Padre Rafael Solano
mestre e doutor em Teologia Moral
Quando olhamos para o tempo cronológico podemos dizer com o salmista que uma noite e mil anos não são muita coisa; seja como for entre o tempo cronológico e o kayrotico há uma única diferença o kayrotico não se conta com os dedos e sim com a alma.
No ano de 1981 o mundo era outro ou outros eram os moravam no mundo. Iniciava-se um novo ciclo chamado de “neoliberalismo”. Friedrich Hayek uma dessas figuras especiais tinha proposto uma mudança radical em volta do conceito s e liberdade não só no âmbito econômico como essencialmente antropológico.
A família estava sendo cada vez mais questionada e isto conduzia a uma situação bastante crítica em todos os países que agora não estavam mais definidos pelo capitalismo e comunismo. Tinha-se iniciado também um movimento na Polônia chamado de solidariedade que contribuiria enormemente com a queda do muro de Berlim e a Peresteoyka.
Diversas organizações atacavam a família na sua estrutura e contexto assim como também percebiam que a proposta de uma família cristã iria contra os moldes econômicos desejados.
O papa João Paulo II se adiantou e conquistou um espaço inesperado com propondo a leitura de uma exortação onde a missão e a presença da família fosse reivindicada.
Hoje quarenta e cinco anos depois podemos afirmar que a Familiaris Consortio foi o prelúdio de uma profecia: A Amoris Laetitia.
Proponho-me junto a vocês neste tempo que a vida nos dá realizarmos um paralelo hermenêutico e semiótico que nos permita ver com clareza que aquilo que a FC nos deixou se concretizou na AL.
Vamos ler o número um das duas exortações; não na íntegra só nas primeiras linhas.
Familiaris Consortio:
“A FAMÍLIA nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem esta situação na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento do instituto familiar”.
Amoris Laetitia:
“A ALEGRIA DO AMOR que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimónio – como foi observado pelos Padres sinodais – «o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja”.
João Paulo II escreve com o estilo de Chopin e Francisco com o estilo de Gardel.
Se nós continuássemos a leitura veremos que na correlação entre uma e outra exortação aparecem claramente três realidades que constituem aquilo que eu chamaria teologia do matrimônio:
1.conjugalidade.
2.Família.
3.Responsabilidade Social.
Não é explicitamente citado mas se mantém com clareza aquilo que Tertuliano, Agostinho de Hipona e Metodio de Olimpo puseram de manifesto nos seus escritos: “A teologia do matrimônio fortalece não só o casal como também o ambiente familiar e social”. Aqui é onde se encontra o centro de toda a proposta cristã: matrimônio, conjugalidade, família.
É sobre estes três pontos que os dois documentos nos oferecem um caminho aberto, claro e seguro para entender o que é verdadeiramente transcendental ao falar em família.
Existe uma referência que é dorsal no agir da família. Trata-se da Gaudium et Spes! Se tivéssemos que dar um passo ainda mais teríamos que olhar com atenção o número 52 desta constituição: “A família – na qual se congregam as diferentes gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social – constitui assim o fundamento da sociedade. E por esta razão, todos aqueles que têm alguma influência nas comunidades e grupos sociais, devem contribuir eficazmente para a promoção do matrimónio e da família. A autoridade civil há-de considerar como um dever sagrado reconhecer, proteger e favorecer a sua verdadeira natureza, assegurar a moralidade pública e fomentar a prosperidade doméstica. Deve salvaguardar-se o direito de os pais gerarem e educarem os filhos no seio da família. Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família”.
Aqui enxergasse com profunda sinceridade o primeiro desafio destes quarenta e cinco anos percorridos da mão do Concílio Vaticano II. Nós debruçamos em realizar e promover encontros para casais esquecendo a família como um todo. Propostas de evangelização que marcavam muito mais o âmbito eclesial esquecendo o social. A nossa incidência social como famílias na sociedade é quase imperceptível. Como diz a Amoris Laetitia nossa metodologia foi mais entrelaçada ao espaço do que ao tempo e isto nos distancio das realidades que o mundo tem consigo.
