Por padre Evandro Stefanello
Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico de Cuiabá e Assessor Eclesiástico da Pastoral Familiar do Regional Oeste 2
Muito se fala hoje sobre a sinodalidade na vida da Igreja. Entretanto, para que ela seja verdadeiramente vivida nas comunidades, precisa antes ser aprendida dentro de casa. A família é a primeira comunidade cristã, a “Igreja doméstica”, onde os valores do Evangelho deixam de ser apenas ensinamentos e se transformam em experiência concreta. É ali que a sinodalidade encontra seu primeiro e mais importante espaço de aprendizagem.
A palavra sinodalidade significa, literalmente, “caminhar juntos”. Antes de ser um método de organização eclesial, ela é um modo de viver as relações humanas à luz do Evangelho. Na família, caminhar juntos significa que marido e esposa não vivem como adversários, mas como companheiros de vocação. Significa aprender a escutar antes de responder, dialogar antes de julgar, compreender antes de condenar e decidir sempre buscando o bem de todos.
É justamente na convivência diária que se aprende a escuta, elemento essencial da sinodalidade. Nenhum matrimônio permanece sólido quando apenas um fala e o outro apenas escuta. Também não cresce uma família quando cada membro vive fechado em seus próprios interesses. A verdadeira comunhão nasce quando cada pessoa encontra espaço para expressar suas alegrias, medos, dificuldades e esperanças, sendo acolhida com respeito e amor.
Contudo, a sinodalidade na família não significa ausência de autoridade. O diálogo não elimina as responsabilidades próprias de cada membro da família. Os pais continuam tendo a missão de educar, orientar e, muitas vezes, tomar decisões em favor dos filhos. Da mesma forma, os esposos são chamados a discernir juntos os caminhos da família, assumindo corresponsavelmente as escolhas que dizem respeito ao lar. Escutar não significa renunciar ao dever de decidir; significa decidir depois de ouvir, discernir e rezar.
Nesse sentido, a família torna-se uma verdadeira escola de comunhão. Os filhos aprendem que opiniões diferentes não precisam gerar divisões, que conflitos podem ser resolvidos pelo diálogo e que o perdão é mais forte que o orgulho. Aprendem também que ninguém possui toda a verdade sozinho e que a escuta sincera é um gesto de amor. Assim, valores fundamentais para a vida da Igreja e da sociedade são cultivados no ambiente familiar.
Essa perspectiva encontra profundo eco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia. O Papa Francisco recorda que a família é lugar privilegiado de encontro, de diálogo, de crescimento recíproco e de amadurecimento no amor. O matrimônio não é apenas uma convivência entre duas pessoas, mas um caminho permanente de discernimento, em que esposo e esposa procuram, juntos, responder à vontade de Deus nas alegrias e nos desafios da vida cotidiana. A comunhão familiar não nasce da ausência de dificuldades, mas da disposição constante de recomeçar.
Quando uma família aprende a viver a sinodalidade, toda a comunidade eclesial é beneficiada. Os esposos levam para a paróquia a experiência do diálogo; os filhos aprendem a participar da vida da Igreja com responsabilidade; as decisões pastorais são enriquecidas por pessoas que já descobriram, em casa, o valor da escuta e da corresponsabilidade. Não existe verdadeira renovação eclesial sem famílias que vivam a comunhão no cotidiano.
Por isso, a sinodalidade não começa nas assembleias, nos conselhos pastorais ou nos sínodos. Ela começa à mesa da família, na oração em comum, na conversa depois de um dia difícil, na coragem de pedir perdão, na paciência para ouvir, na busca compartilhada da vontade de Deus. Antes de ser um programa pastoral, a sinodalidade é um estilo de vida. E esse estilo aprende-se, sobretudo, na família, onde o amor transforma pessoas diferentes em uma verdadeira comunhão de vida e de fé.


