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Todos os dias da nossa vida

27/04/2026
em Artigos
Tempo de leitura: 5 mins leitura
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Pastoral Familiar esclarece sobre diretrizes para o Sacramento do Matrimônio

(Foto de Josh Applegate/Unplash)

Refletir sobre o amor matrimonial exige, antes de tudo, superar duas reduções frequentes, a idealização romântica do vínculo conjugal e sua compreensão meramente funcional ou jurídica. Entre esses dois extremos, a tradição cristã oferece uma via antropológica e teológica mais densa, segundo a qual o matrimônio é lugar de humanização, de amadurecimento afetivo e de revelação progressiva da lógica do dom.

Nessa perspectiva, o amor entre os esposos não pode ser compreendido apenas como intensidade emocional nem como simples estabilidade institucional, ele deve ser pensado como uma forma concreta, histórica e cotidiana de comunhão, marcada simultaneamente pela beleza da aliança e pela exigência de sua perseverança.

A encíclica Deus caritas est, de Bento XVI, fornece uma chave interpretativa particularmente fecunda para essa abordagem. Ao tratar da unidade e da distinção entre eros e agape, o Papa recusa tanto a desvalorização do amor humano quanto sua absolutização sentimental. O eros, afirma Bento XVI, necessita de disciplina, purificação e amadurecimento para realizar sua verdade mais profunda. Tal afirmação possui grande relevância para a compreensão do amor matrimonial, pois impede que o casamento seja pensado a partir de uma lógica de entusiasmo inicial permanente.

Encontro Nacional de Formação da Pastoral Familiar - 2026 Encontro Nacional de Formação da Pastoral Familiar - 2026 Encontro Nacional de Formação da Pastoral Familiar - 2026

O amor esponsal, para ser verdadeiro, não pode depender exclusivamente da força espontânea do sentimento, ele requer integração dos afetos, responsabilidade moral e aprendizagem da alteridade. Em outras palavras, o amor não se sustenta apenas pela intensidade da atração, mas pela capacidade de converter-se em dom estável de si.

Essa passagem do impulso amoroso à forma estável da aliança constitui um dos núcleos mais significativos da experiência matrimonial. O matrimônio não anula o dinamismo afetivo, mas o insere em uma estrutura de decisão, fidelidade e permanência. Por isso, o amor conjugal não se reduz ao instante do enamoramento, mas se verifica no tempo. Seu lugar próprio é o cotidiano. É precisamente na sucessão dos dias, com suas rotinas, tensões, fragilidades e recomeços, que a verdade do vínculo se torna visível. A promessa matrimonial, nesse sentido, não é um enunciado abstrato, mas uma prática existencial, amar todos os dias da nossa vida significa assumir o amor como tarefa, caminho e vocação.

Sob esse aspecto, o pensamento de Bento XVI mostra-se particularmente sóbrio e realista. Ao afirmar que o amor tende à exclusividade e ao caráter definitivo, Deus caritas est não propõe uma espiritualização desencarnada do matrimônio, mas reconhece sua densidade antropológica. Amar uma única pessoa de modo fiel e duradouro significa aceitar o desafio de permanecer diante de sua verdade concreta, e não diante de uma imagem idealizada. O amor matrimonial maduro, portanto, não é aquele que ignora os limites do outro, mas aquele que aprende a habitá-los sem desistir da comunhão. A fidelidade não se funda na inexistência de crises, mas na decisão de não permitir que a crise tenha a última palavra.

Também a escritora brasileira Adélia Prado oferece uma contribuição decisiva para a reflexão sobre o matrimônio. Em sua escrita, o cotidiano doméstico aparece como espaço de transcendência, sem perder sua concretude. O sagrado não se opõe ao ordinário, antes, deixa-se perceber nele. Tal sensibilidade permite reconhecer que o amor matrimonial possui uma espessura sacramental precisamente porque se encarna em formas simples: no cuidado com a casa, na partilha do tempo, na atenção aos gestos do outro, no corpo que envelhece, na palavra que consola, no silêncio que acompanha. Trata-se de uma compreensão profundamente antirromântica e, ao mesmo tempo, profundamente bela, a beleza do amor não está em escapar da realidade, mas em transfigurá-la a partir de dentro.

