Por padre Rodolfo Chagas Pinho, no Congresso Regional do Sul 3
Assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB
A missão do cuidado e do acompanhamento constitui uma dimensão essencial da identidade evangelizadora da Pastoral Familiar e seu fundamento não se restringe à necessidade de responder às crises conjugais, mas encontra-se no modo como Deus se aproxima da humanidade e a conduz à plenitude da vida.[1] Em sintonia com a orientação sinodal e missionária das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, essa missão exige a conversão das relações e das práticas pastorais, superando atendimentos episódicos para estabelecer processos de proximidade, discernimento e integração.[2]
A Sagrada Escritura apresenta o cuidado como expressão da solicitude divina, como em Êxodo, Deus vê a aflição de seu povo, ouve seu clamor e desce para libertá-lo. (Ex 3,7-8). Em Jesus Cristo, essa proximidade alcança sua expressão definitiva: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) e no magistério o Concílio Vaticano II afirma que, “pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem”.[3] Consequentemente, a história concreta das pessoas não constitui um elemento secundário da evangelização, mas o lugar no qual a graça é acolhida e a liberdade responde ao chamado de Deus.
Cuidar e acompanhar são realidades inseparáveis, embora apresentem acentos distintos, como o cuidar significa reconhecer a dignidade da pessoa e responder às suas necessidades de acolhida, proteção e orientação, bem como o acompanhar implica sustentar essa presença ao longo do tempo, colaborando para o amadurecimento humano e cristão. São João Paulo II ensina que a ação pastoral deve seguir a família, “acompanhando-a passo a passo nas diversas etapas da sua formação e desenvolvimento”.[4] O acompanhamento, portanto, não se destina somente às situações de ruptura, mas integra todo o itinerário da vocação familiar.[5]
O caminho de Emaús oferece uma referência para essa pedagogia pastoral: Jesus aproxima-se, escuta, ilumina a experiência com as Escrituras, permanece à mesa e suscita o retorno à comunidade (Lc 24,13-35). O objetivo não é produzir dependência, mas favorecer o encontro com Cristo e a participação responsável na missão, por isso, o acompanhante não deve ocupar o lugar da consciência: “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”.[6] A autenticidade do vínculo pastoral manifesta-se na liberdade e na maturidade que ajuda a desenvolver.[7]
Discernir significa reconhecer, diante de Deus, os caminhos concretos de crescimento no bem e não se trata de relativizar a verdade do Evangelho nem de aplicar normas desconsiderando histórias e condicionamentos. Francisco ensinava: “Sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento”[8]. A lei da gradualidade não modifica arbitrariamente a exigência moral, mas reconhece que sua compreensão e realização amadurecem na história pessoal, portanto, a misericórdia sustenta esse processo sem dispensar a conversão.[9]
Essa perspectiva requer uma comunidade corresponsável, com a Pastoral Familiar, catequese, liturgia, juventude, ação social, Pastoral da Saúde entre tantas outras expressões eclesiais articulando seus serviços, evitando respostas fragmentadas.[10] O acompanhamento pastoral também deve reconhecer seus limites e recorrer a profissionais e serviços especializados quando necessário, como em situações de violência, a segurança das pessoas não pode ser subordinada à preservação da convivência. A própria Amoris laetitia reconhece que a separação pode tornar-se moralmente necessária para proteger o cônjuge vulnerável e os filhos.[11]
O horizonte dessa missão é uma cultura comunitária do cuidado, na qual as famílias sejam reconhecidas como sujeitos da evangelização, como Aparecida recorda que “uma família se faz evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente em que ela vive”.[12] O acompanhamento possui caráter pascal: reconhece as feridas sem abandonar a esperança de renovação, e assim, cuidar protege a dignidade; acompanhar favorece a liberdade; discernir ilumina decisões; integrar promove pertença e missão.[13]
Portanto, o Congresso Regional nos propõe constituir uma pequena rede de acompanhamento, primeiro em casa com a própria família e depois articulada pela Pastoral Familiar com o pároco e o Conselho Pastoral Paroquial, em nossas comunidades.[14] A escuta e a leitura orante ajudam a identificar necessidades, possibilidades de apoio e um próximo passo concreto em cada situação de fragilidade e dor e assim a comunidade passa pela conversão dos processos, dos vínculos e relações transformando-se em presença fraterna e responsável na vida familiar, pois a Igreja só será um sinal de esperança na medida em que buscar resplandecer a luz de Cristo.[15]
“Hoje contemplamos Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitem para conhecermos o que ele fez para discernirmos o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias”[16]
[1] Documento de Aparecida, 139.
[2] CNBB, Doc. 114, n. 41.
[3] Gaudium et Spes, 22.
[4] Familiaris Consortio, 65.
[5] Evangelii Gaudium, 170-171.
[6] Amoris Laetitia, 37.
[7] Christus Vivit, 242-246.
[8] Amoris Laetitia, 308.
[9] ALMEIDA, André Luiz Boccato de. Amoris Laetitia e a vida cristã: uma reflexão teológico-analítica sobre o papel da consciência no discernimento cristão, p. 165.
[10] LEÃO XIV, A comunidade humana. Audiência Geral, 16.09.2025.
[11] Amoris Laetitia, 241.
[12] Documento de Aparecida, 204.
[13] LEÃO XIV, A espiritualidade da Páscoa inspira a fraternidade. Audiência Geral, 12.11.2025.
[14] Evangelii Gaudium, 24; 169.
[15] GOMES, Tiago de Fraga. O cuidado pastoral da Igreja como sinal de esperança em tempos de crise, p. 547.
[16] Documento de Aparecida, 139.


