Pronunciamento do assessor da Comissão Episcopal para Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Rodolfo Chagas Pinho, na Câmara Municipal de Luziânia (GO) sobre a defesa da vida
É com gratidão e profundo senso de responsabilidade que participamos deste momento de reflexão sobre uma das questões mais fundamentais da existência humana: o sentido da vida. Trata-se de uma temática que ultrapassa as fronteiras religiosas, filosóficas, culturais e partidárias, porque diz respeito àquilo que nos constitui em nossa condição mais originária: somos seres humanos chamados à existência, dotados de dignidade, liberdade, consciência e capacidade de amar.
Antes de exercermos qualquer função pública, profissional, familiar ou religiosa, somos pessoas. Antes de nossas realizações, conquistas ou responsabilidades, recebemos a vida como uma possibilidade singular de existir, estabelecer relações, construir uma história e participar da edificação de um mundo mais humano. Entretanto, diante das profundas transformações culturais de nosso tempo, somos interpelados por uma pergunta que não pode ser evitada: afinal, o que torna a vida digna de ser vivida?
Vivemos em uma sociedade que alcançou extraordinários avanços científicos, tecnológicos e econômicos, nunca dispusemos de tantos recursos de comunicação, de tantas possibilidades de acesso à informação e de instrumentos tão sofisticados para prolongar e facilitar a existência humana. Paradoxalmente, porém, esses progressos convivem com experiências crescentes de solidão, fragmentação dos vínculos, sofrimento psíquico, insegurança existencial e dificuldade de projetar o futuro.
Estamos cada vez mais conectados, mas nem sempre verdadeiramente próximos, multiplicamos as possibilidades de comunicação, mas frequentemente perdemos a capacidade de escutar. Acumulamos informações, mas nem sempre adquirimos sabedoria, desenvolvemos tecnologias capazes de transformar o mundo, mas continuamos diante da tarefa essencial de aprender a viver humanamente.
O desafio de nosso tempo, portanto, não consiste apenas em descobrir como viver mais, mas sobretudo em compreender por que viver e para quem viver. Uma existência biologicamente prolongada não corresponde necessariamente a uma vida humanamente realizada. O sentido não nasce simplesmente da duração dos nossos dias, mas da orientação que conferimos à existência, dos vínculos que cultivamos, dos valores que assumimos e do bem que somos capazes de realizar.
Há uma convicção que pode reunir pessoas de diferentes crenças e visões de mundo: ninguém se reduz à sua profissão, à sua renda, à sua produtividade ou à posição que ocupa na sociedade. No horizonte cristão, essa convicção é expressa pelo Concílio Vaticano II, em Gaudium et spes, n. 22, ao recordar a profundidade do mistério humano. No horizonte da vida democrática, ela se traduz na igualdade em dignidade e na responsabilidade de construir instituições que tratem cada pessoa como um fim em si mesma.
A tradição bíblica descreve a existência como dom e o ser humano como imagem de Deus (Gn 1,26-27). Em um espaço público plural, podemos traduzir sua consequência ética em termos compartilháveis: ninguém precisa demonstrar utilidade econômica, eficiência ou prestígio para merecer respeito. O valor de uma criança, de uma pessoa idosa, de alguém com deficiência ou de um trabalhador desempregado não depende de resultados. O ser humano possui valor não simplesmente por aquilo que realiza, mas por aquilo que é.
Essa convicção foi recentemente aprofundada pelo Papa Leão XIV na encíclica Magnifica humanitas, publicada em 15 de maio de 2026, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. No número 50, o Pontífice recorda que a dignidade humana não depende das capacidades, das riquezas ou da função desempenhada, pois constitui um dom que precede e ultrapassa a própria pessoa.
Essa perspectiva possui particular relevância em uma sociedade frequentemente orientada pela lógica da eficiência, do rendimento e da competitividade. Quando o valor humano passa a ser medido pelo desempenho, instala-se silenciosamente uma antropologia da utilidade, segundo a qual algumas existências parecem valer mais do que outras.
