Setembro Amarelo em Família: cuidar da vida é missão de todos
Jonathan Igor da Silva — Psicólogo
Coordenador do Grupo de Referência em Saúde Mental para a Pastoral Familiar
Queridas famílias, que a Paz de Jesus, o Divino Salvador, esteja em nosso coração, iluminando nossas casas com serenidade, coragem e esperança. Neste mês de setembro, continuamos nossa caminhada pela valorização da vida, e lembrando o itinerário que já percorremos até aqui e que está disponível no Portal Vida e Família: aprendemos que a vida é dom, que a saúde mental é parte essencial da existência humana e que cada família pode ser espaço de cuidado e proteção. Agora, avançamos um passo decisivo: compreender como ajudar alguém que está em crise suicida, oferecendo acolhimento, escuta e encaminhamento, especialmente fundamentados pela Cartilha Cuidar da Vida: Prevenção ao Suicídio de Adolescentes e Jovens da CNBB, promovida pela Comissão Episcopal para a Juventude do Brasil (CEJ).
Quando uma pessoa entra em crise suicida, seu estado mental se encontra profundamente abalado e muito marcado por três grandes movimentos internos que são: ambivalência, impulsividade e rigidez. A ambivalência é a “gangorra” entre querer viver e querer morrer; a impulsividade acentua a urgência de escapar da dor; e a rigidez se revela na dificuldade de enxergar alternativas diante de uma dor psicológica insuportável. Esses três elementos não são sinais de fraqueza moral ou espiritual, mas efeitos diretos do sofrimento psicológico intenso. Para explicar isso de modo simples, podemos olhar para o sistema nervoso autônomo: quando a dor psicológica se torna insuportável, o sistema simpático (responsável pela resposta de luta ou fuga) fica hiperativado, gerando agitação, desespero, impulsividade e sensação de urgência. Em outros momentos, o sistema parassimpático pode predominar de forma extrema, levando à paralisia, ao vazio e à sensação de que nada mais faz sentido. Por isso, é correto afirmar que a pessoa em crise não está “escolhendo” racionalmente pelo suicídio; ela está lutando contra um corpo e uma mente em colapso.
Isto explica em partes, porque certas crises podem parecer para uma família, como que muito repentinas e/ou descoladas da realidade vivida até pouco antes de virem a acontecer, como por exemplo no caso de uma pessoa que passou o dia bem com sua família e a noite atentou contra sua própria vida. Tal como nos faz pensar que estar “regulado”, funcional ou meramente ajustado socialmente, como tanto prezam certas terapias ou guias de autoajuda não basta para se definir que uma pessoa está realmente bem e feliz de verdade.
Mas é justamente compreendendo este estado mental que nós vamos encontrando métodos para ajudar alguém e antes, durante e depois das crises como o tratamento medicamentoso, o exercício físico, técnicas de respiração, conexão social, escuta ativa e psicoterapia. Esses elementos regulam o sistema nervoso, fortalecem a saúde mental e reduzem o risco de crises graves. O suspiro fisiológico, por exemplo, que acontece quando se orienta a pessoa assistida a (1) inspirar o ar com calma e profundamente, (2) segurar o ar brevemente, (3) inspirar mais uma vez para por fim (4) expirar o ar devagar, a fim de que se possa repetir esse movimento o quanto for necessário, ajuda a reduzir a hiperativação simpática; o exercício físico (como uma caminhada terapêutica) regula hormônios ligados ao humor, dentre outros benefícios; a sadia conexão social (ex: acolhimento, boas companhias) diminui a solidão e a insegurança; a psicoterapia possibilita a elaboração de questões psicoemocionais; e o tratamento medicamentoso, quando indicado por profissionais, estabiliza o funcionamento cerebral. Nenhuma dessas medidas substitui a fé, mas todas são instrumentos concretos que Deus coloca ao nosso alcance para proteger a vida.
Quando alguém está em crise, três passos nos são então fundamentais: acolher, escutar e encaminhar. O acolhimento é o primeiro gesto: aproximar-se com calma, sem julgamento, sem frases que diminuam a dor, sem pressa de dar conselhos, ganhando ainda tempo para a redução da impulsividade. Acolher é estar presente, é dizer “eu estou aqui com você”, é oferecer segurança emocional. Em seguida, vem a escuta ativa, que consiste em prestar atenção na pessoa, não interromper, não corrigir, não moralizar, não comparar sofrimentos, fazer perguntas abertas, permitir que ela fale no seu ritmo. A escuta ativa é um gesto de amor que ajuda a pessoa a sair da rigidez mental, abrindo espaço para enxergar alternativas. É importante lembrar que, na crise, a pessoa não precisa de sermões; ela precisa de presença, calma e verdade. A escuta ativa é uma das formas mais eficazes de prevenção ao suicídio, e qualquer família pode aprender a praticá-la.
O terceiro passo é o encaminhamento. A cartilha é clara: nenhuma família deve carregar sozinha o peso de uma crise suicida. Depois de acolher e escutar, é essencial encaminhar a pessoa para profissionais de saúde: psicólogos, psiquiatras, CAPS, UBS, SAMU ou outros serviços de saúde. Encaminhar não é abandono; é cuidado responsável. É reconhecer que a vida é preciosa demais para não ser cuidada através de um tratamento multiprofissional pelo tempo que cada pessoa precisar. Encaminhar é também amar.
A prevenção ao suicídio é uma missão que envolve toda a família e toda a comunidade. A cartilha do Projeto Cuidar da Vida nos ensina que falar sobre suicídio com responsabilidade não aumenta o risco; ao contrário, salva vidas. Por isso, é importante que cada família e comunidade crie um ambiente onde seja possível falar sobre dor, tristeza, ansiedade e desesperança sem medo de julgamento. É importante que pais, mães, avós e responsáveis aprendam a reconhecer sinais de sofrimento emocional, como isolamento, irritabilidade, mudanças bruscas de humor, frases de desesperança ou comportamentos de risco. E é fundamental que cada família saiba que não está sozinha: a comunidade eclesial, os serviços de saúde e os grupos pastorais são parte dessa rede de cuidado.
Para aprofundar esse caminho, recomendamos que todas as famílias baixem gratuitamente a Cartilha Cuidar da Vida: Prevenção ao Suicídio de Adolescentes e Jovens, disponível no site Jovens Conectados. O material foi preparado pela Comissão Episcopal para a Juventude e reúne orientações claras, seguras e acessíveis para que qualquer pessoa possa compreender melhor o fenômeno do suicídio e aprender a agir com responsabilidade, fé e amor diante de uma crise. A cartilha é um instrumento precioso para fortalecer a prevenção em nossas casas, comunidades e grupos pastorais.
Que Jesus, o Divino Salvador, nos ensine a acolher como Ele acolheu; a escutar como Ele escutou; e a encaminhar com responsabilidade aqueles que precisam de ajuda. E que este texto seja um instrumento de luz, ajudando nossas comunidades a reconhecer que a prevenção ao suicídio é um gesto possível de amor, de fé e de compromisso com a vida que Deus nos confiou.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental: dados epidemiológicos e políticas públicas. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Comissão Episcopal para a Juventude. Cartilha Cuidar da Vida: Prevenção de Suicídio entre Adolescentes e Jovens. Brasília: CNBB, 2025. Disponível em: <https://jovensconectados.org.br/documento/cartilha-cuidar-da-vida-prevencao-de-suicidio-entre-adolescentes-e-jovens>. Acesso em: 21 set. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide worldwide in 2021: global epidemiology and prevention. Geneva: World Health Organization, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Preventing suicide: a global imperative. Geneva: WHO, 2014.


