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Setembro Amarelo em Família: cuidar da vida é missão de todos

Da loucura ao cuidado: um novo olhar para a saúde mental na família

08/09/2026
em Artigos
Tempo de leitura: 5 mins leitura
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Campanha alerta sobre casamento infantil

(Foto: Banco de Imagens/Unplash)

Jonathan Igor da Silva — Psicólogo
Coordenador do Grupo de Referência em Saúde Mental para a Pastoral Familiar

 

Queridas famílias de todo o Brasil, que a graça, a paz e a luz de Jesus, o Divino Salvador, estejam com vocês! Que Ele, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância, ilumine este momento de reflexão e verdade, ajudando-nos a olhar para a saúde mental com coragem, maturidade e fé. Que este seja um tempo de libertação dos tabus que ferem, silenciam e afastam tantas pessoas do cuidado que salva e protege a vida.

Ao longo da história, o conceito de saúde mental não existia como compreendemos hoje. O que se conhecia era apenas a ideia de “loucura”, interpretada de maneiras muito diferentes conforme cada época. Na Grécia Antiga, certas formas de loucura eram vistas como manifestações divinas: estados de êxtase, delírio ou inspiração eram associados aos deuses e podiam ser considerados sinais de sensibilidade espiritual. Já na Idade Média, a loucura passou a ser interpretada como possessão demoníaca ou castigo espiritual, e pessoas em sofrimento psíquico eram temidas, excluídas ou submetidas a práticas violentas. Essas visões antigas deixaram marcas profundas no imaginário social e ainda hoje influenciam a forma como muitas famílias compreendem o sofrimento emocional.

Com o passar dos séculos, a loucura deixou de ser vista como fenômeno espiritual e passou a ser tratada como ameaça social/falha moral. Surgiu então o período manicomial, no qual hospícios se tornaram também lugares de exclusão. Qualquer pessoa considerada “fora da norma” podia ser internada: mulheres que desobedeciam a padrões sociais, jovens rebeldes, idosos sem família, pessoas pobres, alcoólatras ou até desafetos políticos. Psicólogos e psiquiatras ficaram conhecidos como “médicos de loucos”, reforçando o estigma que ainda hoje faz muitos dizerem: “não preciso de terapia, não estou louco”. Essa herança histórica ajuda a explicar por que tantas famílias ainda têm medo da saúde mental, como se ela fosse sinônimo de descontrole, vergonha ou derrota.

Essas raízes históricas também explicam por que, em muitos lares, o sofrimento emocional é interpretado como falta de Deus, falta de fé ou falta de caráter. Ainda ouvimos frases como “isso é falta do que fazer”, “isso se resolve com uma surra”, “na minha época ninguém tinha essas coisas”, ou “isso é frescura de jovem”. São expressões que não nascem de maldade, mas de uma cultura que, por séculos, não soube nomear a dor emocional e por isso a tratou com medo, silêncio ou punição. Além disso, é importante lembrar que a própria Psicologia, enquanto ciência e profissão no Brasil, é relativamente recente: sua regulamentação só ocorreu em 1962, o que significa que muitas famílias cresceram sem acesso a esse tipo de cuidado e ainda carregam dúvidas, receios e preconceitos sobre o papel dos psicólogos e psiquiatras. E assim, muitas famílias se sentem feridas quando um filho sofre, como se isso definisse toda a educação ou a estrutura familiar. Outras se sentem envergonhadas, relutantes em buscar ajuda, temendo o julgamento dos outros ou acreditando que terapia é coisa “para quem perdeu o rumo”.