A criança ainda não nascida, a pessoa com deficiência, o idoso dependente, o enfermo, o desempregado, a pessoa em sofrimento psicológico e todos aqueles que não correspondem aos padrões sociais de eficiência correm o risco de ser percebidos como problemas, encargos ou presenças secundárias.
Entretanto, a dignidade não é uma recompensa concedida aos eficientes, mas é constitutiva da pessoa humana. A Declaração Dignitas infinita, publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé em 2024, reafirma precisamente essa compreensão ao reconhecer a dignidade ontológica de cada pessoa, independentemente das circunstâncias de sua existência (DI 1).
A vida possui sentido antes mesmo que sejamos capazes de compreendê-lo plenamente, porque sua dignidade não depende das circunstâncias que a acompanham. Essa afirmação, contudo, não elimina a experiência dramática da falta de sentido. Ao contrário, convida-nos a olhar com maior seriedade para as pessoas que, embora possuam uma dignidade inalienável, enfrentam situações que obscurecem sua percepção do próprio valor.
Muitos de nossos contemporâneos não questionam o sentido da vida por simples desinteresse religioso ou indiferença filosófica. Questionam-no porque experimentam o sofrimento, a precariedade das relações, a ausência de perspectivas, a violência, o abandono ou a sensação de não serem necessários a ninguém.
Nenhuma reflexão séria, como filosófica, literária, científica ou religiosa, pode contentar-se com respostas abstratas diante de sofrimentos concretos. Quem perdeu alguém, enfrenta a insegurança alimentar, vive sob violência ou atravessa uma crise de saúde mental não necessita de frases prontas, mas de escuta, acolhimento e condições reais de cuidado. A fé cristã é uma das tradições que procuram iluminar essa experiência, sem esgotar as formas pelas quais as pessoas buscam sentido.
O próprio livro do Eclesiastes confronta o ser humano com a transitoriedade das realizações e com a insuficiência dos bens passageiros para oferecer plenitude definitiva (Ecl 1,2-11). Os Salmos apresentam a angústia daquele que sofre, a solidão de quem espera e o clamor de quem procura a presença de Deus. A Sagrada Escritura não descreve uma humanidade permanentemente satisfeita, mas homens e mulheres que, entre esperanças e inquietações, procuram compreender o significado de sua existência.
A literatura brasileira reconhece com profundidade essa condição humana, como por exemplo em Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa escreveu: Viver é muito perigoso. Essa frase nos recorda que a vida não é um percurso protegido contra perdas, incertezas e rupturas e corrobora a poeta goiana Cora Coralina, que conheceu dificuldades e reinventou a própria trajetória, por isso nos oferece outro horizonte: Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer a capacidade humana de criar novos caminhos sem negar as marcas da história.
Cora Coralina pertence à memória cultural de Goiás e fala com a autoridade de quem transformou experiências cotidianas em poesia. Seu convite a recomeçar não é apenas uma exortação individual, pois para que alguém possa reconstruir a vida, precisa também encontrar portas abertas, escolas acessíveis, trabalho digno, proteção diante da violência e pessoas dispostas a lhe estender a mão. A perseverança pessoal é importante, mas a responsabilidade coletiva é indispensável.
Entretanto, reconhecer a vulnerabilidade não significa concluir pela ausência de sentido, mas significa compreender que a vida humana não se realiza na autossuficiência. Ninguém encontra plenamente o sentido da existência permanecendo fechado em si mesmo. O ser humano é constitutivamente relacional. Nascemos de uma relação, crescemos mediante o cuidado de outras pessoas, desenvolvemos nossa identidade no encontro e construímos nossa história por meio de vínculos. A autonomia pessoal, embora importante, não elimina nossa condição de interdependência.
O Concílio Vaticano II afirma, em Gaudium et spes, número 24, que o ser humano não pode encontrar-se plenamente senão mediante o sincero dom de si mesmo. Essa formulação constitui uma síntese extraordinária da antropologia cristã: a pessoa descobre a profundidade de sua existência quando deixa de viver exclusivamente para si e aprende a fazer da própria vida uma expressão de amor e responsabilidade.
