O Papa Leão XIV recebeu em audiência, nesta sexta-feira (21), na Sala Clementina, no Vaticano, os participantes do 17° encontro anual da Rede Internacional de Legisladores Católicos. Neste ano, o evento tem como tema “Dignidade humana e inteligência artificial: desafios, oportunidades e controle”.
“O extraordinário progresso da inteligência artificial está abrindo horizontes que as gerações anteriores mal poderiam imaginar. No entanto, cada avanço tecnológico também coloca a humanidade diante de uma questão moral: não apenas o que podemos fazer, mas o que devemos fazer?”, avaliou o Santo Padre.
“De fato, hoje nossa família humana se encontra diante de uma escolha fundamental. Como escrevi na Carta Encíclica Magnifica humanitas, podemos ser tentados a construir uma nova Torre de Babel, onde o poder, a eficiência e o controle obscurecem o rosto da pessoa humana; ou podemos construir uma civilização na qual a tecnologia sirva ao desenvolvimento integral de cada pessoa”, disse o Papa.
De acordo com o Pontífice, “a questão decisiva continua a mesma: a tecnologia ajuda as pessoas a se tornarem mais fraternas e responsáveis para consigo mesmas e umas para com as outras? A esse respeito, os princípios da Doutrina Social da Igreja — a dignidade inviolável de cada pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade e a solidariedade — fornecem critérios seguros para o discernimento”.
Prezados legisladores, sua vocação os coloca no centro deste desafio. Responsáveis por elaborar políticas para a gestão da tecnologia para o bem comum, sua tarefa não é impedir a inovação, mas guiá-la com sabedoria. Uma boa legislação deve incentivar a criatividade científica e tecnológica, ao mesmo tempo que salvaguarda os direitos humanos e as liberdades. Deve proteger os usuários da exploração, zelar pela privacidade pessoal, garantir a transparência no uso das tecnologias emergentes e assegurar que elas fortaleçam as instituições democráticas.
Para isso, “são necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão”, disse ainda o Papa, citando um trecho da Magnifica humanitas. Segundo ele, “essa vigilância pode atuar em diversos níveis, local, nacional e internacional, facilitando o debate aberto sobre o “código ético a ser utilizado, submetendo-o a critérios de justiça social partilhada” e “garantindo que nenhuma ideologia ou interesse específico dite os valores incorporados nos sistemas de inteligência artificial”.
Ao mesmo tempo, o rápido desenvolvimento da inteligência artificial corre o risco de criar novas formas de dependência tecnológica, com as nações mais pobres cada vez mais dependentes das mais ricas. Devemos permanecer vigilantes a este respeito, para evitar que a inovação se torne mais um veículo de colonialismo ideológico ou econômico.
A seguir, o Papa acrescentou:
Infelizmente, nos deparamos com uma forma sutil de domínio quando são os algoritmos que decidem quem é visto e quem permanece invisível, quando plataformas digitais influenciam o debate público sem prestar contas e quando a dignidade dos trabalhadores é subordinada à otimização de sistemas. Esses desenvolvimentos revelam uma nova face da antiga tentação do domínio e do poder sem serviço.
“Contra essa cultura do poder, a Igreja propõe ‘a civilização do amor'”, disse Leão XIV, usando as palavras do Papa Paulo VI. “Uma civilização que saiba guiar com sabedoria a inteligência artificial, formando corações capazes de caridade, compaixão e responsabilidade”, sublinhou. “Numa sociedade assim, a primeira escola da humanidade seria a família. Pois é na família que aprendemos a confiar antes de calcular, a generosidade antes da competição, o diálogo antes da divisão e o amor antes do poder”, disse Leão XIV, acrescentando:
Nunca se deve permitir que a inteligência artificial corroa essa célula primária da sociedade, seja reduzindo as pessoas e as relações a dados e simulações, seja inundando as mentes jovens com conteúdos que distorcem o desejo, nem mesmo com modelos econômicos que tornam a vida familiar economicamente precária.
O Papa encorajou os participantes do 17° encontro anual da Rede Internacional de Legisladores Católicos a promoverem “políticas que fortaleçam o matrimônio e as famílias, que apoiem os pais em sua missão educativa e permitam que os jovens olhem para o futuro com confiança”.
Caros amigos, o mundo não precisa de uma inteligência artificial que diminua a humanidade; pelo contrário, precisa de inteligência humana iluminada pela sabedoria, de autoridade política guiada pela consciência e inovação tecnológica impelida pela caridade. Só assim a inteligência artificial deixará de ser uma rival da humanidade e para se tornar uma servidora do bem comum.
*Com informações do Vatican News
