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Home Artigos

Falar de matrimônio às crianças: iniciação vocacional no lar e na catequese

26/05/2026
em Artigos
Tempo de leitura: 5 mins leitura
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Bom Pastor: Diocese de Guarulhos (SP) reúne casais em nova união

(Foto: Divulgação/Pastoral Familiar Regional Sul 1)

Por padre Rodolfo Chagas Pinho

Assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB

 

A infância[1] não é tempo neutro do ponto de vista vocacional. É o momento em que a criança forma sua imagem de Deus, de si mesma, dos outros e da própria família. Por isso, falar de vocação[2] e de vocação matrimonial para crianças não significa antecipar decisões, mas introduzi-las na experiência de que a vida é dom e de que amar é uma chamada de Deus.

Dois espaços são privilegiados: a família, como primeira escola de fé e de humanidade e a catequese, como lugar de iniciação cristã e de narração da história da salvação.

Como abordar o matrimônio com crianças de forma teologicamente correta e pedagogicamente adequada? De acordo com 2Tm 4,2: “Proclama a palavra… oportuna e inoportunamente” é necessário anunciar com coragem então é propostos alguns critérios para auxiliar na abordagem:

  1. Narrar mais do que explicar: utilizar histórias bíblicas que mostrem casais e famílias (Abraão e Sara, Tobias e Sara, Zacarias e Isabel, Maria e José); destacar que Deus confia às famílias um projeto de amor, cuidado, acolhida e missão.
  2. Valorizar testemunhos concretos: apresentar casais cristãos (da comunidade ou santos da tradição) como exemplos de amor fiel, perdão, serviço e oração; mostrar que o matrimônio é um modo real, belo e exigente de seguir Jesus.
  3. Linguagem positiva e não moralista: falar da beleza de ser família, de cuidar uns dos outros, de partilhar; evitar reduzir a conversa sobre matrimônio apenas a proibições ou medos.
  4. Integração com a experiência cotidiana: ajudar a criança a perceber que gestos simples – obedecer, partilhar brinquedos, perdoar um irmão – já são pequenas respostas vocacionais ao amor de Deus.

Trata‑se de formar, desde cedo, uma gramática do dom, para que a criança compreenda que qualquer vocação cristã e entre elas o matrimônio é sempre dar a vida por amor[3].

Uma cultura vocacional precisa valorizar explicitamente o matrimônio como caminho privilegiado de santidade e serviço. No anúncio e na catequese de crianças, adolescentes e jovens, incluir módulos sobre as diferentes vocações, com especial atenção à vida matrimonial e familiar. Apresentar o sacramento do matrimônio não apenas como rito, mas como vocação que estrutura toda a existência.

No acompanhamento dos noivos e dos casais em coerência com Familiaris consortio (FC 66) e Amoris laetitia (AL 205–216), Diretório Geral de Catequese e o Documento 68 do Dicastério para os Leigos a Família e a Vida sobre Itinerários Catecumenais de preparação matrimonial, é necessário passar de uma preparação imediata[4] reducionista para itinerários formativos personalizados, em que o matrimônio seja compreendido como vocação e missão; caminho de discernimento e amadurecimento da fé; serviço à Igreja e à sociedade, especialmente pela educação dos filhos e pelo testemunho de amor fiel.

A Pastoral Familiar oferece ao Serviço de Animação Vocacional o lugar concreto[5] onde a maioria das vocações nasce, cresce e se discerne. Por sua vez, o Serviço de Animação Vocacional ajuda a Pastoral Familiar a não reduzir a família à esfera privada, mas a enxergá‑la como sujeito vocacional, em diálogo com todas as formas de seguimento de Cristo.

Buscar uma Pastoral Familiar com olhar vocacional, tratar o período de namoro e noivado como tempo de discernimento vocacional, não apenas de preparação organizativa para a celebração; Acompanhar os primeiros anos de casamento como etapa de consolidação da vocação, com grupos de recém-casados, mentorias e acompanhamento espiritual[6].

A construção de uma cultura vocacional[7] supõe uma conversão de mentalidade, a vocação matrimonial precisa ser reconhecida, valorizada e acompanhada como verdadeiro caminho de santidade[8], conforme o ensinamento do Concílio Vaticano II, de Familiaris consortio e de Amoris laetitia.

Assim, a paróquia que assume seriamente a cultura vocacional, ajuda cada batizado a descobrir a vida como chamado; sustenta as famílias como Igrejas domésticas, protagonistas da evangelização; favorece o surgimento de vocações matrimoniais, presbiterais, consagradas e laicais comprometidas; e torna‑se sinal visível do Povo de Deus em caminho, no qual “o futuro da humanidade passa pela família” (FC 86) e onde “a alegria do amor, que se vive nas famílias, é também o júbilo da Igreja” (AL 1).

 

Referencias Bibliográficas

 

CONCÍLIO VATICANO II. Constituições, decretos, declarações. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2007.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019–2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.

CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Aparecida: Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. 5. ed. São Paulo: Paulus; Paulinas, 2007.

JOÃO PAULO II, Papa. Familiaris consortio: Exortação apostólica sobre a família cristã no mundo de hoje. São Paulo: Paulinas, 1982.

JOÃO PAULO II, Papa. Christifideles laici: Exortação apostólica pós-sinodal sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. São Paulo: Paulinas, 1990.

JOÃO PAULO II, Papa. Evangelium vitae: Carta encíclica sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. São Paulo: Paulinas, 1995.

FRANCISCO, Papa. Evangelii gaudium: Exortação apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013.

FRANCISCO, Papa. Amoris laetitia: Exortação apostólica pós-sinodal sobre o amor na família. São Paulo: Paulinas, 2016.

BENTO XVI, Papa. Deus caritas est: Carta encíclica sobre o amor cristão. São Paulo: Paulinas, 2006.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Preparação para o sacramento do Matrimônio. São Paulo: Paulinas, 1999.

 

[1] CONCÍLIO VATICANO II, Declaração Gravissimum educationis (GE), n. 3.

[2] FRANCISCO, Amoris laetitia (AL), nn. 31–34; 201–207.

[3] JOÃO PAULO II, Enc. Evangelium vitae (EV), nn. 2–3; 92

[4] JOÃO PAULO II, Familiaris consortio (FC), n. 66

[5] CELAM, Documento de Aparecida (DA), nn. 302–303; 431–435.

[6] FRANCISCO, Amoris laetitia (AL), nn. 206–211; 291–312.

[7] CELAM, Documento de Aparecida (DA), nn. 169; 371–372

[8] FRANCISCO, Amoris laetitia (AL), n. 1

Tags: criançasFamília
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