A Magnifica humanitas, no número 48, retoma essa perspectiva ao apresentar o ser humano como chamado à comunhão com Deus e à participação no dinamismo do amor recebido e partilhado. A vida adquire significado não pela acumulação ilimitada de experiências individuais, mas pela capacidade de estabelecer relações verdadeiras, reconhecer o outro e assumir responsabilidades compartilhadas.
Nesse sentido, precisamos recuperar uma verdade frequentemente esquecida: o contrário de uma vida com sentido não é necessariamente uma vida sem conquistas, mas uma existência incapaz de reconhecer o valor do amor, dos vínculos e da doação.
Uma pessoa pode alcançar êxito profissional e experimentar profundo vazio existencial. Pode possuir recursos materiais e sentir-se radicalmente sozinha. Pode reunir reconhecimento público e, ainda assim, não descobrir razões suficientes para esperar. Por outro lado, encontramos homens e mulheres que, mesmo enfrentando limitações econômicas, enfermidades ou dificuldades familiares, testemunham uma existência profundamente significativa porque descobriram que viver é amar, cuidar, servir e construir comunhão.
São João Paulo II, na exortação apostólica Familiaris consortio, recorda que a família recebe a missão de guardar, revelar e comunicar o amor (FC 17). O Papa Francisco, na Amoris laetitia, apresenta a família como espaço no qual a vida é gerada, acolhida e acompanhada, reconhecendo sua vocação de ser lugar de crescimento humano e espiritual.
A família não é simplesmente uma estrutura de convivência nem uma organização privada destinada à satisfação de necessidades individuais. Ela constitui uma comunidade de relações na qual aprendemos, progressivamente, que nossa existência está vinculada à existência dos outros.
É na experiência familiar que, ordinariamente, a criança descobre que é amada antes de qualquer realização. É no cuidado cotidiano que aprendemos a reconhecer a fragilidade como parte da condição humana. É na convivência entre gerações que compreendemos que o valor de uma pessoa não diminui quando sua produtividade se reduz.
Na encíclica Magnifica humanitas, número 165, Leão XIV apresenta a família como um bem social primário, reconhecendo sua importância para a formação da pessoa e para a construção da sociedade. No número seguinte, o Pontífice observa que as transformações econômicas e tecnológicas tornam necessária uma proteção cultural, jurídica e econômica da vida familiar.
Essas considerações permitem compreender que a crise contemporânea do sentido da vida não pode ser dissociada da fragilização dos vínculos familiares e comunitários. Quando os relacionamentos passam a ser percebidos como realidades descartáveis, quando o compromisso é substituído pela conveniência e quando o individualismo enfraquece a responsabilidade recíproca, a existência corre o risco de perder suas referências fundamentais.
Não se trata de idealizar as famílias nem de desconhecer seus conflitos, pois há relações familiares profundamente feridas, situações de abandono e experiências de violência que exigem proteção e acompanhamento. Entretanto, precisamente por reconhecer sua importância, precisamos fortalecer as condições que permitam às famílias constituir ambientes seguros de acolhimento, crescimento, educação e transmissão da esperança.
Dar sentido à vida, nesse contexto, significa também recuperar a capacidade de pertencer e de fazer o outro sentir-se pertencente. Essa necessidade torna-se especialmente evidente quando consideramos a realidade das novas gerações.
A juventude contemporânea se encontra diante de possibilidades extraordinárias, mas também de desafios existenciais complexos. A cultura digital ampliou as oportunidades de aprendizagem, comunicação e participação social. Ao mesmo tempo, favoreceu novas formas de comparação permanente, exposição excessiva da intimidade, dependência de aprovação e fragilização da autoestima.
