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Cinco anos de Amoris Laetitia

por Pastoral Familiar, 15 de março de 2021, 0 Comentários(s)

ARTIGO A PARTIR DE ENTREVISTA – PORTAL VIDA E FAMÍLIA

Dom João Carlos Petrini
Bispo de Camaçari (BA)
Ex-presidente da Comissão Vida e Família

                                                                                                                                                                       

1 – Quais as principais preocupações com a família que o senhor observa que foram determinantes para a convocação do Sínodo sobre a Família em 2014?

            Passaram-se cinco anos da publicação pelo Papa Francisco da Exortação Pós-Sinodal Amoris Laetitia e seis anos desde a realização do XIV Sínodo, que deu origem à Exortação. Eu tive a graça de participar desse Sínodo como eleito pelos Bispos do Brasil reunidos em Assembleia.

            Os jovens têm um grande desejo de família, afirma a Amoris Laetitia (AL 1) e continuam a constituir famílias abertas a gerar e movidas pelo desejo que durem para sempre. Todavia, não pode ser ignorado o fato de que emergem diferentes modos de viver o afeto e a sexualidade, que reivindicam total liberdade de vínculos e de empenhos que poderiam limitar a autonomia individual. Nesse horizonte, a fidelidade, a dissolubilidade, a diferença sexual e a abertura a gerar são percebidos, muitas vezes, como limites dos quais é necessário libertar-se para ter acesso a uma maior realização.

       Muitas mudanças aconteceram nas últimas décadas, na sociedade contemporânea e na cultura, caracterizadas por pluralismo ético e religioso. Parece que essas mudanças colocam em questão valores e horizontes de realização humana que orientaram durante milênios a conduta de homens e de mulheres em busca da felicidade, mas também produzem sofrimentos e feridas abertas em muitas pessoas (AL, 32-49; ver também DAp 33-82, e especialmente o n. 44). 

       Atualmente não mais se discute a possibilidade de usar a pílula ou de divorciar-se, como acontecia nos anos 60 e 70. Discute-se: o que significa ser homem, ser mulher e por que não decidir o próprio gênero de modo autônomo e livre de condicionamentos biológicos e sociais? Muitos se perguntam: não será melhor desfazer todos os vínculos que nos amarram, impedindo que sejamos livres para novas formas de realização que poderão aparecer no horizonte? É mesmo verdade que a maternidade e a paternidade são essenciais à realização humana de uma pessoa adulta? Ou, antes, não será isto uma imposição da cultura originada no passado e da qual hoje nós podemos nos libertar?

            O fato que duas pessoas decidam constituir um casal não coincide necessariamente com a decisão de formar família, “aliás, parece que o casal se torna alternativa à família”, afirma o professor Donati. Nesse contexto, alguns Autores consideram as relações familiares líquidas, ou fluidas, ou flutuantes.

            Todavia, a família é um grande dom, nos diz Amoris Laetitia. “Ninguém pode pensar que o enfraquecimento da família como sociedade natural fundada no matrimônio seja algo que beneficia a sociedade” (AL, 52), escreve o Papa Francisco. E continua: “só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena por ser um compromisso estável e por tornar possível a fecundidade (AL, 52).

            Afinal, o matrimônio cristão continua sendo, na experiência de muitas pessoas, nascente inesgotável de realização humana e de felicidade para diversas gerações de homens e de mulheres que encontram em Cristo a fonte do amor que os abraça e renova. Não podemos deixar que esta realidade seja mal compreendida e deixada de lado.

            A percepção dessa problemática e da vulnerabilidade das relações familiares, juntamente com a certeza do grande bem que é o amor humano, quando se funda no matrimônio e é vivido segundo o desígnio de Deus constituíram pressões para a convocação de dois Sínodos, um extraordinário e outro ordinário.  

 2. – Quais as temáticas em debate naquela ocasião que o senhor gostaria de destacar?

            Gostaria de destacar sinteticamente alguns pontos que vou retomar adiante. Recordo, em primeiro lugar, o olhar de realismo sobre a família contemporânea (AL 31-57; 315), bem como a beleza da experiência do amor humano, quando vivido segundo o desígnio de Deus, que o Papa Francisco descreve com maestria e com linguagem acessível ao povo fiel. O Papa afirma: “Com íntima alegria e profunda consolação, a Igreja olha para as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-lhes pelo testemunho que dão e encorajando-as. Com efeito, graças a elas, torna-se credível a beleza do matrimônio indissolúvel e fiel para sempre”. (AL, 86).

