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Home Artigos

Eclesiologia e Pastoralidade na ação evangelizadora das famílias

06/07/2026
em Artigos
Tempo de leitura: 7 mins leitura
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“Alimentar a fé da família é alimentar a fé da Igreja”, diz dom Bruno na abertura da 50ª Assembleia Nacional da Pastoral Familiar

Dom Moacir Silva Arantes
Bispo da Diocese de Barreiras (BA) e membro da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB
(Comentário realizado durante o Encontro Nacional de Movimentos e Serviços Eclesiais 2026)

Quando nos referimos a esses dois temas – eclesiologia e pastoralidade – não podemos perder de vista o percurso das Igreja nos últimos 60 anos. O Sagrado Concílio Vaticano II completou no ano passado 60 anos e sua voz em muitos lugares e ambientes eclesiais e pastorais ainda não foi ouvida, acolhida, compreendida e seguida. Isto parece indicar a falta de uma conversão pastoral derivada da falta de uma escuta sincera ao Espírito que nos fala através de sua Igreja e nos sinais dos tempos.

Muitos não leram nada do Sagrado Concílio e falam a partir de suas interpretações particulares sem conhecimento do texto. O Espírito do Vaticano II está nos seus documentos e quem não os leu não os conhece em comunhão com a Igreja. Nos documentos do Sagrado Concílio vemos o sopro do Espírito para o fortalecimento da Igreja nos novos tempos e de uma ação evangelizadora organizada e eficaz para atingir homens e mulheres do nosso tempo nas suas diversas realidades, inclusive a realidade familiar.

A Familiaris Consortio, a Amoris Laetitia e o Diretório Nacional da Pastoral Familiar com seus conteúdos como também tantos movimentos e serviços que surgiram, a partir de carismas próprios, posteriormente ao Concílio e que se renovaram a partir dele devem ser entendidos como frutos dessa ação do Espírito Santo na Igreja, para a Igreja e como Igreja para o mundo.

Considerando o que refletiu e viveu a Igreja a luz do Sagrado Concílio apresentando uma eclesiologia que redimensionou a relação entre o ser e o agir da Igreja em uma perspectiva trinitária e à luz dos conceitos de aggiornamento e diálogo, explicitando a natureza missionária da Igreja e sua realidade como Sacramento da salvação, sinal e testemunha da comunhão com a Trindade.

A Pastoral Familiar e os Movimentos e Serviços familiares precisam também refletir e viver sua realidade de ser e de agir à luz da visão conciliar na perspectiva de um aggiornamento e diálogo em vista da vivência de uma pastoralidade (cuidado pastoral) organizada e eficaz para mover as pessoas e o mundo na direção do Reino de Deus a partir de suas vivências conjugais e familiares, e de seus relacionamentos afetivos iluminados pelo Evangelho do Reino que também toca o vínculo entre o casal humano e a realidade familiar derivada desse vínculo.

O Aggiornamento

Essa expressão no Concílio não se relacionava a uma reforma institucional nem a uma modificação doutrinal, mas se referia a uma imersão total na tradição visando um rejuvenescimento da vida cristã e da Igreja. Uma fórmula na qual fidelidade à Tradição e renovação profética eram destinadas a conjugar-se; a leitura dos ‘sinais dos tempos’ devia entrar em sinergia recíproca com o testemunho da mensagem evangélica. O aggiornamento fala desta conjugação entre a tradição e a atualização de métodos. Os sinais dos tempos nos mostram o que Deus está nos apresentando, em nosso tempo e contexto, para percebermos o que Ele espera de nós e o que a realidade das pessoas e das famílias nos solicita como ação pastoral. Para Paulo VI: aggiornamento indica a relação entre a verdade cristã e a sua inserção na realidade dinâmica, contingente e mutável da vida humana condicionada pelo elemento histórico.