Por isso é tão importante afirmar com clareza: saúde mental não é falta de Deus, não é falta de vergonha, não é má índole, não é preguiça, não é rebeldia juvenil e não é sinal de fracasso familiar. Saúde mental é parte da vida humana. Assim como o corpo adoece, a mente também pode adoecer. E assim como cuidamos de uma febre, de uma dor no peito ou de uma fratura, também precisamos cuidar da tristeza profunda, da ansiedade intensa, da angústia que paralisa, da dor que não passa. A fé pode fortalecer, consolar e iluminar, e a oração pode sustentar o coração nos momentos difíceis, mas elas não são mágicas nem nos isentam da responsabilidade de cuidar da vida com todos os recursos disponíveis. Da mesma forma, o amor da família não substitui o acompanhamento especializado ou vice-versa; ao contrário, a família é fortalecida quando conta com a ajuda profissional e com o apoio da comunidade eclesial, formando uma rede em que cada dimensão coopera com a outra para proteger e promover a vida.

Hoje compreendemos a saúde mental dentro do modelo biopsicossocioespiritual, que reconhece que o ser humano é uma unidade complexa: corpo, mente, vínculos, história, fé e condições concretas de vida. Cada dimensão coopera com a outra, e nenhuma deve ser desprezada. Quando uma família compreende isso, ela se liberta dos tabus que silenciam o sofrimento e passa a enxergar seus membros com mais verdade e compaixão. Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Buscar terapia não é admitir derrota, mas escolher viver melhor. Acompanhar alguém que sofre não é carregar culpa, mas oferecer amor.

Por isso, convidamos cada família a dar um passo concreto neste Setembro Amarelo: romper com os tabus que ferem, abrir espaço para o diálogo, escutar sem julgar, acolher sem minimizar, incentivar a busca de ajuda profissional quando necessário e criar ambientes onde cada pessoa possa falar sem medo. Que possamos olhar para a vida com mais atenção, reconhecendo que o sofrimento emocional existe, atravessa nossas casas e merece ser compreendido com verdade, delicadeza e responsabilidade. Falar sobre saúde mental não é sinal de fraqueza, mas de maturidade e amor pela vida.

E que Jesus, o Divino Salvador, que se aproximou dos que sofriam e nunca teve medo das dores humanas, inspire nossas famílias a caminhar com coragem, ternura e esperança. Que Ele nos ajude a enxergar a dignidade de cada pessoa, a acolher o sofrimento com amor e a proteger a vida em todas as suas dimensões.

 

REFERÊNCIAS

AMARANTE, Paulo. Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998.

ARISTÓTELES. Arte Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. São Paulo: Edipro, 2016. (Referência para a concepção grega de inspiração e estados de “manía” ligados às Musas.)

FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. 10. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Obra fundamental para compreender a transição da loucura como fenômeno espiritual para fenômeno social.)

FOUCAULT, Michel. O poder psiquiátrico: curso no Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006. (Referência para o papel das instituições psiquiátricas e o estigma dos “médicos de loucos”.)

MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Saúde mental: dados epidemiológicos e políticas públicas. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. (Documento oficial sobre saúde mental e políticas públicas no Brasil.)

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide worldwide in 2021: global epidemiology and prevention. Geneva: World Health Organization, 2021. Disponível em: <https://www.who.int>. Acesso em: 06 set. 2026. (Fonte para dados globais de suicídio.)

PLATÃO. Fedro. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2000. (Referência clássica para a concepção de “manía divina” como inspiração dos deuses.)

PESSOTTI, Isaías. Loucura e trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Hucitec, 1994. (Referência para a compreensão moderna da loucura como falha moral e desvio social.)

ROTELLI, Franco; LEONARDIS, Ota de; MAURI, Tomás. Desinstitucionalização. São Paulo: Hucitec, 1990. (Obra essencial para entender o período manicomial e a crítica à exclusão institucional.)

VENÂNCIO, Renato Pinto. Hospícios e loucura no Brasil: uma história das instituições psiquiátricas. São Paulo: Contexto, 2017. (Referência histórica sobre manicômios e práticas de internação no Brasil.)

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Preventing suicide: a global imperative. Geneva: WHO, 2014. Disponível em: <https://www.who.int>. Acesso em: 06 set. 2026. (Documento complementar sobre prevenção do suicídio.)

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