            Em suma, a Amoris Laetitia insiste no fato que a família, fundada no vínculo indissolúvel do matrimônio, constituída por um homem e uma mulher e por eventuais filhos, é o modo melhor de viver o amor humano, a maternidade, a paternidade, porque corresponde ao desígnio de Deus, é o caminho da maior realização humana e, ao mesmo tempo, constitui o bem mais decisivo para que a sociedade cresça na paz, nos alerta o Papa Francisco, recordando que São João Paulo II, na Familiaris Consortio tinha dito: “O futuro da humanidade passa através da família”.

            Em terceiro lugar, destacaria o convite do Papa a uma conversão pastoral, a renovar a prática pastoral, de modo que fique centrada não mais na repetição de regras, mas na indicação de passos para experimentar o vínculo familiar como um recurso, como um dom precioso, para descobrir a beleza da vida partilhada na reciprocidade do amor, para perceber a riqueza da paternidade e da maternidade como experiência de realização e de maturidade.

            Em quarto lugar destaco o convite a acolher, acompanhar, discernir e integrar, as pessoas machucadas por algum tipo de fracasso em sua vida familiar. Uma nota dominante nos ensinamentos do Papa Francisco é o convite a “curar as feridas e aquecer os corações dos fiéis”.

            Na longa entrevista que o Papa Francisco deixou ao Padre Antonio Spadaro, no dia 19 de agosto de 2013 e que foi publicada na revista dos Jesuítas “Civiltá Cattolica”, ele afirmou: “Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha”. Quer dizer, neste mundo no qual muitas vezes nos encontramos como que no meio de uma batalha, não é raro que muitas pessoas fiquem feridas, machucadas, e abandonadas no campo de batalha.

3. – Após seis anos da primeira Assembleia e depois com publicação da Exortação Apostólica, como o senhor observa os impactos pastorais da Amoris Laetitia para as famílias?

            A Amoris Laetitia ensinou à Igreja e, de maneira especial, às famílias cristã, a ter um olhar realista sobre a realidade familiar, evitando uma idealização que pouco descreve o que efetivamente acontece no quotidiano das famílias, sem todavia perder a clareza de que a família é um dom, uma esperança para o futuro da humanidade (AL, 31). Podemos dizer que o Papa Francisco convidou a termos um olhar realista e, ao mesmo tempo, positivo sobre a família, valorizando o amor humano e a graça do sacramento do matrimônio (AL, 52). Para o Papa Francisco, a família real e concreta é o lugar da manifestação de Deus. “A presença do Senhor habita na família real e concreta, com todos os seus sofrimentos, lutas, alegrias e propósitos diários” (AL 315).

            Afirma o Papa: “É salutar prestar atenção à realidade concreta, porque ‘os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história’ através dos quais ‘a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profunda do inexaurível mistério do matrimônio e da família’” (AL 31, citando Familiaris Consortio, 4).

            Durante muito tempo prevaleceu na Igreja uma postura moralista, que se limitava a recordar as normas que orientam o matrimônio cristão, os compromissos recíprocos dos cônjuges, os deveres e as obrigações com os filhos e com os idosos, com pouca sensibilidade para compreender as circunstâncias da cultura e da sociedade que dificultam a compreensão e até impedem a tranquila observância dessas normas. O Papa São João Paulo II começou um caminho, continuado pelo Papa Francisco, mais atento às pessoas, às suas exigências humanas mais profundas, apresentando a Misericórdia do Senhor como ponto para um novo começo, oferecendo novas motivações, razões adequadas para valorizar a família tocada pela graça do matrimônio.

            Dentro desse olhar positivo e realista, o Papa Francisco percorre a Palavra de Deus e o Magistério da Igreja para falar da Presença de Cristo, da graça do sacramento do matrimônio, ajudando a resgatar as possibilidades de vencer desafios apostando na beleza da conjugalidade, da paternidade e da maternidade, da condição de filho e assim por diante (Cf. todo o capítulo 3: O olhar de Jesus: a vocação da família)).

            Mas, os aspectos da Amoris Laetitia que mais impactaram as famílias emergem quando o Papa Francisco se dirige diretamente aos pastores e, de modo especial, à Pastoral Familiar. Afirma ele: A pastoral familiar «deve fazer experimentar que o Evangelho da família é resposta às expectativas mais profundas da pessoa humana: a sua dignidade e plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. Não se trata apenas de apresentar uma normativa, mas de propor valores, correspondendo à necessidade deles que se constata hoje, mesmo nos países mais secularizados» (AL 201)

            Logo em seguida, ele afirma: “é preciso ajudar os jovens a descobrir o valor e a riqueza do matrimônio. Devem poder captar o fascínio duma união plena que eleva e aperfeiçoa a dimensão social da vida, confere à sexualidade o seu sentido maior, ao mesmo tempo que promove o bem dos filhos e lhes proporciona o melhor contexto para o seu amadurecimento e educação”. [1]

            Algumas passagens da AL só podem ser compreendidas no horizonte da “Conversão Pastoral” da qual falou o Documento de Aparecida (DA 365-370), retomado pelo Papa Francisco na Evangelii Gaudium (EG); é uma mudança de chave pastoral que nos conduz a uma atitude missionária, de procura ativa e não de espera, bem no estilo da “Igreja em saída”.