A juventude não pode ser tratada apenas como uma promessa distante, pois os jovens já participam da construção da cidade e precisam ser reconhecidos como interlocutores no presente. A exortação Christus vivit, do Papa Francisco, insiste em sua escuta e no acompanhamento de seus projetos. Mesmo quem não compartilha da fé cristã pode reconhecer a urgência social desse princípio: não haverá futuro coletivo sustentável se os jovens forem convidados a sonhar, mas privados de condições para estudar, trabalhar, criar e participar das decisões que os afetam.
Uma sociedade que responde a essas perguntas somente com exigências de desempenho, sucesso financeiro ou reconhecimento social oferece uma visão profundamente limitada da existência. O Papa Francisco, na exortação apostólica Christus vivit, recorda que a juventude não deve ser reduzida à preparação para a vida adulta, pois os jovens já possuem uma vocação e uma missão no presente. Eles necessitam de acompanhamento, escuta, formação e oportunidades para descobrir o sentido de sua própria existência.
A questão fundamental é que ninguém encontra esperança apenas porque alguém lhe ordenou que tivesse esperança. A esperança precisa encontrar condições concretas para florescer. Uma criança que cresce em ambiente de violência necessita de proteção. Um adolescente submetido à humilhação precisa encontrar escuta e reconhecimento. Um jovem sem perspectivas de formação ou trabalho necessita perceber que a sociedade acredita em seu futuro. Uma pessoa em sofrimento psíquico precisa de acolhimento e de acesso a cuidados adequados, sem estigmatização.
Por isso, não basta proclamar que a vida é bela quando tantas pessoas enfrentam situações nas quais lhes parece impossível reconhecer sua beleza. É necessário construir relações e instituições capazes de tornar novamente perceptível o valor da existência. Essa é uma responsabilidade das famílias, das comunidades religiosas, das instituições educativas e também do poder público.
A Constituição Federal de 1988 reconhece a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República, no artigo 1º, inciso III, e assegura a proteção do direito à vida em seu artigo 5º. Essas disposições não constituem apenas formulações jurídicas. Expressam uma exigência ética fundamental: toda organização política deve reconhecer a pessoa como finalidade, jamais como simples instrumento.
Na Magnifica humanitas, número 59, Leão XIV descreve o bem comum como a dimensão social da dignidade reconhecida a cada pessoa. Essa perspectiva é especialmente significativa para a atividade legislativa, porque demonstra que o reconhecimento da dignidade humana exige consequências institucionais concretas.
A ficção goiana também nos adverte contra o costume de reduzir a pobreza a um problema de vontade pessoal. No conto A enxada, Bernardo Élis apresenta Supriano, trabalhador rural impedido de exercer o próprio ofício em condições dignas. Sua pergunta angustiada “adonde achar uma enxada, meu Divino Padre Eterno!” expõe o absurdo de exigir produção de quem sequer dispõe dos instrumentos necessários para trabalhar. A literatura revela o que os indicadores, por si sós, podem ocultar: por trás de cada estatística existe alguém que luta para sobreviver, sustentar seus filhos e conservar a própria dignidade.
Uma cidade não promove verdadeiramente a vida apenas quando declara respeitá-la, mas quando estabelece condições para que seus cidadãos possam desenvolver uma existência digna. A qualidade da assistência às gestantes, a proteção da primeira infância, o acesso à educação, a prevenção da violência, a atenção à saúde mental, a inclusão das pessoas com deficiência, a proteção das mulheres, o acompanhamento dos idosos e o apoio às famílias cuidadoras não são questões secundárias. São dimensões concretas do compromisso social com o sentido e a dignidade da existência.
Não podemos falar de vida em abundância diante de uma criança privada do alimento necessário, não podemos anunciar a esperança a um jovem e permanecer indiferentes à ausência de oportunidades, não podemos defender a dignidade das mulheres e silenciar diante da violência doméstica e não podemos exaltar a importância dos idosos e permitir que sejam reduzidos à solidão e ao abandono.
