O Dicastério para a Doutrina da Fé divulgou, na última semana, um documento com reflexões e indicações práticas sobre a transmissão da fé na realidade atual. O texto VENITE AD ME “Vinde a Mim – Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época” contou com a contribuições de Conferência Episcopais de todo mundo, incluindo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e atende ao convite feito pelo Papa Leão XIV para dar novo impulso ao anúncio de Jesus Cristo e à transmissão da fé.
As reflexões e indicações práticas consideram a missão da Igreja de evangelizar “numa época de grande fragmentação”. A proposta é voltar ao querigma, o anúncio da pessoa de Jesus Cristo, centro do anúncio e da existência. A Igreja, assim, deve ajudar as pessoas a viverem uma relação pessoal com Ele e descobrir a alegria do Evangelho.
“Numa época de grande fragmentação, é preciso voltar ao querigma”, observa o Dicastério, que oferece reflexões e sugestões de caminhos concretos para cumprir essa missão.
Contribuição da CNBB
Na preparação do texto, as conferências episcopais contribuíram com materiais sobre o tema da transmissão da fé. A contribuição da CNBB é citada no trecho sobre a cultura individualista e da “soberania do eu” atual. Junto com as contribuições de outras conferências, a observação dos bispos do Brasil trata das repercussões dessa tendência cultural no processo de transmissão da fé.
“A progressiva perda do senso de pertença eclesial, associada à difusão de formas subjetivas de religiosidade, tem fragilizado os processos tradicionais de iniciação cristã. Nesse contexto, não se pode mais pressupor que o batismo conduza automaticamente a uma fé madura e integrada à vida comunitária”, analisaram os bispos do Brasil.
Esta observação está frequentemente presente nas reflexões dos bispos e é uma realidade que busca ser enfrentada nas propostas pastorais contidas nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.
O texto
O documento observa as formas de transmissão da fé, resgatando o que o Papa Bento XIV ensinou na abertura da V Conferência do Episcopado da América Latina, em 2007, no Santuário de Aparecida: que a fé é transmitida por atração, não por proselitismo.
Nesse contexto, a família é recordada como o primeiro e mais essencial lugar de transmissão da fé. Já as comunidades eclesiais devem investir na evangelização dos adultos, “superando uma ação pastoral concentrada exclusivamente na catequese e nos adolescentes”.
No texto, é analisado o trabalho de transmissão da fé no atual contexto de mudança de época, com a crise da transmissão da fé e uma nova cultura individualista. O texto ainda observa as tecnologias digitais e as novas fronteiras da evangelização.
No quarto capítulo, é aprofundada a centralidade do querigma, o anúncio sempre renovado da pessoa de Jesus Cristo. Revisitando o magistério do Papa Francisco e indicando alguns apontamentos do Papa Leão XIV, o documento fala da necessidade de uma missão cristocêntrica e querigmática, “que nasce de um encontro com Cristo capaz de transformar a vida e que se difunde mais por atração do que por conquista”.
É uma citação da fala do Papa Leão XIV aos cardeais sobre a missão atual da Igreja: “É uma missão integral, que une o anúncio explícito, o testemunho, o compromisso e o diálogo, sem ceder à tentação do proselitismo nem a uma lógica de mera conservação ou expansão institucional”.
Como sugestão, o documento propõe que o anúncio do querigma suscite uma experiência de fé, e assim deve “assumir um estilo, uma linguagem e um tom capazes de alcançar as pessoas onde elas se encontram, com seus desejos e seus sonhos, com suas lutas e suas dificuldades”.
A transmissão da fé nas comunidades
Quando trata da transmissão da fé nas comunidades, o documento ressalta a vida comunitária e os grupos bíblicos. Deve ser dada atenção à qualidade da vida comunitária que seja sinal do amor sincero, cuidado mútuo, generosa disponibilidade. O texto sugere promover grupos de escuta, meditação, partilha e oração da Palavra.
A Liturgia também ganha destaque. É “o lugar privilegiado” no qual o mistério anunciado no querigma é celebrado e comunicado sacramentalmente. Assim, o texto indica que se deve “superar uma visão redutora que a considere uma mera moldura ritual da vida eclesial”.
“A liturgia, de fato, é antes de tudo uma experiência de fé, ainda antes de ser um ensinamento, na medida em que permite ao fiel participar de gestos, palavras, silêncios e símbolos, vivenciando de forma viva o mistério de Cristo”.
Ao final, o texto aponta para o testemunho dos fiéis, que se articula em três dimensões fundamentais: o testemunho da santidade, o da proximidade e o da opção preferencial pelos pobres.
“Em todas as épocas, quem quer que tenha se deparado com o testemunho de um cristão exemplar sempre foi estimulado a descobrir o segredo daquela vida tão particular e diferente da maioria de seus semelhantes. Um crente que vive plenamente as exigências da mensagem cristã é, por si só, uma referência constante à verdadeira luz do mundo, que é Cristo Jesus”.
O texto ainda considera os contextos da arte e da beleza, das fases da vida. São oferecidas também considerações específicas sobre a piedade popular, as homilias, o voluntariado, a presença das mulheres, os grandes eventos e a dimensão ecumênica.
*Com informações da CNBB