“A íntima comunidade da vida e do amor conjugal, fundada pelo Criador e dotada de leis próprias, é instituída por meio da aliança matrimonial, eu seja pelo irrevogável consentimento pessoal. Deste modo, por meio do acto humano com o qual os cônjuges mùtuamente se dão e recebem um ao outro, nasce uma instituição também à face da sociedade, confirmada pela lei divina. Em vista do bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado vínculo não está ao arbítrio da vontade humana. O próprio Deus é o autor do matrimónio, o qual possui diversos bens e fins,todos eles da máxima importância, quer para a propagação do género humano, quer para o proveito pessoal e sorte eterna de cada um dos membros da família, quer mesmo, finalmente, para a dignidade, estabilidade, paz e prosperidade de toda a família humana. Por sua própria índole, a instituição matrimonial e o amor conjugal estão ordenados para a procriação e educação da prole, que constituem como que a sua coroa.
O homem e a mulher, que, pela aliança conjugal «já não são dois, mas uma só carne» (Mt. 19, 6), prestam-se recíproca ajuda e serviço com a íntima união das suas pessoas e actividades, tomam consciência da própria unidade e cada vez mais a realizam. Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união”. (48)
Um segundo enorme desafio que nos leva a agir nesta profecia da família consiste na vivência da autonomia moral na fé. Francisco teve a ousadia de propor uma gradualidade pastoral sem afetar a lei natural; sem infringir a norma mas sem depender inconscientemente dela; se nós tomássemos a sério uma moral das bem aventuranças teríamos como resultado cristãos livres! Muitos casais moram na casa do temor e não querem entrar na casa do amor. A moral cristã é um caminho a ser seguido; seguindo as pegadas do amor que é o próprio Cristo.
O terceiro e último desafio encontra-se nos numerais 72 da Amoris Laetitia e 13 da Familiaris Consortio “O sacramento do matrimónio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo dum compromisso. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, porque «a sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja”.
“Numa página merecidamente famosa, Tertuliano exprimia bem a grandeza e a beleza desta vida conjugal em Cristo: «Donde me será dado expor a felicidade do matrimónio unido pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística, selado pela bênção, que os anjos anunciam e o Pai ratifica? … Qual jugo aquele de dois fiéis numa única esperança, numa única observância, numa única servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem divisão quanto ao espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e donde a carne é única, único é o espírito”.
Percebemos imediatamente de que quando abordamos o tema da preparação para o matrimônio o tema principal que devermos trabalhar é a conjugalidade que nos remete à indissolubilidade e assuma vida em família.
Teologicamente estes dois documentos nos abrem a porta para uma forma metodológica de encarar a pastoral familiar. Foi esta a proposta do último sínodo sobre a sinodalidade; abrir espaços e canais de diálogo sobre e com os quais possamos compreender o verdadeiro é íntimo valor do trabalho pastoral e missionário com as famílias.
Tenho plena certeza que será uma luz a ser seguida.
Três conclusões que podem nos ajudar a continuar com uma leitura cada vez mais acurada destes dois documentos:
A. Diante de uma sociedade meta versal como a qual nos encontramos se torna urgente uma mudança de metodologia que permita desde a pastoral familiar uma inclusão direta da ética e da teologia amparadas nas Bem Aventuranças.
B. A hermenêutica do tempo leva-nos a perceber que os imediatismos não contribuem em nada para que a reivindicação da opção fundamental possa contribuir na formação das novas famílias.
C. Para falar de acolher, acompanhar, integrar e discernir é vital que a cada dia a pastoral familiar se torne um espaço de misericórdia, relação e diálogo com os que estão dentro e fora; um desenvolvimento maior da proposta sinodal: “Alargar a tenda”; uma família alargada, ampliada onde a presença do outro seja encontro e transcendência.