            Afirma o Papa Francisco: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra. […] que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’” (EG 25, 27). Em Amoris Laetitia, ele dá um passo a mais, pedindo que toda a pastoral da Igreja se coloque em atitude de serviço à família (AL, 200-201).

            Outro aspecto relevante da Amoris laetitia que criou um impacto decisivo na Pastoral Familiar e nos Movimentos Familiares que se dedicaram intensamente ao estudo da Exortação, foi a insistência para que, diante de problemas e feridas, a primeira reação seja não a de condenar mas de acolher com misericórdia. É impressionante o apelo a acolher com misericórdia as pessoas que encontraram problemas graves no caminho da vida familiar e apresentam feridas: não condenar, mas acolher, acompanhar, e integrar até onde é possível, numa concreta comunidade cristã.

            O que pude observar na caminhada eclesial, não somente na minha Diocese, mas em muitos ambientes que tive ocasião de encontrar, é que, depois dos primeiros meses da publicação da Exortação, dominados por polêmicas a respeito do capítulo VIII e de algumas proposições que eram lidas de maneiras diferentes por diversos comentaristas, as Pastorais e as famílias passaram a deixar para os peritos as discussões mais sofisticadas e recolheram do oitavo capítulo a contribuição que delineia uma postura de compaixão e de misericórdia para com os sofredores.

            Nesse sentido, toda a Igreja, assim me parece, recepcionou o convite a acolher. A primeira atitude diante de quem está sofrendo, até mesmo por causa de decisões equivocadas, anteriormente tomadas, é o acolhimento, movido pelo desejo de imitar Jesus e aproximar a pessoa em suas concretas circunstâncias das fontes da misericórdia divina.

            A segunda recomendação do Papa Francisco é: acompanhar, isto é, não somente oferecer bondosas palavras, nem recordar as regras infringidas e os erros cometidos pela pessoa. O convite é acompanhar cada pessoa em sua situação concreta, para que descobrindo a misericórdia do Senhor, possa encontrar razões para dar a volta por cima, até onde possível.

            A terceira recomendação do Papa é discernir, isto é, colocando-se de maneira empática, ao lado e nas circunstâncias da pessoa, procurar compreender qual orientação pode ser dada, como primeiro passo de uma reaproximação com Jesus Misericórdia.

            Por fim, o Papa recomenda integrar, isto é, não afastar, não rejeitar, não discriminar, mas integrar. E o Papa se refere, claramente da integração numa comunidade cristã, na qual a pessoa possa encontrar amizade fraterna, ouvir a palavra de Deus, possa integrar-se em algum grupo que presta algum serviço aos irmãos e, dessa maneira, consiga vislumbrar os passos para ter de novo acesso aos Sacramentos.  

Considerações finais: A escolha da Família[2]

            Até a época dos nossos avós, a família raramente era uma escolha. Quase sempre era o caminho que um jovem ou uma jovem tomavam no fim da adolescência, ao entrar na maturidade, como um caminho natural, poderíamos dizer óbvio, salvo os casos nos quais o amor a Cristo ressoava com um apelo maior para a vida consagrada.

            Sempre mais jovens decidem, no tempo presente, fazer família como fruto de uma escolha consciente e livre, como o caminho preferido para a própria realização humana no amor. E, para escolher a família como opção de vida, é necessário possuir as razões que a sustentam, compreender seus verdadeiros valores e encontrar testemunhas que confirmem o bem da família cristã com sua felicidade e realização estampadas em seus rostos. Nesse horizonte, as exigências de fidelidade recíproca e de dedicação incondicional são compreendidas não como pesos insuportáveis, mas como passos para crescer em direção a uma maturidade maior e como recursos que enriquecem a experiência humana.

            A escolha da família é a escolha de viver numa companhia humana feita de estima e de afeto recíprocos que vence a solidão. É a escolha de tornar-se mãe e tornar-se pai de modo responsável, plenamente humano, fascinante. É a escolha que torna possível a felicidade e a paz, mesmo quando se atravessam circunstâncias duras. É a escolha pela beleza, pelo significado, pela juventude do coração que se renova, pelo amor que é mais forte do que a morte, (cf. Ct 8, 4b), possível pelo Amor que vence o mal e a morte e se doa a nós, que se torna presente, pela graça do Sacramento do matrimônio, no quotidiano da família cristã.


[1] Cf. Relatio Synodi 2014, 26.

[2] LAFFITTE, Jean. A Escolha da Família. São Paulo: Loyola, 2012.

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