes para o diálogo como processo educativo em vista dos valores: a) clareza, porque não se educa com a adrenalina, b) mansidão, porque não é ofensiva, não é oposição, vem da verdade, c) confiança, porque propõe confidência e até amizade, para estabelecer o bem, excluindo interesses egoístas, d) prudência pedagógica, porque leva em consideração as condições psicológicas e morais de quem ouve. Assim, se realiza a união da verdade e da caridade (ES, n. 47).

A educação familiar cristã, por buscar a Verdade[1], o Bem e o Belo precisa de um crescente aprofundamento, para que a família desempenhe o papel de amadurecimento das relações.

No pensamento que atravessa a sociologia de Marx Weber, constata-se que as relações pessoais fazem nascer as sociedades. Na percepção cristã, a família sempre foi chamada a educar para uma cultura da relação, aprendida sobretudo em casa. Aqui se encontra o cerne do papel da família na educação. A família educa para o amor e assim influencia outras instituições com os valores da misericórdia, da ética, da tolerância, da solidariedade e da fraternidade, sentindo com os outros, suas alegrias e angústias.

Só valores autotranscendentes[2] poderão permitir que posições antagônicas tão acirradas, como ódio, discórdia e muros cada dia mais elevados não confundam diferenças com intransigências. No diálogo sobre o processo educativo, como instrumento de valorização do amor em oposição ao ódio, deve-se lembrar que nas relações antitéticas, o outro deve ter clareza da sua posição. Assim, cada pessoa viva com autenticidade as convicções e posições que levem a um debate sincero que fará surgir os fatos e recantear as ideologias.

Este pacto implica também aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum. […]. A busca duma falsa tolerância deve dar lugar ao realismo dialogante por parte de quem pensa que deve ser fiel aos seus princípios, mas reconhecendo que o outro também tem o direito de procurar ser fiel aos dele…”(FT, n.221).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para sair da situação de crise da família e da educação é necessário o dom do amor, que dado por Deus habita em cada pessoa. Os valores autotranscendentes: amor, compaixão, misericórdia etc., podem fazer brotar o  que de melhor cada ser humano recebeu como presente do Criador.

A violência, o descarte, a autoflagelação, as dores humanas apresentam uma sociedade pautada em valores transitórios. Portanto, descobrir o diferente como dom, é constitutivo do processo de autonomia que se completa na integração e não na fusão ideológica. A família que educa, se enriquece quando é capaz estabelecer pontes e vínculos.

O Pacto Educativo Global proposto pelo Papa Francisco, sobretudo, com o advento da pandemia, põe a educação como elemento primordial, quando é preciso olhar a história do passado familiar, aprender a viver o presente e a repensar o futuro. O papel da família na educação nunca foi fácil e com os últimos acontecimentos, se tornou ainda mais complexo (INST. LABORIS, p. 2).

A cultura do descarte nasce da rejeição à interrelação e à fraternidade. A negação do papel da família na educação, para além da transmissão de conteúdos pragmáticos e/ou a delegação ao Estado com sua visão tecnicista, tem gerado uma sociedade global consumista, utilitarista e, consequentemente, reducionista, pois quem não produz e não tem, não é útil.

Na origem desta cultura do descarte está um grande desrespeito pela dignidade humana, uma promoção ideológica com visões reducionistas da pessoa, uma negação da universalidade de seus direitos fundamentais e um desejo de poder e controle absolutos que domina a sociedade moderna hoje. Digamos pelo nome: isso também é um atentado contra a humanidade” (FRANCISCO, 2020).

E ainda, nos países pobres aparece o drama da educação excludente, nas nações desenvolvidas percebe-se que a educação não responde a problemática crescente da solidão, da falta de sentido e do suicídio, evidenciando a ausência do conhecimento último do que é ser pessoa. Por isso, olhar a família, não é olhar um agrupamento de vizinhos, mas sim perceber como ela é necessária para que a sociedade seja escola de fraternidade (CV, n.19).

