Falar dos agentes da Pastoral Familiar exige, antes de tudo, superar uma compreensão reduzida que, muitas vezes, ainda permanece em nossas comunidades: a ideia de que a Pastoral Familiar seja apenas um grupo de casais ou uma equipe paroquial responsável por encontros, cursos e celebrações ligadas ao matrimônio. Sem negar a importância dos casais que assumem com generosidade essa missão, é preciso afirmar com clareza que a Pastoral Familiar é muito mais ampla.
Ela nasce da própria identidade evangelizadora da Igreja e se dirige à família como lugar privilegiado da fé, da vida, da transmissão dos valores cristãos e da experiência concreta do amor de Deus. A família não é apenas destinatária da ação pastoral, ela é também sujeito ativo da evangelização.
A Familiaris Consortio recorda que São João Paulo II definiu a família como caminho da Igreja, expressão que ajuda a compreender que toda ação pastoral precisa passar pela vida concreta das famílias, com suas alegrias, feridas, esperanças e desafios. O Papa Francisco em Amoris Laetitia afirma que a Igreja é família de famílias e que cada família se torna um bem para a Igreja, pois existe uma reciprocidade profunda. Essa visão desloca a Pastoral Familiar de uma lógica setorial e restrita para uma perspectiva transversal e missionária. Não se trata de organizar apenas atividades para casais, mas de ajudar toda a comunidade eclesial a evangelizar a partir da família, com a família e para a família.
Nesse sentido, os agentes da Pastoral Familiar são aqueles que, movidos pela fé e pela pertença à comunidade, colocam-se a serviço do Evangelho da família. Eles podem ser casais, viúvos, solteiros, jovens, idosos, ministros ordenados, religiosos, catequistas, lideranças comunitárias e todos os batizados que se dispõem a acompanhar, acolher, escutar e anunciar. A identidade do agente não se reduz ao estado civil, nem se limita a uma certificação formativa, embora a formação seja indispensável.
O fundamento primeiro da missão é o Batismo, por isso, a Evangelii Gaudium afirma que, em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário, e que cada batizado, independentemente de sua função na Igreja ou de seu grau de instrução, é sujeito ativo de evangelização. Portanto, a ação pastoral não pode ser pensada como tarefa de poucos especialistas enquanto o restante da comunidade permanece apenas como receptora.
É verdade que a Pastoral Familiar necessita de agentes preparados, o Diretório da Pastoral Familiar, indica que a formação dos agentes deve capacitá-los a transmitir os ensinamentos da Igreja com simplicidade, clareza e precisão. Essa formação é valiosa porque ajuda os agentes a compreenderem melhor a doutrina, a realidade das famílias, os desafios pastorais, a importância do acompanhamento e a necessidade de uma ação organizada. Sem formação, corre-se o risco de improvisar, moralizar, julgar ou reduzir a Pastoral Familiar a eventos pontuais sem continuidade evangelizadora.
Contudo, é igualmente necessário evitar o risco de transformar a formação em barreira de entrada para a missão. A capacitação deve impulsionar, qualificar e amadurecer a ação pastoral, não aprisioná-la em estruturas fechadas ou em pequenos grupos de “autorizados”. Quando se trata de evangelização, a Igreja não pode esperar que todos passem por longos percursos formais para só então testemunharem a fé. Isso não diminui a importância dos cursos de formação, ao contrário, recoloca-os em seu devido lugar: eles existem para servir à missão, não para substituí-la.
Assim, o agente da Pastoral Familiar é, antes de tudo, alguém que ajuda a comunidade a ter um olhar familiar sobre toda a ação evangelizadora. Ele não atua apenas quando organiza encontros de preparação para o matrimônio, celebra a Semana Nacional da Família ou acompanha casais em nova união. Sua missão é muito mais ampla: acolher as famílias em suas diversas realidades, promover a escuta, favorecer a integração entre pastorais, aproximar a Igreja das casas, ajudar os pais na educação da fé dos filhos, apoiar os noivos, acompanhar os recém-casados, cuidar das famílias feridas, valorizar os idosos, defender a vida, fortalecer os vínculos comunitários e despertar em cada lar a consciência de ser uma pequena Igreja doméstica.
Por isso, a Pastoral Familiar não deve ser vista como uma pastoral isolada, mas como uma dimensão que atravessa toda a vida da comunidade. A catequese toca a família; a liturgia envolve a família; a juventude nasce e cresce em contextos familiares; a ação social encontra famílias feridas pela pobreza, pela violência, pela solidão e pela exclusão; a pastoral vocacional depende de lares capazes de cultivar a escuta de Deus. Quando a Pastoral Familiar se compreende como grupo de casais, ela se fecha em si mesma. Quando se compreende como serviço à evangelização das famílias e pela família, ela ajuda a Igreja inteira a tornar-se mais próxima, acolhedora, missionária e encarnada na realidade das pessoas.
Os agentes, portanto, têm a tríplice missão de animar, porque ajudam a comunidade a reconhecer a beleza e a urgência do Evangelho da família; articular, porque aproximam pastorais, movimentos, serviços e lideranças em torno de uma ação comum e despertar, porque recordam a cada batizado que a evangelização começa também na casa, na mesa, na escuta, no perdão, na oração familiar, no cuidado com os filhos, no respeito aos idosos e na presença junto aos que sofrem.
A Pastoral Familiar precisa de agentes bem formados, mas também precisa de comunidades despertas; precisa de equipes organizadas, mas também de famílias missionárias; precisa de coordenações, mas também de batizados conscientes de sua vocação evangelizadora. A família é objeto da evangelização porque precisa ser acolhida, cuidada, formada e acompanhada. Mas é também sujeito da evangelização porque, quando vive a fé de modo simples e verdadeiro, torna-se sinal do amor de Deus no mundo.
Portanto, o agente da Pastoral Familiar não é dono da missão, mas servidor dela; não substitui a comunidade, mas ajuda a comunidade a assumir sua responsabilidade; não restringe a pastoral a alguns casais, mas abre caminhos para que toda a Igreja reconheça que evangelizar A família e evangelizar COM a família é uma das formas mais concretas de anunciar Jesus Cristo hoje.
Pe. Rodolfo Chagas Pinho
Presbítero da Diocese de Jacarezinho-PR
Assessor da Comissão Episcopal Vida e Família CNBB
Secretário Executivo Nacional da Pastoral Familiar


