Nesta quinta-feira (8), segundo dia do encontro Dez anos depois da Amoris laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje”, na Sala Paulo VI, no Vaticano, o objetivo foi discernir os sinais dos tempos a partir da experiência das famílias e do compromisso da Igreja. Os grupos se reuniram para analisar as experiências dos casais e das famílias, suas belezas e desafios. A dinâmica que orientou os trabalhos foi a dinâmica da Conversa no Espírito, com as mesas sinodais, onde estão presentes casais, bispos e famílias, assim como especialistas na temática familiar.
“Nesse processo, nós podemos perceber que em todos os continentes, os problemas são semelhantes, e os desafios também, mas há uma constatação da importância da família e de preparar os jovens em vista da família”, ressaltou o bispo de Ponta Grossa (PR) e presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Bruno Elizeu Versari.
O prelado ressaltou que uma palavra que permeou toda a conversa foi formação – tanto em vista do sacramento do matrimônio, como pós-matrimônio e a preparação de seminaristas e sacerdotes para acompanhar as famílias. “Em tempos de grandes mudanças é importante poder acompanhar as famílias e contribuir para que possam viver a vocação”, apontou o bispo.
“Há essa grandeza que é a vocação e o acompanhamento para que ela, além de ser acolhedora de todo o ensinamento, também ser missionária. Ao mesmo tempo, enquanto recebe, reparte e evangeliza”, enfatizou dom Bruno.
Experiências
Os trabalhos do segundo dia começaram com a intervenção do cardeal Filipe Neri Ferrão, arcebispo metropolita de Goa e Damão, na Índia. Ele reconheceu que a realidade das famílias sofreu uma mudança em sua identidade, natureza e composição, com núcleos familiares menores, novas formas de convivência e casamentos inter-religiosos. As famílias tendem cada vez mais a se deslocar e muitas delas enfrentam insegurança econômica, pobreza, desemprego e incerteza quanto ao futuro. “As famílias cristãs em várias regiões da Índia e da Ásia são obrigadas a conviver com uma crescente polarização religiosa e hostilidade, o que torna cada vez mais difícil a expressão pública e a transmissão da fé”, disse.
Segundo ele, há, porém, a beleza que essas famílias oferecem à Igreja, na atenção dedicada às crianças, aos idosos, aos doentes e às pessoas vulneráveis. “Nossas famílias continuam a criar espaços positivos de alegria e esperança. Agora consideramos a preparação para o casamento como o início de um caminho que dura toda a vida, oferecemos renovação espiritual e acompanhamento aos casais e às crianças, e continuamos a formar as famílias e os líderes leigos ao longo do tempo”, explicou.
O segundo palestrante, Vincenzo Rosito, professor de História e Cultura das Instituições Familiares na Pontifícia Universidade Lateranense e vice-reitor do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, fez um convite, inspirado na reflexão do Papa Leão XIV na encíclica Magnifica humanitas: “Que cada um esteja atento às relações que constrói dentro de sua própria família e dentro da Igreja”. O professor Rosito ressaltou que “as práticas familiares nos ajudam a compreender como as igrejas e as famílias aprendem umas com as outras. Tanto a Igreja quanto a família, de fato, aprendem também por meio das práticas de sua vida cotidiana”.
Para ele, a pergunta a se fazer como pai, mãe, teólogo ou pastor é: “Sou capaz de reconhecer e apresentar aos outros pelo menos uma coisa nova que aprendi a fazer, ou a fazer de maneira diferente, nos últimos anos da minha vida familiar ou pastoral?”.
A família e a Igreja, prosseguiu Rosito, “aprendem juntas nas transformações” e ele recorreu à imagem evangélica da fuga para o Egito de Jesus, José e Maria. Hoje, lembrou ele, “por meio da experiência das famílias refugiadas e migrantes, algumas comunidades cristãs estão se reconfigurando como ‘igrejas-refúgio’” para quem chega a uma nova terra ou está realizando uma longa viagem. O drama compartilhado por muitas famílias é o da violência:
“A insegurança decorrente da violência social e política é uma realidade preocupante que muitas igrejas precisam lidar hoje, em sua vida cotidiana” e que pode “devorar até mesmo os laços familiares e as próprias relações eclesiais”. O sonho de José também é uma experiência dessa fuga: “Sonhar, imaginar novas formas para a Igreja — concluiu o relator — significa também renovar o que já fazemos. Imaginar a Igreja significa estar disposto a aprender uns com os outros, enquanto nos transformamos juntos, como igrejas e como famílias”, apontou.