A teologia cristã compreende que o cuidado da vida deve abranger todas as suas etapas, desde a concepção até a morte natural. A defesa da vida nascente exige também o acompanhamento concreto das mães, especialmente daquelas que enfrentam abandono, pobreza, violência ou insegurança. Da mesma maneira, a proteção dos enfermos e idosos requer assistência adequada, cuidados paliativos, proximidade familiar e combate a todas as formas de negligência.
Para a tradição cristã, a imagem mais expressiva desse compromisso com a vida encontra-se na trajetória de Jesus de Nazaré. Sua mensagem, porém, apresenta uma interpelação que ultrapassa as fronteiras confessionais: o valor de uma sociedade pode ser observado na maneira como trata os feridos, os vulneráveis e os que ficaram à margem.
O Papa Francisco, na exortação Gaudete et exsultate, número 101, recorda que a defesa da vida ainda não nascida deve caminhar juntamente com o reconhecimento da dignidade dos pobres, dos abandonados, dos enfermos e das vítimas de diversas formas de exclusão.
A vida em abundância mencionada pelo Evangelho não é uma promessa de riqueza ou ausência de dificuldades. Na linguagem da fé, aponta para uma existência aberta ao amor, à verdade e à comunhão com Deus. Na linguagem da convivência democrática, convida-nos a perguntar se as pessoas têm oportunidades reais de viver com segurança, liberdade, afeto e esperança. Essas linguagens não são idênticas, mas podem encontrar-se na defesa concreta da dignidade humana.
No Evangelho de João, Jesus declara: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Essa afirmação não deve ser interpretada como promessa de ausência de sofrimentos ou garantia de prosperidade material. A abundância anunciada por Cristo refere-se à participação em uma vida reconciliada com Deus, aberta ao amor, à verdade, à comunhão e à esperança que ultrapassa os limites da existência terrena.
Nessa narrativa, o sentido da vida encontra expressão em uma atitude compreensível para crentes e não crentes: interromper a própria caminhada para socorrer alguém cuja necessidade é maior do que nossos interesses imediatos. O cuidado é uma forma concreta de humanidade.
Ao aproximar-se dos enfermos, acolher os marginalizados, alimentar os famintos, perdoar os pecadores e restituir dignidade aos esquecidos, Jesus demonstra que a vida alcança sua plenitude no amor que se torna presença e serviço.
A parábola do Bom Samaritano, narrada em Lucas 10,25-37, constitui uma expressão particularmente eloquente dessa verdade. Diante do homem ferido, abandonado à margem do caminho, o samaritano não se limita a formular uma opinião moral sobre o sofrimento. Ele se aproxima, interrompe seu percurso, cuida das feridas e assume uma responsabilidade concreta.
A pergunta sobre o sentido da vida encontra aqui uma resposta profundamente evangélica: uma existência adquire fecundidade quando somos capazes de interromper nossa própria caminhada para reconhecer e cuidar da vida do outro.
O mesmo princípio aparece no capítulo 25 do Evangelho de Mateus, quando Jesus identifica sua presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e encarcerados. O critério decisivo não é o prestígio religioso ou social alcançado, mas a autenticidade do amor traduzido em obras.
Cora Coralina escreveu: “O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida.” Uma Casa Legislativa precisa de conhecimento técnico, dados confiáveis e segurança jurídica, mas também da sabedoria que nasce do contato com as pessoas. Ouvir uma mãe na fila de atendimento, uma professora diante da evasão escolar ou um idoso que vive sozinho pode ensinar tanto sobre as prioridades da cidade quanto muitos relatórios, pois a verdadeira grandeza política não se mede apenas pela quantidade de obras realizadas, mas pela transformação humana que essas obras proporcionam.
Em Morte e vida severina, João Cabral de Melo Neto apresenta o drama de uma existência marcada pela pobreza e pela desesperança. Ao afirmar que é difícil defender a vida somente com palavras, a obra literária nos recorda que toda reflexão sobre o sentido da existência precisa encontrar correspondência em gestos capazes de proteger e promover a vida real.