Na contemporaneidade, outros desafios estão postos. As novas mídias, por exemplo, são ferramentas desafiadoras e podem ser colaborativas da família, mas é imperativo a vigilância e o equilíbrio no seu uso (FT, n. 205). O futuro exigirá da família um posicionamento diante desse elemento novo e revolucionário para as relações em todos os campos: interpessoais, famíliares, escolares (saberes), sociais e todos os ambientes da vida humana. Assim, alerta Francisco, dizendo que

Os Padres (Sinodais) quiseram sublinhar também que um dos desafios fundamentais que as famílias enfrentam hoje é seguramente o desafio educativo, que se tornou ainda mais difícil e complexo por causa da realidade cultural atual e da grande influência dos meios de comunicação. […]. O Estado oferece um serviço educativo de maneira subsidiária, acompanhando a função não-delegável dos pais, que têm direito de poder escolher livremente o tipo de educação – acessível e de qualidade – que querem dar aos seus filhos, de acordo com as suas convicções” (AL, n. 84).

A família não pode e não tem o direito de não colaborar nesse processo de discernimento, delegando às instituições estatais a condução desse processo. À família compete colocar em pauta aqueles valores que trazem e que são constitutivos das realidades humanas mais profundas e a interagir na construção de um projeto que responda às necessidades concretas do ser humano hoje.

Para o Santo Padre, Papa Francisco, o diálogo é ponto inegociável: “Como a experiência escolástica confirma, uma educação frutífera não depende primariamente da preparação do professor, nem das habilidades dos alunos, mas da qualidade do relacionamento que é estabelecido entre eles” (INST. LABORIS, p. 12).

A educação tem sua razão de ser no serviço, na abertura ao outro, ela por si só é um grande serviço. É fundamental afirmar que antes das instituições privadas ou estatais, a educação sempre existiu, porque existia família!

REFERÊNCIAS

ALVES, J. C. M. Direito Romano. Rio de Janeiro, RJ: Forense, 1977.

BENTO XVI. Encíclica Caritas in veritate. Brasília, DF. CNBB, 2009.

COMPÊNDIO VATICANO II. Gravissimum Educationis. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

DESSEN, M. A. Estudando a família em desenvolvimento: desafios e conceituais e teóricos. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pcp/v30nspe/v30speca10.pdf. Acesso em: 10 set. 2020.

FRANCISCO. Exortação Apostólica Amoris Laetetia. Brasília, DF. CNBB, 2016

______. Carta Encíclica Fartelli Tutti. Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html. Acesso em: 05 out. 2020.

­­­­_______. Discurso na ONU. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-09/papa-francisco-videomensagem-assembleia-geral-onu.html. Acesso em: 23 de set.

JOAO PAULO II. Familiares Consortio. Disponível em: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_19811122_familiaris-consortio.html. Acesso em: 20 Set. 2020.

MANENTI, A. Viver em Comunidade: aspectos psicológicos. São Paulo, SP: Paulinas, 1985.

MEAD, G. Espíritu, persona e sociedad. Desde el de vista del conductismo social. 3. ed. Bueno Aires, Argentina: Paidos, 1972.

PAULO VI. Ecclesiam Suam. http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_06081964_ecclesiam.html. Acesso em: 13 set. 2020.

PACTO PELA EDUCAÇÃO: Instrumentum Laboris. Disponível em: https://www.educationglobalcompact.org/resources/Risorse/instrumentum-laboris-pt.pdf. Acesso 17 set. 2020

OSORIO, L. C. O que é a família, afinal? Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1996.

SANTOS, C. G. Identidade familiar: um estudo a partir da “Teoria da Autotranscedência na Consistênciade Rulla. Disponível em: https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=1525091. Acesso em: 12 set. 2020.

SIQUEIRA, A. M. Conceito de família ao longo da história e obrigação alimentar. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/17628/o-conceito-de-familia-ao-longo-da-historia-e-a-obrigacao-alimentar. Acesso em: 05 set. 2020.

DURÁN, J. R. S. Família e Educação. Simpósio Nacional da Família. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cSAOLnbmbIk. Acesso em: 15 set. 2020.

WOJTYLA. K. J. Persona y Acción. Biblioteca de Aitores Cristianos. La Editoria Católica, S. A. Madrid, Espanha, 1982.


[1] O que é Verdade? É aquilo que nos torna bons, que ultrapassa as sensações subjetivas, para encontrar o valor e a substância das coisas. Ela não nasce da vontade, “de certa forma, impõe-se ao ser humano” (CV, n.34). A verdade não vem do jornalismo, vai além das conveniências que mudam rapidamente (FT, n.208).

[2] Valores autotranscendentes são aqueles valores que revelam a verdade última do ser humano, tais como liberdade e amor, como a capacidade de sair de si mesmo desinteressadamente ao encontro do outro, para senti com…, superando o conceito de justiça meramente baseada nas leis estatais.

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