Precisamos também perceber como esse movimento de aggiornamento pode e deve acontecer relacionando a verdade que anunciamos sobre o matrimônio e a família no projeto de Deus e a forma como transmitimos isso dentro da realidade dinâmica da vida humana, contemplando as mudanças que envolvem as pessoas e a descoberta de novos métodos que possibilitem aproximar as pessoas dessa verdade e conduzi-las a vivência do seguimento de Jesus dentro dos critérios que Ele mês propõe.

Aqui a busca de unidade e comunhão das diversas ações evangelizadoras e pastorais presentes na Pastoral Familiar e em cada Movimento e Serviço poderão ampliar não somente a compreensão da realidade humana em suas fragilidades e expectativas, mas também apontar caminhos de cuidados e de anúncio em vista de um processo de adesão a Cristo por uma conversão sincera a Deus e ao Reino.

Não se constrói essa unidade e comunhão sem o diálogo sincero e a busca de compreensão do ser e do agir de cada pastoral, cada movimento e cada serviço que o Espírito suscitou para responder aos apelos de pessoas, casais e famílias nas suas diversas situações, fragilidade, necessidades e esperanças.

A pastoralidade

A ação evangelizadora dos casais e das famílias em todas as suas realidade de pessoas e estados de vida também precisa viver uma renovação e atualização nos métodos e em algumas estruturas considerando sobretudo os aspectos culturais e pastorais que vivem as pessoas. Novas realidades a serem contempladas, compreendidas, acolhidas ou discernidas considerando as questões culturais, mas também pastorais (que nos chamam a cuidar de todos com o pastoreio de Cristo).

Devemos entender que a mensagem cristã é anúncio, é pastoral e não arqueologia. Não vamos a Igreja para viver o passado, para ouvir a história, mas para nos encontrarmos com o Senhor e aderir a sua vontade com nossos desejos, sentimentos e pensamentos. A liturgia deve nos mostrar que o anúncio está acontecendo agora e que Deus está nos falando. E no aqui e no agora de nossa vida estamos discernindo e elegendo a quem queremos amar e servir, sob qual bandeira desejamos viver nossa vida, a cruz de Cristo ou a nossa vontade escravizada pelo mal.

Dessa forma o que precisa ser atualizado e renovado são os instrumentos hermenêuticos. Os instrumentos de interpretação da realidade. O mundo e a realidade estão se modificando constantemente e o nosso modo de fazer pastoral ainda é o mesmo de antes do Concílio. É preciso sair dos espaços de conforto onde fazemos o que sempre fizemos do mesmo modo que fazíamos; é preciso sair para a missão, ser uma pastoral, um movimento ou um serviço em sintonia com a dimensão missionária da Igreja.

A pastoralidade na ação evangelizadora das famílias tem seu fundamento no cuidado e no serviço em favor das pessoas, como espiritualidade que inspira, permeia e norteia todas as ações e decisões. Essa dimensão abarca a totalidade da pastoral, do movimento e do serviço, o complexo das suas atividades e o conjunto das pessoas que os compõem. Quando esses entes (pastoral, movimentos e serviços) atuam em vista de realizar os projetos e desejos dos seus membros algo não está bem, pois eles devem ser mediações para realizar o projeto e o desejo de Deus para a vida das pessoas e das famílias. Todos os membros de uma pastoral, movimento ou serviço são responsáveis pelo seu agir pastoral e não apenas um grupo de coordenadores ou lideranças ou fundadores.

Não podemos ficar na ilusão de que tendo uma pastoral, movimento ou serviço com grande participação já cumprimos nosso objetivo de evangelização, uma vez que aqueles que alcançamos é ainda uma fração pequena do “mar” de gente a ser buscada, por isso um movimento, uma pastoral ou um serviço não conseguirá sozinho em uma paróquia, diocese ou nação concretizar a proposta de evangelização integral que alcance a rica complexidade da ação evangelizadora da Igreja para todos em todos os lugares e circunstâncias.