Por isso, desejamos propor uma compreensão integral da promoção da vida, na qual o cuidado humano não seja considerado apenas uma virtude privada, mas também um critério de discernimento institucional. Isso significa fortalecer o diálogo entre o poder público, as escolas, as famílias, as instituições de saúde, as universidades, as comunidades religiosas e as organizações da sociedade civil. Significa desenvolver uma cultura do encontro capaz de superar a indiferença e reconhecer que o sofrimento humano exige corresponsabilidade. Significa, sobretudo, compreender que uma cidade não se torna verdadeiramente desenvolvida apenas quando amplia suas estruturas materiais, mas quando favorece o desenvolvimento integral de seus habitantes.
Meus irmãos e irmãs, a esperança cristã oferece sua contribuição própria, sem pretender invalidar as outras tradições de pensamento e as convicções presentes nesta Casa. Em uma sociedade plural, a fé pode comparecer ao debate público como proposta de sentido e estímulo à responsabilidade, nunca como substituta do diálogo, da argumentação ou das garantias comuns a todos.
Todavia, é importante reconhecer que o sentido da vida não se reduz à solução de seus problemas sociais. Mesmo nas sociedades mais desenvolvidas, permanece a pergunta pelo significado último da existência. A enfermidade, a morte, a finitude, a experiência do fracasso e a consciência de nossa própria vulnerabilidade continuam a interpelar a condição humana.
Na fé cristã, a existência humana não está condenada ao absurdo nem encerrada definitivamente pelos limites da morte. O mistério pascal de Jesus Cristo revela que o sofrimento não possui a última palavra e que o amor é capaz de abrir possibilidades de vida mesmo onde parecem prevalecer a perda e a desesperança. A ressurreição de Cristo não elimina a seriedade da dor humana, mas inaugura um horizonte de esperança que impede a identificação definitiva da pessoa com seu sofrimento. Por isso, ter esperança não significa ignorar a realidade ou negar suas contradições, mas significa acreditar que nenhuma existência está definitivamente reduzida às dificuldades que enfrenta.
A pessoa humana é sempre maior do que seus fracassos, suas enfermidades, suas perdas ou suas limitações e essa compreensão é particularmente importante para aqueles que atravessam momentos de profundo sofrimento existencial. Não lhes devemos oferecer respostas apressadas, julgamentos ou explicações religiosas simplificadoras. Devemos oferecer presença, escuta, acompanhamento, cuidado profissional quando necessário e a certeza concreta de que sua vida continua possuindo valor.
A fé não substitui a responsabilidade humana, ao contrário, intensifica-a e não dá uma fórmula única capaz de resolver as incertezas da existência. A filosofia, as artes, as ciências, as tradições religiosas e a experiência cotidiana apresentam perspectivas distintas sobre o sentido de viver. Ainda assim, podemos reconhecer pontos de convergência: cultivar vínculos, agir com justiça, ampliar oportunidades e fazer com que outras pessoas não sejam abandonadas à própria sorte.
Senhor prefeito, senhor presidente, senhoras vereadoras e senhores vereadores, senhoras e senhores, retornamos à pergunta inicial: como dar sentido à vida no mundo atual? A resposta cristã não consiste em oferecer uma fórmula capaz de eliminar todas as incertezas da existência. Trata-se, antes, de recuperar algumas convicções fundamentais.
Encontramos sentido quando reconhecemos a vida como dom e não apenas como posse e quando compreendemos que nossa dignidade não depende do sucesso ou da aprovação social. Quando cultivamos relações verdadeiras e não apenas conexões passageiras. Quando exercemos a liberdade como responsabilidade e não como indiferença diante do outro. Quando fazemos do trabalho, da família, da participação social e da fé caminhos de realização humana. Quando descobrimos que amar e servir não diminuem nossa existência, mas a tornam mais plena.
A imagem bíblica de Babel, retomada na reflexão cristã sobre o progresso humano, suscita uma questão contemporânea: construiremos cidades orientadas apenas pela competição e pela concentração de poder, ou comunidades capazes de colocar a inovação, a economia e as decisões públicas a serviço da dignidade? Não é necessário compartilhar a interpretação religiosa dessa imagem para compreender a escolha ética que ela representa.
