Por Danilo Cortez Gomes
Leigo e pai de família de Currais Novos, da Diocese de Caicó (RN)
É comum imaginarmos a santidade através de ações extraordinárias realizadas por pessoas singulares, como se fossem distantes da nossa realidade. Essa percepção equivocada sobre a santidade nos distancia da capacidade de enxergá-la mais perto do que imaginamos.
Na Solenidade de Todos os Santos, ouvimos Jesus Cristo no Sermão da Montanha, mais especificamente ao ensinar sobre as bem-aventuranças (Mt 5,1-12), recordando-nos que a santidade começa nas escolhas concretas de cada dia. Nesse sentido, um dos lugares privilegiados para vivê-la é justamente na família. Jesus, ao apresentar um itinerário de vida que, à primeira vista, contrasta com valores apregoadas na sociedade atual como o individualismo, a competição e a busca desenfreada pelo prazer, nos ensina a maneira adequada de nos comportarmos em comunidade. Ser pobre em espírito, manso, misericordioso e promotor da paz são características daqueles que amam o Senhor por meio do testemunho de vida. Isso é buscar viver a santidade! São Paulo já exortava os Colossenses dizendo: “Portanto, como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente […] Mas sobre tudo isso, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,12-14).
Há muitas maneiras e lugares em que podemos colocar em prática as orientações do Mestre nesse itinerário de vida no qual todos nós devemos passar. Todavia, há um lugar especial que Deus escolheu para ser um celeiro de amor em que o exercício da paciência, do perdão, da amabilidade e da paz nos são solicitados: na família. Isso mesmo! Dentro de nossas casas temos a oportunidade de vivenciar essa aventura chamada busca da santidade. Ao comentar sobre a vocação do matrimônio e o dever dos pais, Catherine Doherty diz: “O matrimônio é uma vocação, um chamado de Deus a duas pessoas para se tornarem uma só, estabelecer um lar, gerar, suportar e criar filhos; e, nesta gloriosa e difícil vocação, tornarem-se santos e fazer tudo que estiver em seu poder para tornar santos os seus filhos”[1].
Desse modo, afirmamos que a família é o primeiro lugar onde aprendemos a amar, respeitar, partilhar e conviver com as diferenças. É também ali que nossas limitações ficam mais evidentes. Afinal, quem disse que é fácil manter sempre a paciência com o cônjuge e compreender as escolhas dos filhos? Como não se angustiar ao lidar com as preocupações financeiras ou cuidar de um familiar idoso? Ora, em quantas oportunidades foram ditas palavras sem pensar? Sim, eu sei que esses desafios são constantes e fazem parte de uma vida familiar, mas deixe-me dizer outra coisa: também sei que Deus nos concede a graça de sermos melhores uns para os outros, a começar pela minha própria família.
É nas inúmeras situações do cotidiano que as bem-aventuranças ganham vida, pois ser manso pode significar escolher o diálogo (ou até mesmo o calar-se por um momento) em vez de responder com agressividade durante uma discussão; ser misericordioso pode ser reconhecer o erro, pedir desculpas e oferecer uma nova oportunidade ao outro; ser pobre no espírito pode nos conduzir à humildade de reconhecer que não temos todas as respostas e que precisamos de Deus e dos familiares para caminharmos juntos; ser promotor da paz pode começar com um gesto simples ao desligar o celular para ouvir o filho, reservar um tempo para conversar com o cônjuge ou procurar a reconciliação depois de um desentendimento.
Creio que você já percebeu que a santidade se revela nos pequenos gestos de cada dia. Atitudes aparentemente pequenas, mas sempre muito significativas. Costumo pensar que essas iniciativas, unidas a Jesus Cristo, têm um valor redentor. Preparar uma refeição com carinho, acompanhar o filho em suas dificuldades, visitar os avós, cuidar de quem está doente, dividir as responsabilidades domésticas e rezar juntos são gestos cotidianos que, quando realizados com amor, tornam-se expressões concretas da presença de Deus na vida familiar.
Na Exortação Apostólica Amoris laetitia, o Papa Francisco recorda que o amor na família é uma realidade que se constrói e amadurece no cotidiano, inclusive diante das fragilidades e imperfeições de cada pessoa (AL, n. 90-119)[2]. Isso nos leva a compreender as famílias são chamadas a transformar suas dificuldades em oportunidades de crescimento, diálogo, perdão e amor, isto é, em caminhos de santidade! O Papa Leão XIV recentemente nos lembrou: “a caridade doméstica, concreta, não isenta de momentos de cansaço, erros e tropeços, e ao mesmo tempo maravilhosa na sua imprevisível cotidianidade, é a primeira escola dos afetos, a primeira, preciosa e insubstituível aprendizagem da ‘alegria do amor’. Por isso, merecem ser valorizados e apoiados os esforços de tantas famílias que, nas nossas cidades e aldeias, vivem a sua vocação e missão dia após dia, sem ruído, mas com fidelidade por vezes heroica”[3].
Amadas famílias, ao reconhecermos nossas fragilidades, repitamos com São Paulo: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder” (2 Cor 12,9a). E, ao compreendermos que não precisamos ser uma família perfeita para trilhar o caminho da santidade, peçamos a graça de Deus para estarmos dispostos sempre a recomeçar, a reconhecer nossas limitações e a cultivar diariamente o amor entre nós. Como Igreja doméstica, a família é chamada a testemunhar que a santidade está presente na maneira como nos tratamos, cuidamos uns dos outros e enfrentamos juntos os desafios do dia a dia, pois “construir um lar, para um cristão, não deixa de ser uma tarefa igualmente divina, e quem o faz pode contar com a colaboração de Cristo” (CHEVROT, 1992, p. 12)[4].
Ao celebrarmos a Solenidade de Todos os Santos, os ensinamentos de Jesus por meio das bem-aventuranças nos convidam a olhar para nossos lares e reconhecer que o caminho da santidade também passa pelo abraço reconciliador, pela escuta atenta, pela refeição compartilhada e pelo cuidado silencioso. Bendito seja Deus por essa linda aventura e vocação que Ele nos permite viver em família.
E você, caro(a) leitor(a), que tal conversar em família sobre esse caminho de santidade através dos pequenos gestos? Deixo duas perguntas para ajudar nessa reflexão:
- Em nosso cotidiano familiar, quais atitudes concretas revelam que estamos vivendo (ou não) as bem-aventuranças?
- O que podemos fazer, a partir de hoje, para tornar nosso lar um espaço de mais diálogo, perdão, misericórdia e paz?
Com carinho e orações,
De um aprendiz do burrinho da Sagrada Família de Nazaré.
[1] DOHERTY, Catherine de Hueck. Dear parents: a gift of love for families. Combermere: Madonna House Publications, 1997.
[2] FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris laetitia sobre o amor na família. Vaticano, 19 mar. 2016. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html. Acesso em: 30 out. 2026.
[3] LEÃO XIV, Papa. Santa Missa por ocasião do 10º aniversário da Exortação Apostólica Amoris laetitia: homilia do Santo Padre Leão XIV. Vaticano, 14 out. 2026. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/homilies/2026/documents/20261014-messa-amoris-laetitia.html. Acesso em: 30 out. 2026.
[4] CHEVROT, Georges. O Evangelho no lar. São Paulo: Quadrante, 1992.