Paulo VI disse que “Nenhuma definição parcial e fragmentária, porém chegará a dar a razão da realidade rica, complexa e dinâmica que é a evangelização, a não ser com o risco de a empobrecer e até mesmo de a mutilar. É impossível captá-la se não se procurar abranger com uma visão de conjunto todos os seus elementos essenciais” (EN 17).

Daí entendemos que a evangelização é uma diligência complexa, em que há variados elementos: – uma nova humanidade; a necessidade de um processo de humanização da humanidade. – evangelização e cultura; o cristianismo não tem uma cultura específica, ele se encarna em cada cultura em que é anunciado para entendê-la e, a partir dela, anunciar o seu conteúdo que pode até mesmo modifica-la e enriquecê-la. Purifica os elementos de morte e contrários ao evangelho e reforça os elementos de vida em busca da vida plena deseja por Deus. – o testemunho da vida; quem é evangelizado dá testemunho e testemunha com a própria vida. – o anúncio explícito de Jesus Cristo; não se pode falar de Jesus Cristo de forma velada ou disfarçada para agradar a outros ou facilitar o discurso. – adesão ao Evangelho, comunidade eclesial e apostolado. Aceita e acolhe o evangelho e seus valores, favorece a entrada e participação das pessoas na comunidade eclesial, e promove ações de anúncio e serviço como formas de apostolado.

JOÃO PAULO II lembrava que a Nova Evangelização é comparada a um “segundo anúncio”, mas o destaque vai para o que é próprio de todo trabalho missionário: sempre o anúncio do mesmo Evangelho de Jesus Cristo, a Boa Nova do Reino de Deus. E no nosso caso específico o ANÚNCIO DO EVANGELHO DO MATRIMÔNIO E O EVANGELHO DA FAMÍLIA.

“A comemoração do meio milênio de evangelização terá seu significado pleno se for um compromisso vosso como bispos, junto com o presbitério e fiéis, compromisso não de reevangelização, mas sim de uma evangelização nova. Nova em seu ardor, em seus métodos, em sua expressão” (Discurso na Assembleia do CELAM, 2013)

BENTO XVI disse que A Nova Evangelização, seguindo o caminho traçado por João Paulo II, no sentido de uma evangelização com “novo ardor, novos métodos e novas expressões”, em Bento XVI, se incorpora à organização institucional da Igreja com a criação de um novo Dicastério: o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. (Bento XVI, Ubicumque et Semper)

PAPA FRANCISCO Já no primeiro ano de seu pontificado, com a publicação da EG, no dia 24-11-2013 apresenta a sua preocupação com uma evangelização que seja verdadeiramente nova. Papa Francisco, de acordo com o Sínodo, lembrou que a nova evangelização se realiza em 3 âmbitos (EG 14): – o da pastoral ordinária, – o das pessoas batizadas que não vivem as exigências do batismo, – o anúncio do Evangelho para os que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre o recusaram.

Agora devemos em sintonia com as novas DGAE da Igreja do Brasil pensar o modo de pastorear nos próximos anos considerando aquilo que os bispos perceberam, analisaram, refletiram e irão propor como caminhos de evangelização geral e em específico para as famílias.

Alarga o espaço da tua tenda (Is 54,2): – Símbolo da aliança entre Deus e o seu povo. – Encontro, hospitalidade, comunhão, intimidade com Deus. – Flexibilidade – montada e desmontada a cada nova direção dada por Deus. – Jesus armou a Tenda entre nós (Jo 1,14). – A Igreja é chamada a ser Tenda de Deus (2Cor 6,16).

– Mais que espaço físico, referência para os sedentos de Deus. – A tenda exige acolher os novos tempos e mudar o que for preciso para ser fiel ao chamado de Deus que desinstala nossas falsas seguranças e nos surpreende.

Tags: 10 anosDom MoacirEncontro Movimentos EclesiaisFamiliaris Consortio
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