Talvez uma das maiores tragédias de nosso tempo seja a possibilidade de uma pessoa acreditar que sua existência não faz diferença para ninguém. Diante disso, nossas famílias, comunidades e instituições precisam comunicar, não apenas mediante palavras, mas por meio de atitudes concretas, que toda pessoa é importante, que ninguém pode ser reduzido à própria fragilidade e que toda existência merece acolhimento e proteção.
A Magnifica humanitas apresenta, já em sua introdução, uma alternativa profundamente simbólica para a humanidade contemporânea: construir uma nova torre de Babel ou edificar uma cidade na qual Deus e a humanidade possam habitar juntos. Essa imagem bíblica expressa uma escolha civilizatória: organizar o progresso em torno do poder, da autossuficiência e da competição ou orientá-lo à dignidade, à justiça, à fraternidade e ao bem comum.
Que tipo de sociedade desejamos construir? Uma sociedade na qual o valor das pessoas seja determinado pelo que produzem ou uma comunidade na qual todos sejam reconhecidos em sua dignidade? Uma sociedade em que os vulneráveis sejam percebidos como encargos ou uma cidade capaz de reconhecer no cuidado sua responsabilidade mais elevada?
Não podemos prometer uma existência sem sofrimentos, não podemos impedir todas as perdas nem eliminar inteiramente as incertezas da condição humana. Podemos, entretanto, construir uma sociedade na qual ninguém seja obrigado a enfrentar sozinho suas fragilidades.
Cora Coralina nos lembra ainda: “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.” A vida de uma cidade também se mede por sua caminhada. O progresso não pode ser privilégio daqueles que partiram de melhores condições; precisa criar caminhos para quem nasceu na periferia, para quem interrompeu os estudos, para quem envelheceu sem amparo e para quem busca uma segunda oportunidade. Uma comunidade justa não promete que todos terão o mesmo percurso, mas se empenha para que ninguém seja impedido de caminhar.
Podemos fazer com que nossas palavras se transformem em compromisso, nossos compromissos em decisões e nossas decisões em possibilidades concretas de uma vida mais digna. Portanto quem encontrou mais vida, mais dignidade, mais esperança e mais possibilidades de futuro porque nós existimos? Que criança foi protegida? Que família foi fortalecida? Que jovem reencontrou razões para sonhar? Que pessoa enferma recebeu cuidado? Que idoso deixou de sentir-se abandonado? Que ser humano voltou a reconhecer o valor de sua própria existência graças à presença de alguém?
“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Para quem crê, essas palavras são anúncio de esperança. Para quem aqui se encontra a partir de outras convicções, podem ser acolhidas como um convite ao exame de nossa responsabilidade comum: que condições estamos criando para que a vida das pessoas seja efetivamente mais digna, livre e humana?
Que Luziânia possa fortalecer continuamente uma cultura da vida, do encontro e da esperança. Uma cultura na qual a dignidade humana seja reconhecida desde a concepção até a morte natural; na qual as famílias encontrem apoio; na qual a juventude seja estimulada a construir o futuro; na qual os vulneráveis sejam acompanhados e na qual o desenvolvimento municipal esteja efetivamente a serviço da pessoa humana.
Concluo recordando as palavras de Jesus mais uma vez: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Que essa promessa evangélica encontre correspondência em nossa maneira de viver, de cuidar, de legislar, de educar e de construir relações. Porque o sentido mais profundo da vida não está simplesmente em existir, mas em reconhecer que nossa existência é dom, vocação e responsabilidade.
Viver é receber a vida. Encontrar sentido é aprender a oferecê-la no amor. Que nenhuma pessoa perca a consciência de sua dignidade. Que nenhuma família caminhe sem esperança. Que nenhum jovem seja privado de razões para sonhar. E que nenhuma instituição esqueça que sua legitimidade mais profunda consiste em servir à vida humana.
Muito obrigado.