A imagem da travessia em Guimarães Rosa, outro autor brasileiro, oferece uma chave interpretativa fecunda para o matrimônio, o amor conjugal não é estado fixo, mas itinerário partilhado. Os esposos não se unem como sujeitos acabados, mas como histórias em processo. Isso significa que o matrimônio não deve ser pensado como encontro entre perfeições complementares, e sim como aliança entre fragilidades chamadas à comunhão. Nesse horizonte, o amor deixa de ser ideal romântico de completude e passa a ser experiência concreta de construção mútua, com todas as exigências éticas, afetivas e espirituais que tal construção implica.

A romantização tende a absolutizar o sentimento e a enfraquecer a dimensão ascética do amor. Cria-se a expectativa de que o vínculo autêntico deva ser naturalmente harmonioso, emocionalmente intenso e permanentemente satisfatório. Quando essa expectativa entra em choque com a realidade, o amor passa a ser percebido como fracasso. Contudo, uma antropologia cristã mais robusta reconhece que amar implica educar o desejo, ordenar as paixões, suportar frustrações, atravessar crises e aprender formas concretas de reconciliação. O amor, nesse sentido, não é apenas experiência afetiva; é também exercício moral e espiritual.

Deus caritas est consiste justamente em mostrar que o amor humano se engrandece quando deixa de ser pura busca de si e se converte em abertura ao outro. Essa passagem do fechamento à doação não elimina o desejo, mas o redime. No matrimônio, isso se expressa na passagem do eu te quero para mim ao eu quero o teu bem. Tal deslocamento é decisivo, porque impede que a relação se organize em torno da posse, da expectativa irreal ou da instrumentalização afetiva. O outro não é objeto de consumo emocional, mas sujeito de dignidade e mistério. Amar, portanto, é acolher a alteridade real da pessoa amada e permanecer comprometido com ela ao longo do tempo.

Em consequência, o amor matrimonial pode ser definido como uma forma concreta de comunhão fiel, historicamente situada, sustentada pela decisão e purificada pela experiência. Sua verdade não se mede pela ausência de sofrimento, mas pela capacidade de transformar sofrimento em ocasião de amadurecimento; não se mede pela ausência de conflito, mas pela disposição de atravessá-lo sem romper a aliança; não se mede pela permanência de sentimentos intensos, mas pela perseverança da caridade em meio às oscilações inevitáveis da vida humana.

Nessa perspectiva, o matrimônio se revela como lugar de realismo espiritual, nele a graça não substitui a condição humana, mas a assume, purifica e eleva. O amor matrimonial não se autentica apenas nos grandes momentos, mas na continuidade ordinária da existência. É no ritmo dos dias que a promessa se torna forma de vida; é no cotidiano que a aliança deixa de ser ideal e se converte em prática; é na perseverança humilde que o amor se purifica de suas ilusões e amadurece em direção à comunhão.

Assim compreendido, o amor entre os esposos não é uma fantasia sentimental nem um simples contrato social, mas uma vocação concreta à fidelidade, ao cuidado e ao dom recíproco. Sua grandeza reside exatamente nisso: não em pairar acima da vida, mas em permanecer nela, todos os dias, com verdade, responsabilidade e esperança, todos os dias da nossa vida.

 

 

 

Pe. Rodolfo Chagas Pinho

Presbítero da Diocese de Jacarezinho-PR

Assessor da Comissão Episcopal Vida e Família e Secretário Executivo Nacional da Pastoral Familiar

Tags: catecumenato matrimonialSacramento do Matrimônio
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