Por Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
O IV Congresso Regional da Pastoral Familiar Nordeste 2, que se realiza em Natal, de 21 a 23 de agosto de 2026, propõe como tema “Família cristã: vocação ao amor e missão no mundo de hoje”. Ao celebrar os 45 anos da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de São João Paulo II, e os 10 anos da Amoris Laetitia, do Papa Francisco, o Congresso nos oferece uma ocasião privilegiada para refletir sobre uma afirmação tão simples quanto decisiva: “A família é a primeira escola dos valores humanos” (Amoris Laetitia, 274).
De fato, muito antes de uma criança entrar na escola, sua formação já começou. Em casa aprende — sobretudo pelo exemplo dos pais e daqueles que dela cuidam — a respeitar, agradecer, partilhar, esperar, pedir desculpas, cuidar do outro, reconhecer limites e assumir responsabilidades. É na convivência familiar que se lançam também as primeiras sementes da fé e se aprende que liberdade não significa simplesmente fazer tudo o que se deseja.
Entretanto, educar tornou-se uma tarefa particularmente exigente. Muitos pais e mães sentem-se inseguros, cansados e até inadequados diante dos desafios atuais. Não devemos culpá-los, mas ajudá-los. A sociedade mudou rapidamente, e a revolução digital entrou em nossas casas antes que aprendêssemos plenamente a lidar com ela.
Um sinal preocupante é entregar muito cedo o celular à criança simplesmente para mantê-la ocupada. Sem acompanhamento, é como deixá-la sozinha numa imensa rua digital. Ali encontrará coisas boas, mas também conteúdos impróprios, comportamentos e valores diante dos quais ainda não possui maturidade nem discernimento. O desafio não é demonizar a tecnologia, mas recuperar a presença educativa dos adultos.
Também merece atenção o número crescente de crianças e adolescentes encaminhados para avaliação e diagnóstico de transtornos do desenvolvimento ou da aprendizagem. Diagnósticos realizados com seriedade e por profissionais qualificados são importantes e, quando necessários, possibilitam acompanhamento adequado e intervenções oportunas. Entretanto, precisamos evitar tanto o preconceito contra quem de fato apresenta algum transtorno quanto a tendência de transformar apressadamente toda dificuldade de comportamento, aprendizagem ou convivência em diagnóstico e medicalização. Às vezes, antes de perguntar “qual transtorno esta criança tem?”, precisamos perguntar também: de que presença, limites, escuta, rotina, afeto e convivência ela necessita?
Educar exige tempo, paciência e, sobretudo, exemplo. O recente documento A ecologia integral na vida da família, publicado pelos Dicastérios da Santa Sé para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e para os Leigos, a Família e a Vida, recorda que é no ambiente familiar que se exercitam “o dom de si, a paciência e a dedicação, o acolhimento e a proteção da vida”. É também na família que se formam hábitos, valores e virtudes fundamentais para o amadurecimento da pessoa e que podem acompanhá-la ao longo de toda a existência.
Por isso, fortalecer a família é ajudá-la concretamente a cumprir sua insubstituível missão educativa. Como recorda o Papa Francisco, “o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja” (Amoris Laetitia, 31). Cada gesto de cuidado, cada limite colocado com amor, cada momento de escuta, cada exemplo de respeito, solidariedade, perdão e fé ajuda a formar a pessoa que amanhã estará presente na escola, no trabalho, na Igreja e na sociedade. Cuidar da família é cuidar dessa primeira escola de humanidade e, por isso mesmo, cuidar do futuro de todos nós.


